GEOPOLÍTICA E COMÉRCIO

Brasil revê resistência a acordo comercial com China após tarifas dos EUA

Foto ilustrativa de encontro diplomático entre representantes do Brasil e China.
Reuniões diplomáticas definem os novos rumos do comércio exterior brasileiro.

Mudança de postura de Lula ocorre sob pressão de tarifas impostas por Washington, ignorando estudos setoriais sobre riscos à indústria nacional.

A resistência histórica do Brasil em relação a um acordo comercial entre o Mercosul e a China sofreu uma guinada significativa, conforme sinalizado por Lula em uma conversa telefônica de mais de uma hora com Xi Jinping no último domingo (26). A mudança de tom ocorre em um cenário de pressão externa, após a imposição de uma tarifa de 25% por parte de Washington sobre exportações brasileiras, medida que entrou em vigor quatro dias antes do contato diplomático.

Essa nova disposição governamental transforma o que antes era classificado como risco industrial em uma espécie de apólice de seguro contra as políticas de Donald Trump. A alteração na diretriz estratégica ocorre sem que novos estudos técnicos ou consultas aprofundadas ao setor produtivo tenham precedido o movimento.

Análises anteriores, incluindo um estudo de 2024 do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) com simulações do Ipea e universidades federais, projetam um ganho de 1,43% do PIB até 2035, cerca de US$ 30 bilhões. No entanto, o impacto setorial aponta para uma desproporção: enquanto o agronegócio ampliaria sua produção em US$ 14,6 bilhões, a indústria de transformação poderia sofrer perdas de US$ 6,7 bilhões, com setores têxteis e de vestuário enfrentando retrações de até 15%.

Além das tensões industriais, a viabilidade do acordo enfrenta desafios diplomáticos complexos. O Paraguai mantém o reconhecimento a Taiwan e não possui relações diretas com Pequim, enquanto o Mercosul exige negociações em bloco. Simultaneamente, a Argentina de Javier Milei busca maior alinhamento com Washington, criando um cenário de instabilidade interna no bloco sul-americano.

O CEBC ressalta que um acordo focado apenas em tarifas pode aprofundar o padrão brasileiro de exportar commodities e importar manufaturas. Especialistas alertam que, antes de liberalizar o mercado, o Brasil precisa definir sua política industrial, especialmente em um momento em que a participação chinesa nas importações de automóveis saltou de 5% em 2021 para 72% neste ano, resultando no maior déficit setorial desde 1997.

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