MEMÓRIA RESISTENTE AFRO

Iphan reconhece tesouro da escravidão em Ouro Preto

Fachada de um sobrado colonial de dois andares em Ouro Preto, com telhado de telhas e paredes brancas. A casa esconde em seu interior grafismos africanos do período da escravidão.
Sobrado colonial de Ouro Preto escondia pinturas africanas inéditas no mundo

Pinturas e grafismos, descobertos em 2017, revelam cotidianos de pessoas escravizadas. Cadastro oficializado em 23 de março de 2026.

Um tesouro cultural e histórico inestimável, que revela a voz e a resistência de pessoas escravizadas no Brasil, recebeu reconhecimento oficial nesta terça-feira, 19/05/2026. Um parecer técnico assinado em 23 de março de 2026 oficializou a recomendação para a homologação do cadastro do local como o sítio arqueológico 'Inscrições Afrodiaspóricas' no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG) do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A decisão eleva um antigo porão em Ouro Preto, Minas Gerais, de simples cômodo a um marco de dignidade e memória, ressignificando a história da diáspora africana e do período escravista no país. Em Belo Horizonte, no coração da antiga Vila Rica — hoje Ouro Preto, na região Central de Minas Gerais —, o que parecia ser apenas mais uma reforma em um sobrado de 260 anos revelou um tesouro arqueológico. No porão do imóvel, localizado na rua Conde de Bobadela, antiga rua Direita, foram encontrados grafismos e pinturas ligados à cultura africana e ao período da escravidão no Brasil, que se estendeu por mais de 350 anos. Os desenhos, que retratam cenas do cotidiano e símbolos de resistência, permaneceram ocultos por muito tempo aos olhos de quem habitou a casa colonial. Em 2017, com o início das obras no cômodo de difícil acesso — com pé-direito muito baixo, de cerca de 1,50 metro, e sem instalação elétrica, onde viviam pessoas submetidas ao regime de escravidão —, essa realidade mudou. Segundo um especialista, a preservação dos desenhos até os dias atuais deve-se às próprias condições do local: um ambiente escuro, de acesso complicado e que só teve energia elétrica na década de 1980. Para Angelo Oswaldo, prefeito de Ouro Preto e uma das primeiras pessoas a quem o proprietário, Philipe Versiani Passos, mostrou as imagens, a “descoberta” representa uma oportunidade de reler a história da cidade. “Faz tempo que Philipe Versiani Passos foi alertado pelos trabalhadores que restauravam a casa sobre a existência de desenhos em uma parede do porão. Ele logo se dedicou a proteger e pesquisar o achado”, destacou.

‘Raro’

Leonardo Klink, historiador e arqueólogo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é um dos pesquisadores que se debruçam sobre essa história em seu projeto de doutorado. Ele ressalta que a diversidade de traços, técnicas e materiais empregados torna o conjunto encontrado no porão algo raro e singular. “Até o momento, a iconografia dessa parede em Ouro Preto pode ser considerada única. A riqueza de detalhes, as diferentes técnicas e materiais empregados, a possibilidade de alguns registros remeterem a experiências ligadas ao continente africano e não necessariamente ao Brasil, além da diversidade de traços que sugere um processo colaborativo, tornam esse conjunto bastante singular. Soma-se a isso a peculiaridade da própria argamassa, que parece ter sido aplicada especificamente para a realização desses registros”, detalhou Klink. O especialista revelou que, ao entrevistar antigas moradoras, descobriu-se que elas já conheciam os desenhos, mas não lhes davam muita atenção. “Elas relataram que já conheciam os desenhos, mas nunca deram muita atenção”, disse. O local no subsolo da casa, escuro, apertado e parcialmente coberto por terra, não teve energia elétrica até os anos 1980. Essas condições atípicas foram cruciais para preservar os vestígios por séculos. “A própria dificuldade de acesso ao local parece ter sido um dos fatores que possibilitaram a sobrevivência desses registros”, acrescentou Klink.

Complexidade

Os pesquisadores identificaram cerca de 26 desenhos, criados de formas diversas, como riscos gravados na parede, grafites com pigmentos pretos e avermelhados, e técnicas misturadas. Muitos só puderam ser visualizados com luzes especiais e tratamento digital, devido ao desgaste acumulado ao longo dos séculos. “Até agora, não foi encontrado outro caso semelhante no mundo com esse conjunto de características. Existem pesquisas sobre gravuras próximas a essas em abrigos rochosos de Minas, mas, no contexto urbano atual, esse painel permanece sem paralelo. Ainda assim, é possível que outros exemplares estejam ocultos em casas antigas da cidade e ainda não tenham sido identificados”, afirmou.

