INFLUÊNCIA PRESIDENCIAL
Lula impede venda do Banco Master ao BTG Pactual
Em uma reunião no Palácio do Planalto em 4 de dezembro de 2024, o Presidente da República aconselhou Daniel Vorcaro a não vender o Banco Master por um valor simbólico ao BTG Pactual. A intervenção presidencial, motivada por uma visão de redução da concentração bancária e insatisfações políticas, levantou questões sobre a autonomia do mercado financeiro e a transição na liderança do Banco Central.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aconselhou Daniel Vorcaro a não vender o Banco Master por um valor simbólico para o BTG Pactual, de André Esteves, em uma reunião secreta no Palácio do Planalto em 4 de dezembro de 2024. A intervenção presidencial, motivada pela busca de redução da concentração bancária e por claras insatisfações políticas, revelou a influência da Presidência da República nos bastidores do mercado financeiro e levantou questões sobre a autonomia regulatória do Banco Central, impactando o futuro de uma importante instituição e a confiança no sistema bancário nacional.
Na época do encontro, o Banco Master já enfrentava dificuldades financeiras. Novas informações sobre o plano inicial de venda ao BTG Pactual, com base em documentos obtidos pela Polícia Federal e noticiadas por Fabio Serapião e Natália Portinari, do portal UOL, neste domingo, 17 de maio de 2026, destacam a complexidade do cenário. Esses dados ainda não foram compartilhados com o Supremo Tribunal Federal, onde o caso da operação Compliance Zero é relatado pelo ministro André Mendonça.
Uma mensagem de Daniel Vorcaro, datada de 10 de abril de 2025, expõe uma proposta detalhada para a operação de venda ao BTG Pactual. Este plano já havia sido parcialmente noticiado pelo Drive, newsletter para assinantes do Poder360, em 27 de janeiro de 2026, indicando que o banqueiro havia informado o presidente Lula sobre essa possibilidade na reunião de dezembro de 2024 no Palácio do Planalto.
Durante o encontro, Daniel Vorcaro buscou a orientação do presidente da República, questionando: “O BTG Pactual, de André Esteves, quer comprar meu banco por R$ 1. Eu não quero confusão. Devo vender ou seguir no mercado? Nós queremos reduzir a concentração bancária do Brasil, presidente”. O presidente Lula, ao ouvir, respondeu com duras críticas ao então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, cujo mandato estava prestes a terminar, e a André Esteves, CEO do BTG Pactual. O principal conselho de Lula foi para que Vorcaro mantivesse o Banco Master e não aceitasse a proposta de Esteves. A presença de Gabriel Galípolo, que assumiria o comando da autoridade monetária em janeiro de 2025, na reunião, foi vista por Daniel Vorcaro como um claro incentivo para prosseguir com sua instituição.
A intensa interação do Banco Master com o Banco Central é notável: foram 65 reuniões presenciais desde 2019. Dessas, 24 ocorreram durante os 6 anos da gestão de Roberto Campos Neto (2019-2024) e 41 nos primeiros 11 meses de 2025, já sob a presidência de Gabriel Galípolo, o que sublinha a mudança de ambiente regulatório.
Em dezembro de 2024, o mercado financeiro já estava ciente das dificuldades do Banco Master em honrar seus compromissos, especialmente devido à venda de CDBs com rendimentos muito acima da média. Daniel Vorcaro apresentava-se a autoridades como alguém empenhado em romper o monopólio dos grandes bancos, atribuindo a si os rumores negativos como parte dessa batalha. O presidente Lula acolheu esse discurso, enxergando nele uma oportunidade para reconfigurar o sistema financeiro brasileiro, que é predominantemente dominado por Bradesco, Itaú, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
A insatisfação de Lula com declarações de André Esteves, do BTG Pactual, que sugeriam falhas na política econômica e indicavam a possibilidade de um chefe do Executivo de oposição ao PT, também influenciou sua posição. Assim, o presidente viu em Daniel Vorcaro um potencial aliado para fortalecer a presença da esquerda na Faria Lima, termo que simboliza o mercado financeiro em São Paulo.
