DESIGUALDADE IMPERDOÁVEL

Juros altos empobrecem, lucram ricos, alerta professora da FGV

Juros altos empobrecem, lucram ricos, alerta professora da FGV

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE revelam uma renda média recorde no Brasil, mas a professora de economia da FGV, Carla Beni, destaca que a persistência de juros Selic a dois dígitos por anos, somada a outros fatores como baixo nível de instrução e endividamento por jogos, intensifica a polarização social. Essa realidade cria um abismo entre quem consegue poupar e lucrar com investimentos e aqueles que pagam caro por empréstimos ou perdem sua capacidade de consumo, impactando diretamente a dignidade e a sobrevivência de milhões de famílias.

A profunda disparidade social no Brasil se intensifica, mesmo com a renda média nacional atingindo um patamar recorde. Análises de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE, corroboradas pela economista Carla Beni, professora da FGV, revelam que a estrutura de juros elevada no país é um fator crítico que aprofunda esse abismo. A constatação, apresentada ao público nesta domingo, 10 de maio de 2026, expõe como a política monetária atual beneficia desproporcionalmente quem já possui capital, enquanto impõe um fardo pesado àqueles que precisam de crédito, impactando diretamente a dignidade e a capacidade de subsistência de milhões de brasileiros.

Em entrevista concedida ao programa Agora CNN neste último sábado, 9 de maio de 2026, a professora Beni detalhou que a renda média de R$ 3.367 reflete a soma de todas as fontes de rendimento: desde salários e aposentadorias até aluguéis, pensões e, significativamente, os ganhos com aplicações financeiras.

Ela enfatizou que, embora tenha havido um aumento generalizado na renda, a distância entre os mais ricos e os mais pobres aumentou drasticamente. Segundo a economista, a sociedade brasileira se polariza em dois grupos distintos: aqueles que gastam mais do que ganham, imersos em um ciclo de endividamento, e os que conseguem economizar.

Este segundo grupo, com excedente de recursos, direciona suas economias para o mercado financeiro. Com a taxa Selic mantida a dois dígitos por cerca de quatro anos, esses investidores obtêm rendimentos vultosos, potencializados pelo poderoso mecanismo dos juros compostos. É um cenário onde o dinheiro trabalha por si só, gerando mais dinheiro para quem já o possui.

Essa dinâmica, conforme Beni, não apenas acentua a desigualdade, mas também cria um sistema perverso: "Se você precisa de um empréstimo para uma emergência ou para um sonho, paga muito mais caro do que deveria. E quem tem uma aplicação financeira, recebe mais até do que deveria, justamente pelo benefício da taxa e dos juros compostos", ressalta a professora, evidenciando o fosso que se abre entre as realidades financeiras.

Outros pilares da desigualdade

A professora da FGV aponta o nível de instrução como um divisor crucial. Conforme os dados apresentados, um trabalhador com ensino superior completo recebe, em média, R$ 6.947, valor que contrasta abruptamente com os R$ 1.518 de um trabalhador sem instrução. A educação, em vez de ser uma porta para a ascensão social, muitas vezes se revela um privilégio que perpetua as diferenças.

Adicionalmente, Beni destacou o impacto corrosivo da inflação sobre bens essenciais, como alimentos, que atinge de forma desproporcional as famílias de menor renda. O custo da vida básica consome uma fatia maior de seus orçamentos, comprometendo a capacidade de alimentação e bem-estar. O endividamento com jogos e apostas surge como um novo e alarmante problema: "As pessoas estão, literalmente, comprando menos comida por causa do endividamento com jogos", alertou, revelando uma tragédia social silenciosa.

Em meio a este cenário, os benefícios sociais atuam como um colchão de segurança, mas não solucionam as causas da desigualdade. A professora Beni sublinhou que mais de 60% dos postos de trabalho criados no ano anterior foram ocupados por beneficiários do Bolsa Família, desmistificando a ideia de que o auxílio desestimula a busca por emprego formal.

Em relação ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), houve um crescimento acima do previsto. Este aumento é atribuído tanto à inclusão de novas condições de saúde que tornam indivíduos elegíveis ao benefício, quanto a um volume expressivo de ações judiciais que asseguraram o acesso ao BPC para um número crescente de pessoas, evidenciando a luta por direitos básicos.

Por fim, ao analisar as disparidades regionais de renda no país, Beni explicou que o desempenho superior do Centro-Oeste é impulsionado, em grande parte, pelo Distrito Federal. "Se você analisar separadamente, o Distrito Federal aparece em primeiro lugar com uma renda superior a 4 mil reais, seguido por São Paulo e, em terceiro, pelo Rio Grande do Sul", detalhou. Segundo a economista, esse destaque na capital federal deve-se principalmente à elevada concentração de servidores públicos, novos concursos e contratações recentes na região, que distorcem a média geral.

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