CENÁRIO DE INCERTEZA FISCAL

Mercado prevê juros altos por mais tempo diante de "pacote de bondades"

Gráfico de projeção de juros altos no Brasil.
O "pacote de bondades" anunciado pelo governo Lula inclui medidas que levantam preocupações sobre a sustentabilidade fiscal.

Medidas anunciadas pelo governo Lula, que somam R$ 190 bilhões, incluem R$ 118 bilhões fora do limite fiscal. Especialistas alertam para o impacto na credibilidade do arcabouço e nas projeções de juros a longo prazo.

O mercado financeiro projeta um cenário de juros altos e persistentes no Brasil, com a taxa Selic podendo ficar acima de 14% nos próximos dez anos. Essa expectativa é uma resposta direta ao anúncio de um pacote de R$ 190 bilhões em benefícios à população, apelidado de "pacote de bondades" pelo governo Lula. Uma parcela significativa desses recursos, cerca de R$ 118 bilhões, está fora das regras estabelecidas pelo arcabouço fiscal, gerando preocupações sobre a sustentabilidade das contas públicas e a credibilidade das políticas econômicas do governo.

A análise, baseada em um estudo exclusivo para a XP Investimentos elaborado pelo economista Marcos Mendes, aponta que aproximadamente 60% dos gastos anunciados este ano não serão contabilizados dentro do arcabouço fiscal. Segundo a analista de Economia da CNN, Lucinda Pinto, essa estratégia permite ao governo cumprir formalmente a meta fiscal sem, contudo, reduzir os gastos efetivos, o que abala a confiança na ferramenta de controle de gastos.

"Quando existe esse tipo de estratégia de fazer gastos fora da contabilidade oficial, fica bastante delicado você confiar naquele arcabouço", alertou Lucinda Pinto. Itens como o aumento do programa Minha Casa Minha Vida e o programa Desenrola, apesar de não entrarem na contabilidade fiscal formal, impactam diretamente a dívida pública e os cofres do país.

Projeções de Juros e Impacto na Economia

Os dados da curva futura de juros negociada na B3, que refletem as expectativas dos investidores para a taxa Selic, indicam projeções elevadas. Estima-se que a Selic encerre 2026 em 14,22% e suba para 14,70% no ano seguinte. Embora haja uma tendência de queda em projeções subsequentes, a taxa deve permanecer acima de 14% ao longo da próxima década. "Isso tem tudo a ver com esse cenário de fiscal descontrolado, de dívida pública em alta", comentou Lucinda Pinto.

Essa trajetória de juros elevados e prolongados remete a um período observado anteriormente durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff, segundo lembrança de Lucinda. O especialista em contas públicas Murilo Viana avaliou que o cenário fiscal compromete a sustentabilidade das contas públicas a longo prazo. Ele destacou a composição desfavorável da despesa pública brasileira, com baixo investimento e um déficit nominal expressivo devido às despesas com juros.

"A situação fiscal fica sem previsibilidade, sustentabilidade, quando a gente observa uma taxa de juros real de 8%, 9%, o que acaba levando a uma dinâmica de crescimento da dívida muito acelerada para os próximos anos", afirmou Murilo Viana. Lucinda Pinto complementou que as taxas de juros futuras não são meros instrumentos financeiros, mas sim a base para que empresas tomem decisões de investimento de longo prazo, como a construção de novas fábricas, afetando diretamente o crescimento econômico e o desenvolvimento do país.

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