SAÚDE INFANTIL EM RISCO
Médicos alertam contra Dieta Baby GAPS para bebês
Protocolo restritivo, sem evidências, ameaça desenvolvimento nutricional e neurológico de crianças.
Especialistas em saúde infantil e renomadas sociedades médicas globais emitem um alerta veemente sobre a dieta Baby GAPS, um protocolo alimentar restritivo que viraliza nas redes sociais. A preocupação se intensifica nesta segunda-feira, 18/05/2026, devido à crescente adesão de pais que buscam a dieta para seus bebês, mesmo sem comprovação científica de seus benefícios e com sérios riscos nutricionais, comprometendo o desenvolvimento e a dignidade de crianças em fase crucial de crescimento.
A dieta "GAPS", acrônimo para Gut and Psychology Syndrome, ganhou popularidade através de fóruns online e redes sociais, apesar da falta de evidências científicas robustas. Desenvolvida em 2004 pela médica e nutricionista britânica Natasha Campbell-McBride, o protocolo original foi concebido para adultos, propondo a restrição de grãos, laticínios, açúcares e amidos em favor de um alto consumo de proteínas animais. A versão adaptada para bebês, a Baby GAPS, foi detalhada no livro "GAPS Baby, Building Baby's Biome", publicado por Natasha e Becky Plotner em 2023. Esta obra sugere a introdução da dieta a partir dos 4 meses, com alimentos pastosos, caldos de ossos e carne, além de probióticos.
No entanto, a promessa de melhoria da imunidade e do desenvolvimento neurológico para os bebês esbarra na realidade da ciência. "Não existem ensaios clínicos robustos que validem a dieta GAPS, e as sociedades Europeia e Norte-Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica não recomendam seu uso. Pelo contrário, destacam que dietas altamente restritivas, sem indicação médica formal, podem acarretar riscos nutricionais significativos, como deficiências de micronutrientes e restrição calórica", alerta a gastropediatra Camila Torga de Lima e Silva, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia. Tal postura reflete o consenso de que a saúde de um bebê não deve ser submetida a modismos sem base científica.
A desinformação alimenta a popularização da Baby GAPS, com alegações falsas sobre a melhora da imunidade em prematuros, sensibilidades alimentares e até mesmo a infundada ligação entre vacinação, "toxinas" e autismo — hipóteses já refutadas pela ciência. "Não há evidência robusta de que o intestino permeável seja causa primária de doenças neurológicas ou psiquiátricas, nem de que sua modulação por dietas específicas resulte em melhora clínica dessas condições", afirma Silva. Além disso, a manutenção prolongada de alimentos excessivamente pastosos ao longo do primeiro ano de vida pode comprometer o desenvolvimento motor oral da criança, afetando sua capacidade de mastigar e deglutir.
Cortar alimentos essenciais, como leguminosas e produtos com glúten, contraria as diretrizes pediátricas atuais. O feijão, por exemplo, é recomendado a partir dos 6 meses, no início da alimentação complementar, sem restrição para crianças saudáveis. Da mesma forma, alimentos com glúten devem ser introduzidos entre 6 e 12 meses, período conhecido como "janela imunológica". "Evidências atuais demonstram que não há benefício em postergar sua introdução, não havendo impacto na prevenção de intolerâncias. A exclusão do glúten é indicada apenas nos casos de doença celíaca confirmada", reforça Camila Silva. A única restrição da Baby GAPS com respaldo científico é o açúcar, que deve ser evitado nos primeiros dois anos de vida, conforme as principais organizações médicas. No entanto, isso não justifica a eliminação total de carboidratos, como proposto pela "dieta carnívora", frequentemente associada aos fóruns GAPS.
"Os carboidratos constituem a principal fonte de energia na infância. Dietas restritivas estão associadas a déficit calórico e podem resultar em falha de crescimento, perda ponderal e prejuízo do desenvolvimento neurocognitivo. Isso se deve, em parte, ao fato de o cérebro infantil apresentar elevada demanda por glicose", explica a médica do Einstein em Goiânia. Ela adverte que a restrição pode comprometer a atenção, o aprendizado e o desempenho cognitivo das crianças, impactando seu futuro.
Então, como garantir uma introdução alimentar saudável e segura? Diretrizes pediátricas internacionais e brasileiras orientam que a alimentação complementar à amamentação deve começar aos 6 meses de idade, quando o bebê demonstra sinais de prontidão, como controle da cabeça e do tronco e interesse pelos alimentos. A recomendação é introduzir alimentos de forma gradual e variada, oferecendo a mais ampla diversidade alimentar natural possível. Isso é crucial para a formação saudável do paladar e para a prevenção de alergias.
"Orienta-se a introdução de um alimento novo por vez, sem necessidade de ordem rígida, com especial atenção à introdução precoce de alimentos potencialmente alergênicos, como ovo, amendoim, peixe e trigo. Evidências atuais demonstram que a introdução desses alimentos dentro da chamada ‘janela imunológica’ está associada a maior tolerância oral e redução do risco de alergias alimentares", orienta a especialista. A dieta do bebê deve ser rica em vegetais, frutas, cereais, leguminosas e fontes de proteína, e a consistência dos alimentos deve evoluir progressivamente, acompanhando o desenvolvimento motor da criança. "A partir dos 10 a 12 meses, a criança pode evoluir para a alimentação da família, atentando-se para a adição de sal, recomendada apenas após 1 ano de idade, conforme a Sociedade Brasileira de Pediatria", conclui a gastropediatra. A base para a saúde infantil é uma alimentação equilibrada, guiada pela ciência, e não por tendências sem comprovação.
Gostou desta notícia?
Entre no nosso grupo do WhatsApp!
Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!
📲 Quero entrar no grupo
Comentários (0)
Deixe seu comentário