INJUSTIÇA E VULNERABILIDADE

Quando o CEP define quem corre mais risco: como renda e raça revelam o racismo ambiental

Arlete em frente à sua residência no Jardim Pantanal, apontando marcas de enchente na parede.
Arlete aponta a altura que a água alcançou no alagamento de 2025, no Jardim Pantanal, Zona Leste de SP. Foto: Glória Maria

Estudo do Instituto Pólis associa áreas de risco à desigualdade racial e socioeconômica. Enquanto bairros abastados possuem infraestrutura, periferias enfrentam o peso da crise climática.

A exposição a desastres ambientais, como enchentes recorrentes, está diretamente ligada à distribuição desigual de renda e raça nos centros urbanos, conforme revelado por relatos de moradores e dados acadêmicos. Essa realidade, definida como racismo ambiental, impacta a dignidade de famílias que, ao longo de décadas, perdem bens materiais e a segurança básica devido à falta de investimentos estruturais em regiões periféricas. Mateus Fernandes, hoje com 25 anos, vivenciou o drama das enchentes desde os 10 anos, quando morava no bairro Parque Santos Dumont, em Guarulhos, na Grande São Paulo. O comunicador popular recorda o impacto psicológico e financeiro das sucessivas perdas, que atravessaram sua juventude e comprometeram seu desenvolvimento como Jovem Aprendiz. "Existia uma dor invisível nisso, porque cada item de uma casa custa muito para quem tem pouca renda", relata. A situação de Mateus espelha a de Arlete Santos, liderança comunitária no Jardim Pantanal, na Zona Leste de São Paulo. Moradora do local há 27 anos, ela perdeu bens avaliados em mais de R$ 60 mil em inundações que, por diversas vezes, deixaram sua família desabrigada diante do Córrego São Martinho. Diferente de Mateus, que conseguiu mudar-se para o Tucuruvi após ascender profissionalmente, Arlete permanece em área de risco, evidenciando a dificuldade de mobilidade social e a permanência na vulnerabilidade. O conceito de racismo ambiental, explicado pela diretora-executiva do Instituto Pólis, Cássia Caneca, refere-se à distribuição desigual de danos ambientais. O estudo "Racismo Ambiental e Injustiça Climática", publicado pelo instituto em novembro de 2025, analisou capitais como São Paulo, Belém, Recife e Porto Alegre. Os dados cruzados do Censo de 2022 do IBGE mostram que, em São Paulo, 61% dos moradores de áreas de risco são negros, com uma renda média domiciliar drasticamente inferior à das áreas dotadas de infraestrutura. Para especialistas, a crise climática atua como um amplificador de desigualdades históricas. A solução para o problema não é puramente natural, mas passa pela urbanização de favelas, a recuperação de córregos e a universalização do saneamento, garantindo que o direito à cidade não seja um privilégio determinado pelo CEP ou pela raça do cidadão.

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