O encontro de 4 de dezembro de 2024 foi arranjado após uma audiência formal registrada na agenda do chefe do Gabinete Pessoal da Presidência, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. Embora a audiência tenha ocorrido na data mencionada, seu registro oficial no sistema só foi feito em 27 de dezembro do mesmo ano, com o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega listado como participante, atuando como representante e lobista de Daniel Vorcaro em Brasília.
Na reunião, o presidente Lula recebeu Daniel Vorcaro ao lado do então ministro da Casa Civil, Rui Costa, e convocou Gabriel Galípolo, já designado para ser o próximo presidente do Banco Central, para participar. Naquela época, Galípolo era diretor de Política Monetária e não se ocupava diretamente da regulação do sistema financeiro. Também estavam presentes Alexandre Silveira (Minas e Energia) e Augusto Lima, então CEO do Banco Master.
As presenças de Rui Costa, ex-governador da Bahia por dois mandatos (2015-2022), e de Augusto Lima, empreendedor baiano com forte influência política em seu estado, foram particularmente significativas no encontro.
Augusto Lima, que chegou a ser preso brevemente pela operação Compliance Zero, foi posteriormente solto sem demonstração de interesse investigativo adicional pela Polícia Federal. Ele foi o principal idealizador do Credcesta, um sistema de empréstimos consignados que vendeu ao Banco Master, alavancando seu crescimento e tornando-o sócio. Em 24 de julho de 2025, Augusto Lima deixou o Banco Master e ficou com outro banco da instituição, o Voiter (depois renomeado para Pleno). O Banco Central, sob o comando de Gabriel Galípolo e ciente de possíveis fraudes, autorizou a entrega do Voiter a Augusto Lima.
Quando Daniel Vorcaro abordou a questão da concentração do sistema bancário e a atuação dos grandes bancos no mercado durante a reunião de dezembro de 2024, o presidente da República afirmou que o tema era de alçada do Banco Central e que tais questões deveriam ser tratadas tecnicamente pela autoridade monetária. Lula reforçou sua recomendação para que Daniel Vorcaro mantivesse o Banco Master e enfatizou que a autarquia teria em breve um novo presidente para substituir Roberto Campos Neto –cujo mandato terminaria em 31 de dezembro de 2024 e que jamais foi informado do encontro até sua divulgação pela mídia.
Daniel Vorcaro saiu contente do encontro com o presidente Lula. “Foi ótimo”, comemorou ele com sua então namorada, Martha Graeff, conforme mensagens de um de seus celulares em posse da PF. “Ele chamou presidente do banco central que vai entrar” e “3 ministros”, detalhou Daniel Vorcaro. Martha respondeu com um “Wowwwwww” e expressou curiosidade: “Tô louca pra saber de tudo”.
Seguindo o conselho de Lula para não vender seu banco ao BTG Pactual, Daniel Vorcaro concretizou uma negociação em março de 2025 com o BRB, banco estatal do governo do Distrito Federal. Contudo, essa operação foi imediatamente alvo de críticas no mercado financeiro e enfrentou sérios riscos de não ser concluída –o que de fato aconteceu, com o Banco Central vetando o negócio em setembro de 2025.
A reportagem do portal UOL deste domingo, 17 de maio de 2026, relata que a Polícia Federal encontrou mensagens de Daniel Vorcaro para seu então sócio Augusto Lima, datadas de 10 de abril de 2025, nas quais ele retoma o plano de vender o Banco Master ao BTG Pactual. Diante das resistências à operação com o BRB, o então dono do Banco Master procurava novas saídas.
“Irmão pelo amor de Deus. Não passe isso pra ninguém”, escreveu Daniel Vorcaro às 20h46 de 10 de abril de 2025, segundo os registros de seu celular divulgados pelo UOL. “Lógico irmão. Tá doido”, respondeu Augusto Lima na sequência.
Essas mensagens indicam que Daniel Vorcaro pode ter percebido rapidamente que a operação com o BRB, anunciada em março de 2025, não prosperaria. Aparentemente, ele considerava retornar ao plano original –aquele já compartilhado com o presidente Lula em dezembro de 2024– de vender o Banco Master por um valor simbólico ao BTG Pactual, um desfecho que, no entanto, também nunca se concretizou.
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