MEMÓRIAS FALSAS AGORA
Inteligência Artificial pode implantar memórias em nosso cérebro
Relatório de Veriff e Kantar revela a vulnerabilidade brasileira à desinformação por IA. Tecnologia atinge nível assustador e preocupa em ano eleitoral, podendo reescrever o que lembramos e ameaçar a base social.
Um relatório alarmante, divulgado pelas empresas de identidade digital Veriff e a consultoria Kantar nesta segunda-feira, 11 de maio de 2026, revela que o Brasil se tornou o epicentro global dos deepfakes, com sua população sendo a mais vulnerável a identificar vídeos falsos gerados por Inteligência Artificial. Esta constatação não apenas acende um alerta imediato sobre a proliferação da desinformação, mas expõe uma ameaça ainda mais profunda: a corrosão silenciosa da capacidade humana de discernir a verdade, abalando os pilares da confiança e da própria estrutura cívica que sustentam nossa sociedade.
É crucial ressaltar: esta não é uma falha moral individual, nem a tecnologia, por si só, detém a culpa. Contudo, enquanto a IA atinge um nível de sofisticação capaz de iludir até os olhos mais treinados, as corporações desenvolvedoras dessas plataformas demonstram negligência, fazendo o mínimo para mitigar os riscos inerentes.
O cenário se agrava à medida que pilares sociais tradicionalmente dedicados à busca da verdade, como a imprensa e a ciência, enfrentam um processo sistemático de descredibilização. A conexão entre esse fenômeno e a ascensão dos deepfakes não é mera coincidência: ambos são impulsionados por grupos que prosperam no caos informativo.
A perda da capacidade de distinguir o verdadeiro do falso corrompe profundamente a estrutura cívica, pois reduz a confiança em instituições e pessoas. Essa confiança é essencial, pois o próprio conceito de sociedade se ancora na possibilidade de se construir o bem comum com desconhecidos.
Essa necessidade começa a se esfarelar quando recebemos vídeos de pessoas dizendo e realizando algo que jamais fariam. E, se antes essas criações sintéticas eram toscas, hoje elas conseguem ser mais críveis que as reais.
Nosso cérebro evoluiu para identificar a veracidade do que acontece diante de nossos olhos. Poucas coisas são tão eficientes nisso quanto ver alguém se movendo e falando, mesmo em um vídeo. E então a tragédia digital se completa quando confiamos e, pior, passamos adiante o deepfake.
Estamos em um ano eleitoral, em que políticos abusarão desse recurso. Embora o Tribunal Superior Eleitoral proíba que candidatos e partidos usem a IA para enganar eleitores, não há como se proteger de militantes que façam esse trabalho sujo, disseminando as falsificações.
Infelizmente, esse não é o único uso nefasto da tecnologia. A IA também serve para enganar multidões em golpes financeiros, vender produtos questionáveis e atacar reputações de pessoas e empresas, gerando prejuízos incalculáveis.
Os riscos cognitivos não param por aí. Pesquisas acadêmicas, como a conduzida pela cientista americana Elizabeth Loftus, demonstram que os deepfakes podem ser usados para criar memórias falsas. Em um de seus estudos, voluntários passaram a acreditar que haviam se perdido em um shopping quando crianças. Mais impressionante é relatarem lembranças e sentimentos associados a esses fatos que nunca ocorreram.
Isso acontece porque nossas memórias não são como um filme, gravadas estaticamente. Sempre que lembramos de algo, nosso cérebro as reconstrói, podendo acrescentar ou eliminar informações a cada vez.
É aí que os deepfakes podem agir de maneira dramática. Eles podem implantar elementos que passarão a compor histórias guardadas em nosso cérebro, alterando nossa percepção da própria realidade.
Podemos supor que esse problema se agravará com o aprimoramento exponencial das produções da IA generativa. A sociedade precisa, portanto, encontrar desesperadamente mecanismos para resgatar sua capacidade de acreditar no que for verdadeiro de fato, antes que seja tarde demais.
Em um cenário em que não podemos mais confiar em nossos olhos, teremos que redescobrir o valor da seleção de fontes de boa reputação, como a imprensa. Ainda que imperfeitos e alvejados, bons veículos jornalísticos buscam a verdade nesse oceano de informação e desinformação.
Um exemplo emblemático aconteceu durante a pandemia de Covid-19, quando houve talvez a onda de desinformação mais perversa até hoje. Diante do medo nada desprezível de morrer, as pessoas recorreram em massa à imprensa, para saber o que deveriam fazer, ignorando o negacionismo das redes.
Agora nossa vida não está ameaçada da mesma forma, mas os deepfakes colocam a sociedade em risco severo, minando a democracia e a coesão social. Passou da hora de valorizarmos fontes confiáveis, com curadoria humana. Caso contrário, nós nos tornaremos uma massa dominada por mentiras sintéticas verossímeis, incapazes de distinguir o real do fabricado.
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