DIREITA AVANÇA NA AMÉRICA DO SUL

Governo Lula aposta em pragmatismo com direitas na América do Sul após vitórias eleitorais

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva falando em evento oficial.
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto.

Apesar das ideologias opostas, o Palácio do Planalto acredita que o Brasil manterá relações de cooperação com novos governos eleitos em países vizinhos, focando em interesses mútuos de infraestrutura e segurança.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia que as recentes vitórias de nomes da direita em países da América do Sul não devem abalar as relações bilaterais. A estratégia do Palácio do Planalto, comunicada nesta terça-feira, 30/06/2026, é buscar um relacionamento pragmático, focado em interesses comuns, mesmo diante de ideologias distintas.

A perspectiva surge após a Colômbia eleger Abelardo de la Espriella e o Peru encaminhar a vitória da direitista Keiko Fujimori. Em ambos os casos, auxiliares do presidente Lula acreditam que os governos eleitos priorizarão uma relação de cooperação com o Brasil, essencial para áreas como infraestrutura, combate ao crime organizado, energia e resposta a catástrofes climáticas. A manutenção desses laços é vista como crucial para a estabilidade regional e para a dignidade das populações envolvidas nesses acordos.

O chileno José Antonio Kast e o equatoriano Daniel Noboa, já empossados, são citados como exemplos de aproximação com o Brasil, mesmo integrando o espectro político oposto ao do governo petista. O gesto do colombiano Espriella, que respondeu positivamente a uma mensagem de Lula sobre as eleições de seu país, reforçando a intenção de cooperação, foi recebido com otimismo por integrantes do Palácio do Planalto. "O continente americano enfrenta problemas comuns de natureza transnacional, que só podem ser superados por meio de um trabalho conjunto, respeitoso e soberano", declarou Espriella, indicando um caminho de diálogo.

Contudo, o avanço de governos de direita na região pode levar a um enfraquecimento de fóruns multilaterais como a Celac e a Unasul, tornando sua viabilidade política incerta. A mudança no tabuleiro político sul-americano é marcante: desde novembro de 2023, com a posse de Javier Milei na Argentina, passando pela Bolívia em outubro de 2025, o Chile em dezembro de 2025, até as eleições mais recentes na Colômbia e no Peru, a direita e a extrema direita consolidam sua presença em sete dos 12 países da região, representando cerca de 58,3% da população sul-americana.

Rogério Pereira Campos, Doutor em Ciências Sociais, avalia que essa expectativa pragmática do Brasil está alinhada à tradição diplomática do país, que costuma manter uma linha de continuidade independentemente das mudanças de governo vizinhas. "As relações diplomáticas brasileiras costumam sofrer pouca variação diante de diferentes governos", afirma o especialista. "Essa estabilidade faz com que o país seja visto como um exemplo de política internacional."

Campos ressalta a habilidade da diplomacia brasileira em preservar interesses nacionais, mesmo em cenários políticos adversos, apoiando-se no peso econômico e na diversidade de produtos oferecidos pelo Brasil. Essa lógica explica a manutenção das relações com governos como o de Javier Milei, que, apesar de visões antagônicas, reconhece a dependência argentina em setores industriais e agrícolas brasileiros. Mecanismos de integração como ALADI e Mercosul reforçam a continuidade comercial, indicando que potenciais perdas afetariam mais os países sul-americanos do que o Brasil.

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