SAÚDE EM FOCO

Infarto não surge "do nada", diz estudo internacional

Ilustração mostra dois médicos com jaleco analisando um coração gigante
Ilustração: Metrópoles

Mais de 99% dos casos têm fatores de risco prévios; pressão e colesterol exigem atenção. Pesquisa com dados da Coreia do Sul e EUA.

Um novo estudo internacional, publicado no Journal of the American College of Cardiology, desmistifica a crença popular do "infarto do nada", revelando que mais de 99% dos casos estão associados a fatores de risco prévios. Esta importante descoberta, que analisou dados de mais de 9,3 milhões de pessoas na Coreia do Sul e nos Estados Unidos, sublinha a urgência de uma prevenção contínua e um acompanhamento médico atento, impactando diretamente a forma como a sociedade entende e se protege contra as doenças cardiovasculares mais silenciosas.

O estudo analisou condições pré-existentes ao primeiro evento cardiovascular – incluindo infarto do miocárdio, AVC, doença arterial coronariana e insuficiência cardíaca – e revelou um padrão alarmante: mais de 99% dos pacientes já possuíam ao menos um fator de risco, e entre 93% e 97% apresentavam dois ou mais fatores combinados. Essa persistência de múltiplos riscos prévios aponta para uma falha na detecção ou no tratamento preventivo.

Os pesquisadores identificaram quatro fatores de risco cruciais: pressão arterial elevada, colesterol alto, glicemia alterada e histórico de tabagismo. A pesquisa inovou ao considerar não apenas os diagnósticos formais, mas também níveis limítrofes, como pressão "normal-alta" ou pré-diabetes, reconhecendo que essas condições discretas também amplificam o risco ao longo do tempo. Na prática, a análise refuta a concepção do "infarto do nada", que muitas vezes conforta e, perigosamente, desmobiliza a prevenção.

O estudo evidencia um ponto crítico: o perigo reside frequentemente no risco não reconhecido ou ignorado, mesmo quando as alterações parecem mínimas. Níveis como pressão arterial de 120x80 mmHg (a popular 12x8), glicemia em estágio de pré-diabetes ou colesterol moderadamente elevado exigem acompanhamento médico imediato e, muitas vezes, intervenção para evitar futuras complicações.

"O infarto se revela não como um evento súbito e imprevisível, mas como o desfecho de um processo crônico e progressivo, que se desenvolve ao longo dos anos e, na maioria dos casos, pode ser prevenido", explica a cardiologista Juliana Tranjan, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.

Ataque silencioso às artérias

Por trás dessa lenta progressão, esconde-se a aterosclerose, um processo insidioso de acúmulo de gordura e inflamação nas paredes arteriais, que culmina na formação de placas. O rompimento de uma dessas placas pode desencadear a formação de um coágulo, bloqueando a circulação sanguínea. Quando esse bloqueio atinge as artérias coronárias, o resultado é o infarto.

"Diabetes, obesidade e outros distúrbios metabólicos comprometem a integridade da parede dos vasos sanguíneos, favorecendo o acúmulo de gordura e o consequente entupimento", detalha o endocrinologista Márcio Weissheimer Lauria, que coordena o departamento de Dislipidemia e Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e atua como professor de Endocrinologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A pressão alta danifica o endotélio, a camada interna dos vasos, enquanto o colesterol LDL em níveis elevados facilita o depósito de gordura nas artérias. A glicose em excesso, por sua vez, intensifica a inflamação vascular. O tabagismo, além de provocar inflamação, gera estresse oxidativo e pode desestabilizar a placa ateromatosa. "A associação desses fatores eleva significativamente o risco de ruptura e trombose da placa de aterosclerose, culminando no infarto agudo do miocárdio", destaca Tranjan.

Esse processo silencioso é lento, causando adaptações imperceptíveis no corpo por anos. Por vezes, ele permanece assintomático. Quando os sinais surgem, podem ser tão discretos que passam despercebidos: cansaço incomum, diminuição do desempenho físico, falta de ar durante esforços e um leve desconforto no peito. Tais sintomas, infelizmente, são comumente confundidos com estresse, envelhecimento natural ou sedentarismo.

A boa notícia é que a maioria desses fatores é modificável. Alterações no estilo de vida podem drasticamente reduzir o risco, frear a progressão da doença aterosclerótica e, em alguns casos, até reverter alterações metabólicas. Adotar a perda de peso, uma alimentação balanceada, a prática regular de atividade física, o abandono do tabagismo, um sono de qualidade e o controle medicamentoso, quando indicado, são atitudes que promovem uma diferença vital.

"Poucos meses de intervenção com perda de peso e exercício físico consistentes já demonstram repercussões positivas, com resultados visíveis em novos exames", destaca Lauria. Quanto mais cedo o indivíduo iniciar essa mudança, maiores são as chances de reversão. Em estágios mais avançados, a prioridade se torna estabilizar a condição e impedir sua progressão.

Exames simples ainda são poderosos

Apesar da crescente valorização de marcadores sofisticados, grande parte da detecção precoce de riscos cardiovasculares ainda se apoia em ferramentas acessíveis: a medição da pressão arterial, da glicemia, do colesterol e dos triglicérides, juntamente com o monitoramento do peso e da circunferência abdominal.

"Os exames de rotina precisam ser individualizados, considerando a história clínica, comorbidades e histórico familiar de cada paciente. Assim, garantimos um rastreamento mais preciso e uma prevenção eficaz da doença cardiovascular", reforça a cardiologista do Einstein em Goiânia.

Marcadores adicionais, como a apolipoproteína B e a lipoproteína(a), podem ser úteis em situações específicas, principalmente para indivíduos com forte histórico familiar ou eventos cardiovasculares sem causa aparente. A dosagem da lipoproteína(a), por exemplo, um fator genético, é recomendada ao menos uma vez na vida por algumas diretrizes internacionais. O escore de cálcio coronariano, uma tomografia que quantifica placas de gordura calcificadas nas artérias do coração, também oferece uma avaliação relevante do risco.

A prevenção cardiovascular transcende o alívio da dor no peito; ela inicia muito antes, com acompanhamento médico regular, exames de rotina e o controle rigoroso de alterações aparentemente insignificantes. "A doença aterosclerótica evolui ao longo de décadas. O evento agudo é a manifestação tardia de um processo silencioso e prolongado, por isso a prevenção é fundamental", conclui Juliana Tranjan.

Gostou desta notícia?

Entre no nosso grupo do WhatsApp!

Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!

📲 Quero entrar no grupo

Compartilhe esta matéria

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário