RISCOS DA INTERNET

Estudo revela que conteúdo fitness em redes sociais prejudica autoestima e imagem corporal

Ilustração de uma pessoa olhando para o celular com ícones de fitness e uma expressão de preocupação.
Conteúdo fitness nas redes sociais pode ser prejudicial à saúde mental e à imagem corporal, aponta estudo.

Exposição a "fitspiration" aumenta comparações sociais, piora a satisfação com a aparência e pode estimular padrões irreais de corpo e saúde, aponta meta-análise. Especialistas alertam para o impacto na dignidade individual.

{"blocks":[{"type":"paragraph","data":{"text":"Uma meta-análise conduzida pela Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, aponta um lado sombrio das postagens de motivação fitness nas redes sociais. Concluiu-se que a exposição ao chamado “fitspiration” pode, na verdade, prejudicar a autoestima e a imagem corporal, além de estimular dietas e exercícios baseados em padrões físicos inatingíveis. A pesquisa, que reuniu 26 estudos publicados entre 2015 e 2023 e envolveu 6.111 participantes, em sua maioria mulheres jovens com idade média de 21,94 anos, analisou os efeitos de conteúdos veiculados em plataformas como Instagram, TikTok, Tumblr e Pinterest."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"O "fitspiration" combina imagens de corpos idealizados com mensagens motivacionais sobre alimentação e exercícios. Apesar da fachada positiva, o conteúdo frequentemente intensifica inseguranças. Entre os formatos comuns estão fotos de "antes e depois", sugestões de dietas restritivas, treinos para tonificação e frases de impacto. Segundo a autora Valerie Gruest, a mensagem superficial de autocuidado esconde uma comunicação que pode levar à privação alimentar e a exercícios compulsórios para atingir um resultado estético específico."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A exposição recorrente a imagens e mensagens idealizadas leva os usuários a se compararem com esses padrões, que são difíceis de alcançar e manter. Essa comparação constante pode gerar sentimentos de inadequação e insatisfação, minando a autoestima e a percepção da própria aparência. "À medida que os usuários são expostos repetidamente a imagens e mensagens altamente idealizadas, podem começar a se comparar a esses padrões. E como eles costumam ser difíceis de alcançar e manter, tais comparações podem contribuir para sentimentos de inadequação, insatisfação e baixa autoestima", destaca Gruest."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"A pesquisa da Universidade Northwestern revela que as comparações sociais ascendentes – onde indivíduos se comparam a outros considerados mais atraentes, disciplinados ou bem-sucedidos – são um dos principais efeitos do "fitspiration". As redes sociais, com suas imagens cuidadosamente selecionadas e idealizadas, potencializam esse processo, levando muitos a avaliar negativamente a própria aparência e rotina."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"O estudo também identificou que a internalização desses padrões de corpos idealizados, muitas vezes inatingíveis, pode reduzir a percepção de autoeficácia. Jovens adultos podem começar a duvidar de sua própria disciplina e capacidade para atingir os corpos exibidos online, gerando frustração e ansiedade. O acúmulo de emoções negativas como vergonha, inveja e até sentimentos depressivos é uma consequência relatada."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"João Ricardo Cozac, presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte, explica que o cérebro humano não compara apenas a forma física, mas o valor pessoal, a disciplina e o pertencimento social. "Em muitos casos, a pessoa deixa de enxergar seu próprio processo porque passa a viver sob a lógica de uma régua externa, frequentemente artificial e inalcançável", alerta. Ele ressalta que mesmo pessoas com boa saúde física e hábitos consistentes podem se sentir fragilizadas, vivendo sob a sensação de nunca serem "suficientes"."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Um ponto intrigante da meta-análise é a possível origem do "fitspiration" em comunidades pró-transtornos alimentares. Embora o conteúdo tenha ganhado alcance global com as redes sociais, combinando imagens e textos motivacionais, ele ainda se baseia fortemente em padrões de peso, tamanho corporal e aparência. Cozac pondera que o ambiente digital pode amplificar predisposições já existentes, transformando o exercício, que deveria ser um recurso de saúde, em um comportamento compulsivo movido pelo medo de não atingir um ideal."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Influenciadores e marcas também desempenham um papel crucial na disseminação do "fitspiration", promovendo produtos e estilos de vida associados a corpos muitas vezes difíceis de alcançar sem dietas extremas, exercícios intensos ou até mesmo o uso de substâncias. A pesquisa, apesar de sua abrangência geográfica (incluindo Estados Unidos, Austrália, Canadá, Reino Unido, Itália, Irlanda e Nova Zelândia), concentrou-se majoritariamente em mulheres jovens, indicando a necessidade de estudos futuros que abranjam outros grupos demográficos."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Preocupantemente, os efeitos negativos foram observados mesmo com exposições relativamente breves ao conteúdo. A média de 23 conteúdos visualizados nos estudos levanta a questão sobre o impacto diário e contínuo que os usuários podem ter fora de ambientes controlados. As evidências sugerem que o "fitspiration" pode causar mais danos do que benefícios, impactando diretamente a saúde mental e a imagem corporal dos indivíduos."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"Para combater esses efeitos, especialistas recomendam a diferenciação entre conteúdos focados em saúde e em transformação estética. Enquanto o primeiro pode abordar sono, recuperação, funcionalidade e bem-estar mental, o segundo frequentemente reduz o corpo a um objeto visual. "O problema não está em apreciar estética corporal, mas em transformar aparência no principal critério de identidade, competência e aceitação social", diz Cozac. A orientação é reposicionar a relação com o corpo a partir da funcionalidade e da experiência subjetiva, com perguntas como "como estou me sentindo?" em vez de "como meu corpo está parecendo?"."}},{"type":"paragraph","data":{"text":"É fundamental uma curadoria ativa das redes sociais e a promoção de iniciativas de alfabetização digital. Plataformas como o Instagram oferecem ferramentas para restringir conteúdos indesejados. "Conteúdos que visam inspirar mudanças positivas no estilo de vida podem, simultaneamente, contribuir para preocupações com a imagem corporal, pois se baseiam fortemente em representações idealizadas de como a boa forma física e a saúde deveriam ser", conclui Gruest, reforçando o paradoxo da busca por inspiração no ambiente digital."}}]},"version":"2.14.0"}

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