Felino, aves e embarcação

Entre os desenhos identificados, há atribuições a animais como um felino que pode remeter a um leopardo, guepardo ou mesmo uma onça, aves, uma embarcação, figuras geométricas, elementos de vegetação e até uma possível joaninha, segundo o pesquisador. Dentre todos os registros, três despertam particular curiosidade. “Um deles mostra um grupo de pessoas em um pátio cercado por muros e torres, com duas figuras utilizando um pilão. Consegui localizar correspondências para esse tipo de construção em regiões do interior da África Ocidental. Há também uma espécie de máscara em grafite com fibras inseridas, bastante semelhante a tradições da África Centro-Ocidental”, detalhou. O terceiro desenho é o mais intrigante: feito com pigmento escuro, ele parece misturar características humanas e animais, com chifres e uma boca grande com dentes pontiagudos. “Até mesmo a incisão da embarcação abre diferentes possibilidades de interpretação. Por um lado, ela pode aludir a um barco de pesca ou deslocamento em regiões africanas. Por outro, a presença de uma bandeira sobre o mastro é um elemento encontrado em navios europeus dos séculos XVIII e XIX. Assim, não se pode descartar a hipótese de que a cena figure a própria travessia de uma dessas pessoas até a casa em Vila Rica”, ponderou.

O mistério

Ainda não é possível saber com exatidão quem criou as imagens ou quando elas foram feitas. A hipótese é que os autores podem ter vivido em períodos diferentes, entre o início da segunda metade do século XVIII e as primeiras décadas do XIX, já que o sobrado teve vários proprietários ao longo do tempo. “O que se sabe é que dezenas de africanos e seus descendentes viveram naquele espaço enquanto pessoas escravizadas, desempenhando tarefas domésticas, trabalhos pesados e diferentes atividades do cotidiano. Mas, para além disso, eram sujeitos que interagiam, criavam vínculos, aspiravam, sonhavam e buscavam formas de ascensão social”, contou Klink, que também reflete sobre a criatividade para lidar com experiências cotidianas de saudade, luto e tristeza. Para o século XVIII, o pesquisador observa uma chegada expressiva de indivíduos trazidos à força de portos e feitorias da África Ocidental, classificados pelas redes comerciais sob designações como “mina”, “cabo verde”, “cobu”, “calabar” e “coura”. “Já na virada do século XVIII para o XIX, a vila passa a contar com uma maioria de africanos embarcados na porção Centro-Ocidental do continente, identificados na documentação mineira como “angola”, “cabinda”, “congo”, “loango” e “benguela””, explicou. No entanto, essas nomenclaturas eram categorias amplas, homogeneizantes e muitas vezes pejorativas, “que não correspondiam necessariamente às origens, identidades e territórios de pertencimento dessas populações”, completou Klink.

Reler Ouro Preto

Há ainda outro ponto importante: a necessidade de questionar os usos atribuídos aos antigos porões coloniais. “A literatura, a historiografia e até o turismo frequentemente os classificam automaticamente como senzalas urbanas. De fato, alguns relatos deixados por viajantes europeus mencionam esse tipo de utilização, mas os alojamentos de pessoas escravizadas também podiam ocupar lojas térreas, corredores, cozinhas e senzalas localizadas nos quintais”, disse Klink. Como ainda não se sabe exatamente qual era a função do local, o pesquisador acredita que o espaço pode ter sido usado para deixar desenhos e símbolos com significados importantes para essas pessoas. “O ambiente pode ser pensado como um lugar de exercício de autonomia, contestação, personalização e até de pequenas formas de poder e controle, ainda que sob as estreitas fronteiras impostas pelo sistema escravista e sob o risco constante de punição caso essas práticas fossem descobertas”, concluiu.

Visitação

A casa ainda não está aberta para visitação e passa por adequações exigidas pelo Iphan para garantir a preservação do espaço. “O imóvel segue em processo de adequação junto ao Iphan. Foram estabelecidas exigências relacionadas ao controle de circulação, aos usos e às intervenções no espaço”, informou. Segundo o especialista, o reconhecimento como sítio arqueológico deve auxiliar na conservação e na futura abertura ao público. “A expectativa é que, assim que essas etapas forem concluídas e liberadas, a casa possa ser efetivamente preparada para receber visitantes e turistas”, completou. O Iphan afirmou, por meio de nota, que o sítio arqueológico ‘Inscrições Afrodiaspóricas’ constitui, até o momento, um bem de natureza singular e de fundamental importância para a história da diáspora africana em Minas Gerais e no Brasil. “Considerado de relevância nacional, o local reúne valor informativo e memorial excepcional, preservando vestígios de modos de vida, práticas culturais, religiosidade e estratégias de resistência de pessoas submetidas à escravidão”, escreveu a instituição.

Gostou desta notícia?

Entre no nosso grupo do WhatsApp!

Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!

📲 Quero entrar no grupo

Compartilhe esta matéria

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário