SABEDORIA ANCESTRAL TRANSFORMA

Estudo revela que conhecimentos indígenas salvam ecossistemas e combatem mudanças climáticas

Povo indígena em território preservado, com foco na natureza.
Conhecimentos indígenas demonstram benefícios para o clima e a biodiversidade do planeta.

Pesquisa inédita, divulgada nesta terça-feira (16/06/2026), mostra que cosmovisões indígenas beneficiam o clima e a biodiversidade. 100% dos povos entrevistados sentem alterações ambientais.

Conhecimentos ancestrais, sistemas de governança e cosmovisões de povos indígenas demonstraram gerar benefícios concretos para o clima e a biodiversidade do planeta. A conclusão é de um novo estudo, divulgado nesta terça-feira (16/06/2026), que também identificou uma profunda interligação entre as culturas dessas comunidades e os processos de conservação ambiental.

A pesquisa, realizada com 43 comunidades indígenas em seis continentes – África, Ásia, Américas e Pacífico –, revelou que a totalidade dos entrevistados (100%) percebeu mudanças significativas no clima e nas condições meteorológicas de seus territórios. Mais alarmante ainda, 61% relataram sofrer impactos diretos de atividades extrativistas, como mineração, exploração madeireira, agricultura em larga escala e desenvolvimento de infraestrutura.

Intitulado “Sistemas de conhecimento e práticas dos povos indígenas para a sobrevivência climática” (em tradução livre), o estudo analisou como essas comunidades gerenciam seus territórios através de práticas tradicionais. Fundamentadas na observação atenta da natureza e em laços intergeracionais com suas terras, essas práticas demonstram uma simbiose única entre cultura e conservação. As mesmas tradições que mantêm vivas línguas, rituais e identidades culturais também atuam na proteção de terras, recursos hídricos e vida selvagem.

Os dados do estudo reforçam essa conexão: 60% dos mamíferos terrestres têm mais de 10% de sua distribuição geográfica dentro de territórios indígenas. Além disso, cerca de 96% das comunidades entrevistadas reservaram áreas terrestres ou aquáticas para usos sagrados ou culturais, que, consequentemente, servem de habitat vital para a fauna e de refúgio para florestas primárias.

Um exemplo notável no Brasil é a atuação do povo Mamoadate, que dedica esforços à proteção de árvores frutíferas silvestres e palmeiras, essenciais para a manutenção da fauna local. Apesar do papel crucial que desempenham na conservação de ecossistemas saudáveis, esses territórios enfrentam ameaças crescentes. Entre 2018 e 2024, os territórios indígenas perderam aproximadamente 2 bilhões de toneladas métricas de carbono irrecuperável, em decorrência de atividades como mineração, expansão agrícola e incêndios.

“O conhecimento indígena sustenta alguns dos esforços de conservação mais eficazes do mundo e, ainda assim, por muito tempo foi ignorado, minimizado ou relegado ao segundo plano”, lamentou Johnson Cerda, que lidera o trabalho da Conservation International com povos indígenas e comunidades locais e é coautor do estudo. Ele ressalta que, sem o devido reconhecimento dos direitos territoriais, muitas comunidades enfrentam dificuldades em investir na gestão de suas terras e em se defender contra a apropriação indevida e invasões.

*Sob supervisão de Thiago Félix

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