MANGUEZAIS EM RECUPERAÇÃO

Estudo aponta recuperação surpreendente de manguezais após décadas de destruição

Manguezal costeiro com vegetação densa e raízes expostas.
Os manguezais presentes nas zonas litorâneas do planeta protegem milhões de pessoas contra tempestades e absorvem imensos volumes de gases do efeito estufa.

Cientistas revelam que o crescimento de mangues pelo mundo superou as perdas anuais desde 2010, impulsionado por proteções legais e conscientização pública.

Uma análise científica revelou uma recuperação inesperada dos manguezais globais, ecossistemas vitais para a proteção costeira e a absorção de carbono. O estudo aponta que, desde 2010, o crescimento dessas formações vegetais marinhas tem superado as perdas anuais, revertendo um declínio preocupante observado por décadas.

Essas áreas de transição entre terra e mar, essenciais para a vida marinha e para a segurança de milhões de pessoas contra tempestades e tsunamis, enfrentaram décadas de destruição. As árvores de mangue foram historicamente cortadas para dar espaço à construção de moradias e à expansão de fazendas de criação de peixes.

Contudo, o novo estudo, divulgado nesta segunda-feira, 15/06/2026, demonstra uma mudança significativa nessa trajetória. O fortalecimento das proteções legais em diversos países e o aumento da conscientização sobre a importância desses ecossistemas, especialmente após eventos como o tsunami de 2004 no Oceano Índico, têm sido fatores cruciais. Os pesquisadores destacam ainda a notável capacidade regenerativa natural dos manguezais quando a pressão humana diminui.

Os manguezais atuam como poderosos sequestradores de carbono, armazenando até cinco vezes mais dióxido de carbono por área que as florestas terrestres. Suas intrincadas redes de raízes também dissipam a força das ondas, oferecendo uma barreira natural contra marés de tempestade e tsunamis, e servem como berçários essenciais para diversas espécies marinhas.

No entanto, os benefícios ambientais e de proteção oferecidos pelos manguezais foram gravemente ameaçados ao longo do século passado. A expansão da aquicultura, da agricultura e o crescimento urbano nas zonas costeiras levaram à derrubada massiva dessas florestas. Entre os anos 1980 e 2010, mais de 12 mil quilômetros quadrados de manguezais foram perdidos na Ásia, África e Américas, uma área equivalente a duas vezes o tamanho do Distrito Federal (DF).

A pesquisa mais recente indica uma redução expressiva dessa tendência negativa. A perda líquida total de manguezais, considerando áreas perdidas e não recuperadas, foi reduzida para cerca de 849 km² desde os anos 1980. A restauração de florestas degradadas e, principalmente, a expansão natural dos manguezais em muitas regiões, após a diminuição do desmatamento, foram responsáveis por essa estabilização e crescimento.

Países como Indonésia e Mianmar, que abrigam extensas áreas de mangue, têm apresentado essa recuperação. Na Indonésia, o impacto do tsunami de 2004 intensificou a percepção pública sobre a relevância da preservação dos manguezais, levando à redução da derrubada para piscicultura. Similarmente, em Mianmar, o ciclone Nargis em 2008 e a proibição nacional do desmatamento em 2016 contribuíram para uma mudança de consciência.

A tecnologia também desempenhou um papel fundamental. O uso de sistemas de imagens de satélite mais avançados, como os do programa Landsat, permitiu um mapeamento mais detalhado e preciso, revelando um número maior de árvores novas do que em estudos anteriores. Essas imagens são capazes de detectar sutis mudanças na cobertura arbórea com consistência global.

Apesar das notícias animadoras, os pesquisadores alertam que a expansão de manguezais em algumas áreas pode estar associada a danos ambientais em outros locais. Em países como o Brasil, o crescimento de novas formações de mangue às margens de rios e litorais pode estar relacionado ao transporte de nutrientes de áreas de desmatamento e mineração no interior do continente. Essa dinâmica ressalta a necessidade de uma gestão integrada e sustentável dos ecossistemas.

A pesquisa também aponta que a recuperação não é uniforme globalmente. A África central e oriental, por exemplo, ainda enfrenta desafios significativos, com o delta do rio Níger sendo um símbolo dos impactos da poluição, especialmente pela atividade petrolífera. Ciclones tropicais também continuam a representar uma ameaça séria em diversas regiões, de Austrália ao Caribe.

Apesar dessas ressalvas, os autores do estudo concordam que a tendência geral é positiva. A redução significativa no nível de perda e o aumento de cerca de 20% na proporção de manguezais com dossel fechado desde os anos 1980 indicam que as ações de preservação e a resiliência natural dos ecossistemas estão surtindo efeito. Essa recuperação é vista como um passo importante na direção certa para a conservação desses ambientes cruciais.

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