NEGOCIAÇÕES DE PAZ

EUA e Irã se aproximam de acordo para encerrar conflito no Oriente Médio

Foto de Maurício Santoro, analista de Relações Internacionais.
Professor de Relações Internacionais, Maurício Santoro, analisou os termos das negociações.

Termos favoráveis ao Irã incluem cessação de hostilidades no Líbano e Golfo Pérsico. Programa nuclear pode ser discutido posteriormente.

Uma expectativa global cresce pelo anúncio de um acordo de paz entre os Estados Unidos e o Irã, visando o fim do conflito no Oriente Médio. Informações divulgadas pela imprensa internacional sugerem que as negociações estão avançando em direção a um tratado que se mostra significativamente favorável ao Irã.

O professor de Relações Internacionais, Maurício Santoro, analisou os pontos que estariam em discussão. Segundo sua avaliação, o Irã poderia concordar em desistir de bloquear o Estreito de Ormuz e de cobrar pedágios de navios que transitam pela área. Em contrapartida, os EUA e aliados cessariam as hostilidades e adiariam as discussões sobre o programa nuclear iraniano para um momento futuro.

"Se essas informações se confirmarem, tratam-se de decisões que beneficiariam muito o Irã na atual conjuntura", destacou Santoro. O acordo, conforme noticiado, prevê a paralisação de todos os conflitos em andamento, não apenas no Golfo Pérsico, mas também no Líbano. O Irã teria um período de 30 a 60 dias antes que as negociações sobre seu programa nuclear fossem retomadas.

A região do Golfo Pérsico vive uma intensa expectativa pelo fim da guerra, cujo impacto gerou uma severa crise econômica e política, afetando diretamente países como o Catar e os Emirados Árabes Unidos, fortemente dependentes do comércio internacional e do turismo corporativo.

Capacidade militar iraniana impressiona

Santoro ressaltou o desempenho militar surpreendente do Irã nos últimos meses. "No ano passado, houve um breve confronto entre Irã e Estados Unidos, com participação de Israel, resultando em duas semanas de combate onde o Irã teve um desempenho muito aquém do esperado. Contudo, em apenas um ano, observamos uma transformação muito expressiva nas forças armadas iranianas", explicou.

Entre os fatores que explicam essa evolução, o analista citou o aprimoramento do sistema de mísseis balísticos e a capacidade de realizar ataques com maior precisão. No Estreito de Ormuz, o Irã empregou uma tática similar à guerra de guerrilha naval, utilizando embarcações rápidas, drones, mísseis e minas. Embora esses equipamentos sejam de menor custo e complexidade tecnológica em comparação à Marinha dos Estados Unidos, sua eficiência em bloquear o estreito, por onde transita cerca de 20% do comércio mundial de petróleo, conferiu ao Irã uma poderosa ferramenta de pressão sobre os mercados globais de energia, incluindo petróleo, gás natural e derivados como fertilizantes.

Perspectivas para o acordo nuclear

Questionado sobre as perspectivas para um acordo nuclear, Santoro relembrou as negociações da década passada. Na época, o Irã concordou em submeter seu programa nuclear à supervisão internacional, visando impedir o enriquecimento de urânio em níveis suficientes para a fabricação de armas, mas mantendo a pesquisa para fins civis e médicos. Brasil e Turquia atuaram como mediadores no início dos anos 2010, e um novo tratado foi firmado em meados da década, durante o governo do ex-presidente dos EUA, Barack Obama.

Para Santoro, o cenário atual aponta para um acordo similar ao de 2015, embora os desdobramentos ainda dependam de outros fatores, como a relação do Irã com Israel e a situação no Líbano. "Foram necessárias duas guerras para retornar a um status quo de dez anos atrás. Isso evidencia o impasse político-estratégico no Oriente Médio e a dificuldade persistente em avançar em acordos de paz na região", concluiu o analista.

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