IA CRIA CINE

Filme sobre repressão no Irã, criado por IA, é destaque no Festival de Tribeca

Filme criado por IA estreia no Tribeca.
Filme "Dreams of Violets" é o primeiro longa-metragem totalmente gerado por inteligência artificial a integrar a programação de um grande festival internacional de cinema.

Produção "Dreams of Violets" usa inteligência artificial para retratar protestos e levanta debate sobre o futuro do audiovisual. Orçamento foi de apenas US$ 2 mil.

Uma produção cinematográfica que aborda a repressão a manifestações no Irã se tornou um dos pontos altos do Festival de Tribeca, em Nova York. Intitulado "Dreams of Violets" ("Sonhos de Violetas", em tradução livre), o longa-metragem é o primeiro a ser inteiramente gerado por inteligência artificial (IA) e a integrar a programação de um grande festival internacional de cinema. A decisão de apresentar a obra, que tem 75 minutos de duração, foi tomada pela curadoria do evento, que buscou destacar inovações tecnológicas no campo audiovisual.

Concebido pelos irmãos iranianos Ash Koosha e Pooya Koosha, o filme retrata episódios ocorridos durante a repressão do governo iraniano a protestos populares, com cenas de confrontos, disparos, incêndios, explosões e famílias impactadas pela violência. Essa abordagem busca dar visibilidade a eventos que enfrentaram obstáculos para serem registrados de forma tradicional.

Filme criado por IA estreia no Tribeca.
Filme "Dreams of Violets" é o primeiro longa-metragem totalmente gerado por inteligência artificial a integrar a programação de um grande festival internacional de cinema.

Embora a narrativa se passe em Teerã, nenhuma imagem foi captada no Irã, e não houve gravações convencionais, atores, cenários ou câmeras. Todo o material visual foi desenvolvido com recursos de IA a partir de um apartamento em Londres. A ideia surgiu enquanto Ash Koosha acompanhava à distância os acontecimentos em seu país de origem, especialmente após a interrupção da internet em Teerã durante a repressão aos manifestantes, percebendo que boa parte da realidade permaneceria desconhecida.

Ash Koosha, que deixou o Irã em 2009, afirma que o projeto nasceu da necessidade de registrar acontecimentos que, naquele momento, enfrentavam limitações para a documentação. "Jornalistas estão se esforçando para verificar os fatos. Organizações humanitárias estão se esforçando e artistas estão se esforçando. Todos tentando contar a história", declarou o cineasta estreante, ressaltando a importância da velocidade para validar informações em contextos de crise.

O longa funciona como uma homenagem a esforços de registro em um contexto onde a atividade jornalística encontrava barreiras. Segundo o estúdio Fountain 0, responsável pela produção, "Dreams of Violets" é o primeiro longa-metragem criado integralmente com IA a ser selecionado para um grande festival de cinema. Ash Koosha não só escreveu o roteiro, mas também estruturou todo o fluxo de produção com ferramentas de IA, permitindo o desenvolvimento simultâneo de texto e imagens, o que reduziu etapas tradicionais da realização cinematográfica.

O diretor explicou que o processo envolvia gerar sequências, avaliá-las e reconstruí-las até a satisfação. "Você tem 30 minutos de filme com a cor corrigida, pronto para usar. E aí você pensa: ‘Não gostei’. Então volta e faz de novo", descreveu Koosha, que precisou alterar duas cenas nas etapas finais, levando cerca de uma hora para as modificações. O produtor executivo Tom Rogers informou que o orçamento total ficou em torno de US$ 2 mil, um valor significativamente reduzido em comparação com produções cinematográficas tradicionais.

Reações divididas

A estreia em Manhattan atraiu uma grande audiência e gerou intensos debates após a exibição, com espectadores discutindo o resultado artístico e os possíveis impactos da tecnologia no futuro do audiovisual. As opiniões se dividiram: enquanto parte do público notou a origem da IA nas cenas, outros se surpreenderam com o grau de realismo. O cineasta Andres Ramirez, por exemplo, comparou algumas sequências a gráficos do início do PlayStation 2 e achou determinados momentos "cartunescos", além de notar pouca naturalidade nas reações emocionais dos personagens. Ainda assim, ele reconheceu que a produção tende a ser uma das mais comentadas do festival e que a tecnologia ofereceu uma alternativa valiosa para abordar temas difíceis de documentar.

Debate sobre a IA

A ascensão da inteligência artificial no cinema continua a gerar controvérsias em Hollywood e em outras áreas da indústria do entretenimento. Jane Rosenthal, cofundadora do Festival de Tribeca e defensora da tecnologia, participou recentemente de iniciativas com IA, incluindo uma versão de "O Mágico de Oz" apresentada na Sphere, em Las Vegas. Ela acredita que a IA "usa o que conhece, a tecnologia que tem disponível como sua forma de se expressar" e que "Pandora saiu da caixa. Precisamos aprender a usá-la."

Enquanto alguns veem a IA como uma evolução inevitável, outros expressam preocupação com o impacto sobre empregos de roteiristas, artistas visuais e técnicos, temas que estiveram no centro das greves de profissionais de Hollywood em 2023. Apesar das resistências, o uso da IA avança, como demonstrado pela exibição de "Hell Grind", um filme de 95 minutos criado com IA no Marché du Film, em Cannes. Em uma conferência, cerca de três quartos dos produtores presentes afirmaram já ter recebido pedidos para incorporar IA em seus trabalhos. Jane Rosenthal também atuará como jurada em um festival dedicado a produções com IA em Nova York e Los Angeles.

Renata Plaut, espectadora presente na estreia, destacou sua curiosidade pelos aspectos técnicos e afirmou que o filme demonstrou que a inteligência artificial pode ocupar um espaço legítimo no setor de entretenimento, impactando positivamente a dignidade da expressão artística e a busca por novas formas de narrativa.

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