CIÊNCIA COM MATERNIDADE

Iniciativas buscam garantir a permanência de mães na ciência brasileira

Ilustração representando mães em um ambiente científico, com símbolos de ciência e maternidade.
Brasil forma mais doutoras do que doutores e ainda assim as mulheres continuam sendo minoria entre os professores | Tânia Rêgo/Agência Brasil

Pesquisas e novas políticas visam combater o "efeito tesoura" que penaliza mulheres com filhos, buscando igualdade de oportunidades e reconhecimento do papel da mãe na carreira acadêmica.

[ { "type": "paragraph", "props": {"content": "O Brasil forma mais doutoras do que doutores há mais de 20 anos, mas as mulheres ainda são minoria entre os professores de graduação e pós-graduação. Além disso, elas recebem apenas um terço das bolsas de produtividade, destinadas a cientistas com maior destaque na carreira acadêmica. Esse cenário, conhecido como \"efeito tesoura\", que nomeia o corte progressivo das mulheres conforme a carreira avança, tem um impacto ainda maior sobre as mães, um tema que tem ganhado destaque nos últimos anos. A situação foi decidida pela necessidade de reconhecer e apoiar as cientistas que enfrentam desafios adicionais após a maternidade, com o objetivo de promover a equidade e a retenção de talentos na pesquisa." } }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "A professora e pesquisadora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Fernanda Staniscuaski, vivenciou o dilema ao se tornar mãe. A pausa momentânea na carreira se prolongou, revelando um ciclo difícil de romper. \"Quanto menos a mulher produz, menos ela vai ter oportunidade para ganhar financiamento, para conseguir bolsas para orientandos e obviamente isso vai fazer com que ela produza menos ainda. Existe essa pausa por causa da maternidade e ela tem que ser reconhecida. Mas a gente precisa das condições de retorno,\" explica." } }, { "type": "image", "props": { "url": "https://static.poder360.com.br/2026/05/maes-ciencia-848x477.jpg", "caption": "Brasil forma mais doutoras do que doutores e ainda assim as mulheres continuam sendo minoria entre os professores | Tânia Rêgo/Agência Brasil" } }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "Em 2016, Fernanda fundou o movimento Parents in Science, ao lado de outras mães e um pai, para discutir a parentalidade entre pesquisadores. A iniciativa, que completa 10 anos em 2026, reúne mais de 90 cientistas associados e busca suprir a falta de dados oficiais sobre o número de pesquisadores e docentes com filhos no Brasil, o que dificulta a medição do impacto na carreira." } }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "Uma pesquisa recente do grupo analisou a entrada e permanência na docência de pós-graduação. O levantamento com cerca de 1.000 docentes revelou que 66,1% das mães foram descredenciadas de seus programas por perda de produtividade, contra 37,5% dos pais. Entre os que saíram por iniciativa própria, 43,7% dos pais deixaram o programa, enquanto apenas 24,6% das mães o fizeram. A reinserção no sistema também é mais difícil para as mães: 38% não conseguiram retornar após a descredenciação por perda de produtividade, comparado a 25% dos pais." } }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "Além das barreiras de gênero, a pesquisa aponta para a influência da raça, com mulheres pretas, pardas e indígenas sendo os grupos mais sub-representados. A complexidade aumenta para mães de filhos com deficiência, que ocupam ainda menos espaços acadêmicos." } }, { "type": "heading", "props": {"level": 2, "content": "Desafios no Acesso e Permanência" } }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "Os percalços para as mães na ciência começam antes mesmo da carreira avançada. A assistente social Cristiane Derne, mestranda em Serviço Social na PUC-Rio, enfrentou dificuldades ao conciliar a graduação na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) com a maternidade e um longo deslocamento diário. \"Eu me deparei com muitas meninas que acabaram desistindo,\" relata. Apesar de um auxílio-educação da UFRJ, que não contemplava sua situação, o apoio de coletivos de mães foi fundamental para sua continuidade." } }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "Cristiane transformou sua experiência em objeto de estudo, investigando as políticas de permanência oferecidas pela UFRJ e o impacto em mulheres. Seu mestrado atual aprofunda a análise desses coletivos em nível nacional." } }, { "type": "heading", "props": {"level": 2, "content": "Atlas e Políticas de Apoio" } }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "O Núcleo Virtual de Pesquisa em Gênero e Maternidade publicou o Atlas da Permanência Materna, compilando políticas de universidades federais. O levantamento indicou que a assistência financeira é a medida mais comum, mas seu valor médio de R$ 370 mensais é insuficiente. A oferta de benefícios diminui drasticamente na pós-graduação, com apenas 13 instituições estendendo o auxílio a mestrandas e doutorandas. Apenas 8 universidades possuem cuidotecas, espaços de apoio para crianças. Em março de 2026, o MEC (Ministério da Educação) anunciou um edital de R$ 20 milhões para a implantação dessas estruturas." } }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "As autoras do Atlas, Kamila Abreu e Ivana Moura, criticam a insuficiência financeira: \"Na prática, a insuficiência financeira devolve o ônus logístico do cuidado para a esfera privada, culminando em um esgotamento físico e mental que frequentemente empurra a estudante para a evasão antes da consolidação do seu rito de passagem para a vida intelectual\"." } }, { "type": "heading", "props": {"level": 2, "content": "Diversidade e Novas Perspectivas" } }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "A professora de geografia Liziê Calmon, mãe de uma menina de 10 anos, questionou sua permanência na carreira acadêmica devido à dificuldade em conciliar trabalho remunerado, não remunerado, pesquisa e maternidade. No entanto, ela percebeu que a experiência da maternidade trouxe um \"olhar mais apurado para algumas realidades que nem sempre estão sendo olhadas por outras pessoas\"." } }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "Sua pesquisa de doutorado, por exemplo, estuda como mulheres moradoras da Vila Cruzeiro vivenciam a cidade, visando elaborar políticas públicas mais eficazes. Liziê também integra o coletivo Filhas de Sabah, que articulou a lei do Marco Legal Mães na Ciência no Rio de Janeiro. Aprovada em 14 de maio de 2026, a matéria prevê que o trabalho de cuidado conte como pontuação em processos seletivos para bolsas e editais, transformando-o de um problema em um ponto positivo." } }, { "type": "heading", "props": {"level": 2, "content": "Incentivos e Ações; } }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "O Rio de Janeiro já foi pioneiro com o 1º edital de financiamento para mães cientistas em 2024, parceria da Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) com Parents in Science e Instituto Serrapilheira. A iniciativa apoiou 134 mães e deve ter nova edição em março de 2027. A Facepe (Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco) também lançará uma seleção semelhante. A Faperj implementou ainda uma medida nos editais gerais: currículos de candidatas mães nos últimos 5 anos são avaliados em um período estendido de 7 anos." } }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "A presidente da Comissão Permanente de Equidade, Diversidade e Inclusão da Faperj, Leticia de Oliveira, defende essas ações como \"compensatórias\", necessárias para mitigar o \"viés implícito\" que prejudica mulheres em seleções acadêmicas. \"O que está sendo chamado de mérito? A produtividade [...] Mas as pessoas não partem do mesmo ponto. Quando a mulher tem um filho, é esperada uma queda, até porque ela fica de licença-maternidade e isso não tem a ver com qualidade dela como pesquisadora,\" afirma. A Faperj reconhece que uma ciência mais diversa gera melhores resultados." } }, { "type": "heading", "props": {"level": 2, "content": "Ações Nacionais e Legislação" } }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "A Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) lançou o programa Aurora, com edital publicado em 12 de maio de 2026, concedendo até 300 bolsas para professoras de pós-graduação gestantes ou mães agregarem um pós-doutorando às suas equipes. O objetivo é dar continuidade às pesquisas e orientações durante a licença maternidade. A presidente da Capes, Denise Pires de Carvalho, ressalta a importância da inclusão para uma ciência melhor e o combate ao \"viés implícito\"." } }, { "type": "paragraph", "props": {"content": "A legislação também avançou: em julho de 2024, foi sancionada lei que prorroga por 6 meses a conclusão de cursos em caso de gestação de risco, parto ou adoção, com extensão do prazo de bolsas. Em abril de 2025, entrou em vigor lei que proíbe a discriminação por maternidade em processos seletivos e renovação de bolsas, ampliando em 2 anos o período de avaliação de produtividade em casos de licença-maternidade." } } ]

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