NOVO PARADIGMA IA

Executivos sob pressão para a IA entregar valor humano

Imagem ilustrativa de Inteligência Artificial e dados, representando o desafio corporativo.
Lançamento do ChatGPT impulsionou a corrida por Inteligência Artificial, mas exige resultados concretos.

Conferência Gartner em São Paulo destaca que foco em pessoas, governança e contexto é essencial para evitar "erros amplificados" e desperdício de recursos.

A era da Inteligência Artificial como uma promessa vaga chegou ao fim, sendo substituída por uma pressão palpável para que os executivos entreguem resultados concretos. Essa mudança de paradigma, que se intensificou significativamente desde o lançamento do ChatGPT em novembro de 2022, exige das lideranças corporativas uma resposta efetiva aos caros projetos de IA. Conselhos administrativos, investidores e até os próprios funcionários clamam por um retorno real sobre esses investimentos, e a falha em atender a essa demanda pode comprometer não apenas o lucro, mas a integridade das empresas e a dignidade de seus colaboradores, conforme amplamente discutido na Conferência Gartner Data & Analytics, realizada em São Paulo nos dias 28 e 29 de abril de 2026.

O alerta central do evento, que ecoa na comunidade empresarial nesta sábado, 02 de maio de 2026, é claro: a IA não pode ser vista apenas como um atalho para cortes de custos. Embora essa abordagem possa gerar ganhos imediatos, ela carrega o risco de mascarar perdas futuras profundas, resultantes de decisões equivocadas, dados inconsistentes e equipes desmotivadas. Os analistas do Gartner propuseram, então, uma nova ótica para o acrônimo ROI, que passaria a significar Retorno sobre Inteligência, Integridade e Indivíduos, um "antídoto" contra a visão puramente financeira da tecnologia.

A corrida pela adoção da IA é inegável, com quatro em cada cinco empresas já implementando projetos, um salto expressivo em relação aos dois em cada cinco de dois anos atrás. Contudo, os resultados ainda frustram as expectativas, com apenas 20% das iniciativas gerando algum retorno efetivo. “Sem bases sólidas, a IA continuará sendo o que é para muitas organizações hoje: um experimento caro”, alertou Sarah James, diretora analista sênior do Gartner, durante a palestra de abertura. Ela apontou a carência de controle de custos e uma governança estruturada como a raiz do problema.

Nesse cenário, a governança transcende a mera verificação técnica e ascende à esfera estratégica. Vai além de questionar a confiabilidade dos dados – um ponto já exaustivamente debatido –, para exigir a coragem de indagar se a IA realmente deve ser aplicada em determinado processo e sob quais restrições. “Tendemos a pensar que inovação são ideias, mas, na verdade, inovação são ideias colocadas em produção”, enfatizou a executiva, ressaltando a importância de transformar conceitos em realidade prática.

O Gartner sinaliza que estamos em uma transição da "era digital" para a "era da inteligência", onde a IA redefine confiança, ética e a própria interação humana com a tecnologia, com um impacto equiparável ao da Internet. Contudo, a disparidade entre o rápido avanço tecnológico e a maturidade das equipes expõe um risco estrutural que não se resolve apenas com mais investimento em ferramentas.

Empresas precisam construir valor com a Inteligência Artificial, estabelecendo com clareza a ambição estratégica e fortalecendo as bases de dados e governança. Mas, primordialmente, não podem negligenciar a preparação das pessoas para essa transformação. “A tecnologia muda exponencialmente, mas as pessoas e as organizações mudam de forma logarítmica”, observou Gareth Herschel, vice-presidente analista do Gartner, também na abertura da conferência. Ele complementou que “Isso significa que a tecnologia continua a evoluir em um ritmo acelerado, mas os seres humanos têm uma capacidade finita de absorver essa mudança.”

Definir a ambição em IA significa ir além do aspecto puramente tecnológico, conectando dados à inteligência coletiva das equipes e buscando um retorno abrangente sobre a inteligência, e não apenas a eficiência operacional. Neste contexto, ganham destaque equipes que integram humanos e agentes de IA, com os profissionais assumindo o papel de validadores e orquestradores de resultados, em vez de meros desenvolvedores de soluções.

Para os consultores, a abordagem "human in the loop" (humano no circuito) deve evoluir para "human in the lead" (humano na liderança). O verdadeiro valor da IA emerge quando ela é concebida para potencializar as capacidades humanas e redistribuir talentos, e não para substituir pessoas de forma silenciosa e desumanizada.

Assim, investir em Inteligência Artificial sem um investimento equivalente em pessoas é considerado um desperdício de recursos. “Você precisa parar de pensar em funções e começar a focar nas habilidades da sua equipe”, afirmou Sarah James. A diretora resgatou o pensamento do filósofo e teórico da comunicação canadense Marshall McLuhan, que defendia o "aprender para viver", sublinhando que a inteligência humana necessita evoluir no mesmo ritmo, ou até superar, o avanço tecnológico.

Quando a IA é vista exclusivamente como ferramenta para a redução de postos de trabalho, o ganho de eficiência pode ser acompanhado de uma perda silenciosa de qualidade nas decisões. “Sem um contexto claro, os LLMs estão ‘chutando’”, alertou a executiva, enfatizando que a automação sem a preservação do pensamento crítico pode amplificar erros em escala, gerando riscos cognitivos e estratégicos. “As IAs são sistemas probabilísticos e isso significa que podem facilmente interpretar mal seus dados e, em seguida, amplificar rapidamente esse erro”, acrescentou.

Em um cenário de crescente pressão por resultados, o desafio central da Inteligência Artificial nas empresas não é mais a escassez de dados, mas sim a ausência de contexto. “A governança gera confiança e o contexto dá significado”, conclui James. Quando modelos de IA são implementados para tomar decisões com base em informações mal governadas, sem uma camada semântica que traduza a linguagem de negócios em linguagem de dados, eles tendem a interpretar as perguntas de forma equivocada e a produzir decisões erradas em larga escala.

Evitar esses equívocos é o principal desafio dos gestores. Caso contrário, o que se instala é uma forma de ignorância automática e amplificada, gerando respostas convincentes para diagnósticos profundamente imprecisos. “Sem fundações sólidas, a IA acaba sendo apenas ‘ignorância amplificada’”, finaliza a executiva, sublinhando a urgência de uma abordagem mais consciente e humana para a Inteligência Artificial.

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