SAÚDE FEMININA URGENTE
Estudo revela dor menstrual invisível no SUS
Vital Strategies Brasil e UFJF constatam subnotificação 21 vezes maior, afetando milhares de vidas entre 2016 e 2025.
Uma pesquisa inovadora da Vital Strategies Brasil, em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), revelou nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, que a intensa dor menstrual e pélvica vivida por milhares de meninas e mulheres brasileiras permanece, em grande parte, invisível nos registros oficiais do Sistema Único de Saúde (SUS). O estudo, financiado pelo Instituto Alana, constatou uma subnotificação alarmante, impedindo que este sofrimento crônico seja devidamente reconhecido e tratado, o que perpetua a falta de políticas públicas eficazes e afeta profundamente a dignidade e a qualidade de vida dessas pacientes.
Os pesquisadores utilizaram ferramentas de inteligência artificial para analisar um vasto volume de dados, identificando relatos de dor menstrual e pélvica 21 vezes superiores ao que é oficialmente registrado pelos códigos de doenças. Essa discrepância expõe uma lacuna crítica no sistema de saúde, onde a realidade do sofrimento feminino é sistematicamente minimizada.

A pesquisa analisou informações de 469 mil meninas e mulheres, com idades entre 10 e 49 anos, atendidas na rede municipal de saúde do Recife entre 2016 e 2025. O levantamento cruzou dados da atenção primária, internações hospitalares e notificações de violência, buscando compreender como as queixas relacionadas à dor são documentadas – ou negligenciadas – nos prontuários clínicos.
Ao considerar apenas os códigos da CID-10 (Classificação Internacional de Doenças), os registros de dor apareceram em meros 0,5% das pacientes, o equivalente a 1.906 mulheres. Contudo, a metodologia de análise semântica com inteligência artificial, capaz de interpretar os textos livres inseridos pelos profissionais de saúde, elevou o total de casos identificados para mais de 41 mil, cerca de 9% da amostra.
Além da gritante subnotificação, o estudo apontou sérias deficiências na qualidade dos registros. Em menos de 5% dos prontuários foram encontradas informações cruciais sobre a intensidade, frequência ou duração da dor, elementos indispensáveis para guiar um diagnóstico preciso e um tratamento eficaz. Sem esses detalhes, o acompanhamento das pacientes torna-se superficial e ineficiente.
Os dados revelam ainda que essas pacientes buscam os serviços de saúde com alta frequência. Mulheres com histórico de dor pélvica realizaram, em média, 24 atendimentos no período analisado – quase cinco vezes mais que aquelas sem tal histórico. Um ciclo vicioso de consultas repetidas, mas sem a resolução esperada.
“Elas estão indo aos serviços repetidamente, mas suas queixas não estão sendo adequadamente registradas nem acompanhadas”, lamenta Sofia Reinach, gerente de Saúde e líder da iniciativa de endometriose, dor pélvica e saúde menstrual do Instituto Alana. Essa invisibilidade impede o acesso a cuidados contínuos e adequados, prolongando o sofrimento.
A pesquisa também destacou um descompasso entre o relato das pacientes e a conduta clínica. Termos como endometriose e adenomiose são frequentemente mencionados nos campos subjetivos dos prontuários, onde as pacientes expressam suas queixas. No entanto, essas menções se tornam raras nos campos “objetivo” e “plano”, que consolidam a avaliação médica e as decisões terapêuticas. Isso sugere que a dor é ouvida, mas nem sempre se traduz em um plano de tratamento apropriado já na atenção básica.
“Existem recomendações para manejo da dor na atenção primária, incluindo uso de contraceptivos hormonais e outras estratégias. Mas os prontuários mostram muito mais menções a medicamentos para gases e constipação intestinal do que a tratamentos específicos para dor pélvica”, explica Reinach, sublinhando a inadequação da abordagem atual.
Para Luciana Albuquerque, secretária municipal de Saúde do Recife, o estudo lança luz sobre um problema historicamente minimizado no sistema de saúde. “O que a gente precisa agora é fazer a ligação dos pontos da rede para conseguir virar esse jogo, mudar a cultura da banalização da dor”, afirma. Segundo ela, os resultados servirão como base para capacitar mais de 3 mil profissionais da atenção básica do município, integrando o treinamento a um novo protocolo municipal de planejamento sexual e reprodutivo.
Albuquerque ressalta que a rede municipal do Recife já oferece instrumentos importantes que podem ampliar o acesso ao diagnóstico e tratamento, como o implante contraceptivo Implanon nas unidades básicas, o serviço de ultrassom itinerante e ambulatórios especializados no Hospital da Mulher e em policlínicas. São passos essenciais para transformar a realidade das pacientes.
A estudante Cecília Vieira, de 22 anos, personifica o impacto dessas ações. Usuária de plano de saúde, ela conseguiu acesso ao implante contraceptivo pelo SUS do Recife em fevereiro e relata que deixou de sentir as dores incapacitantes que a acompanhavam desde os 14 anos, três anos após a primeira menstruação. “Chegava a desmaiar de dor, ficava muito fraca, faltava às aulas”, conta. Cecília havia tentado anticoncepcionais prescritos, mas não se adaptou, sofrendo com enjoos e vômitos. A médica sugeriu o implante, mas o custo de R$ 2 mil não era coberto pelo plano. “Era muito caro para mim. Foi quando soube que já era oferecido no SUS e fui atrás”, relata.
Pedro de Paula, diretor-executivo da Vital Strategies Brasil, destaca o potencial do grande volume de dados já existente no SUS. Segundo ele, o cruzamento de bases de dados com técnicas de linguística computacional e inteligência artificial já despertou o interesse do Ministério da Saúde e pode ser replicado em outras regiões do país, abrindo caminhos para uma gestão de saúde mais inteligente e responsiva.
O estudo também estabeleceu uma relação preocupante entre dor pélvica e violência. Meninas e mulheres com registros simultâneos de dor e histórico de violência apresentaram prontuários ainda mais incompletos, apesar da complexidade clínica acrescida. Nesse grupo, as pacientes realizaram, em média, 35 consultas na atenção primária – cerca de 50% a mais do que aquelas com dor, mas sem registros de violência. Adolescentes de 10 a 14 anos figuram entre os grupos mais vulneráveis, revelando a urgência de uma abordagem integrada que contemple múltiplas vulnerabilidades.
Para Pedro de Paula, a combinação entre sofrimento físico, violência e transtornos mentais ajuda a dimensionar a gravidade do problema, exigindo uma resposta coordenada do sistema de saúde e da sociedade.
De acordo com Sofia Reinach, estimativas indicam que entre 35% e 45% das meninas convivem com dores menstruais incapacitantes, um dado que reforça a urgência de atenção ao tema.
Atualmente, o tempo médio para o diagnóstico de endometriose varia de sete a dez anos, tanto no Brasil quanto em outros países, um atraso que agrava a condição e o sofrimento das pacientes.
Para enfrentar este cenário desafiador, o Instituto Alana prepara um programa abrangente voltado à saúde menstrual, à dor pélvica e à endometriose. O programa se estrutura em três eixos de atuação: financiamento de pesquisas, fortalecimento de políticas públicas e campanhas de conscientização, visando transformar a vida de milhões de mulheres.
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