GEOPOLÍTICA ESPACIAL
EUA pressionam, Argentina paralisa radiotelescópio chinês
Equipamento de observação, o maior da América do Sul, está inoperante há 9 meses e impacta pesquisa científica.
O governo argentino paralisou a conclusão de um ambicioso radiotelescópio chinês na província de San Juan, uma decisão que redefine a cooperação científica na América do Sul. A interrupção, que se tornou pública nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, aconteceu sob intensa pressão diplomática dos Estados Unidos, preocupados com potenciais aplicações militares e de inteligência do equipamento. Este movimento impacta diretamente a comunidade científica e sinaliza a crescente influência da rivalidade tecnológica e estratégica entre Washington e Pequim na região.
O projeto, concebido para ser o maior radiotelescópio da América do Sul, resulta de uma parceria entre a Universidade Nacional de San Juan e o Observatório Astronômico Nacional da China. Sua instalação em uma das regiões mais privilegiadas do planeta para a observação celeste foi barrada quando peças cruciais ficaram retidas na alfândega argentina por cerca de nove meses, deixando o equipamento inoperante e o futuro da pesquisa incerto.
Um documento obtido pela reportagem revela que a justificativa oficial do governo argentino para a paralisação residiu em supostas violações procedimentais na renovação do acordo com a China. Contudo, autoridades locais optaram por não comentar se a decisão foi diretamente influenciada pela diplomacia americana.
Funcionários e ex-integrantes do governo dos EUA confirmaram que Washington expressou repetidamente suas preocupações sobre o empreendimento. O temor principal era que o radiotelescópio pudesse ser usado para rastrear satélites americanos e expandir as comunicações espaciais chinesas. Essa campanha diplomática, conforme relatos, iniciou-se durante a gestão do ex-presidente Joe Biden e foi mantida ativamente sob o governo Donald Trump.
Essa postura americana reflete um endurecimento da política externa na América Latina. O governo Trump tem promovido uma versão atualizada da Doutrina Monroe, buscando conter a crescente influência chinesa no Hemisfério Ocidental, especialmente em setores considerados estratégicos, como infraestrutura, tecnologia, segurança e espaço.
A interferência geopolítica já tem precedentes. No ano passado, o Chile, após forte pressão diplomática dos Estados Unidos, também suspendeu um projeto chinês de observatório astronômico no deserto do Atacama. Tais iniciativas intensificam a percepção entre cientistas da região de que a disputa de poder entre as duas superpotências agora molda diretamente o destino de projetos acadêmicos e científicos.
A astrônoma Ana Maria Pacheco, que acompanha de perto os desdobramentos em San Juan, lamentou: “Estamos presos em um buraco negro político”. Sua declaração ecoa o senso de frustração e a incerteza que pairam sobre a comunidade científica local, que vê anos de trabalho e potencial descobertas ameaçados pela lógica da disputa global.
A preocupação de Washington com a presença chinesa na Argentina não se limita ao radiotelescópio. Inclui a base espacial construída em 2015 na província de Neuquén, na Patagônia. Operada por militares chineses, essa instalação de US$ 50 milhões foi destinada ao controle de satélites e missões espaciais. A concessão do terreno por 50 anos à China, sem cobrança de aluguel, tem sido uma fonte constante de críticas por parte dos Estados Unidos.
Apesar de reconhecerem a complexidade de frear a influência chinesa na América Latina – onde Pequim se consolidou como parceiro comercial e investidor crucial –, autoridades americanas avaliam que a paralisação em San Juan é uma vitória. Ela demonstra que a diplomacia dos EUA pode, de fato, limitar parte das ambições espaciais e militares chinesas na região.
A Embaixada da China em Buenos Aires não tardou em reagir, acusando os Estados Unidos de tentarem “conter e reprimir a China” sob falsos pretextos políticos. Em um comunicado oficial, a representação diplomática reiterou que o projeto argentino possui finalidade exclusivamente científica, com benefícios a serem compartilhados por ambos os países e pela comunidade internacional, classificando a postura americana como “ridícula e lamentável”.
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