ECONOMIA EM GUERRA

Estudo aponta perda de US$ 2,6 bilhões em Gaza no primeiro ano de guerra devido a bombardeios de Israel

Vista aérea de Gaza mostrando edifícios destruídos.
Destruição em Gaza após bombardeios.

Pesquisa inédita usa dados de satélite para quantificar destruição e seu impacto na vida dos habitantes da Faixa de Gaza. Perdas chegam a 75% do PIB.

A decisão de bombardear intensamente a Faixa de Gaza, tomada pelas Forças Armadas de Israel, resultou na destruição generalizada e em uma perda econômica estimada em US$ 2,6 bilhões apenas no primeiro ano de conflito, segundo um estudo divulgado pela revista científica PNAS Nexus, publicação da Academia Nacional de Ciências dos EUA e da Universidade de Oxford. Esta perda representa 75% das atividades econômicas locais e impacta diretamente o consumo médio familiar, evidenciando a profunda crise humanitária e econômica na região.

Publicada nesta domingo, 21/06/2026, a pesquisa é pioneira ao utilizar exclusivamente dados de satélite para estimar os danos econômicos, evitando fontes ligadas às partes envolvidas no conflito. Os dados revelam que, até outubro de 2024, 82% de cada quilômetro quadrado da Faixa de Gaza sofreu danos, com 67,9% da área construída destruída. A perda de luminosidade noturna, um indicador econômico reconhecido, atingiu 68,5% em zonas atingidas e 80,1% em áreas danificadas desde o início da guerra.

O estudo, conduzido por economistas e geógrafos de quatro instituições, buscou neutralizar o que um dos pesquisadores, Daniele Rinaldo, descreve como "guerra na informação". "Todo dado era contestado. A única forma de contornar esse problema era olhar para informações que não dependessem de nenhuma das partes", explicou Rinaldo à Folha.

A metodologia combinou mapas de dano a partir de imagens de satélite com medições de luminosidade noturna. A destruição foi mais intensa nos primeiros três meses de conflito, respondendo pela maior parte do impacto econômico. Rinaldo ressalta que o estudo foca no impacto imediato da destruição física, sem quantificar as implicações de longo prazo para a saúde e o bem-estar social.

Para converter a queda de luminosidade em valores monetários, a equipe correlacionou os dados com o PIB e gastos domésticos, com base em validações de estudos anteriores. Os resultados apontam uma perda de 75,3% do PIB de Gaza, chegando a 97% em áreas severamente atingidas. A pesquisa também considerou cortes de eletricidade, mas os resultados de perda econômica se mantiveram consistentes.

A análise correlacionou os danos com as ordens de retirada do Exército de Israel, concluindo que nenhuma zona sob tais ordens escapou de destruição severa e consequente impacto econômico. As Forças Armadas israelenses afirmam não atacar alvos sem ligação com o Hamas e negam o objetivo de ferir civis.

Rinaldo destaca a relação direta entre a cessação dos bombardeios e a recuperação da atividade econômica. Durante o cessar-fogo de novembro de 2023, por exemplo, a luminosidade nas áreas danificadas aumentou 25% em uma semana, demonstrando a resiliência da população e a rápida retomada das atividades quando o conflito cessa.

Apesar do acordo de cessar-fogo de outubro de 2025, a violência persiste. O Primeiro-Ministro Binyamin Netanyahu declarou em maio que o Exército assumiria o controle de 70% de Gaza, em uma decisão que viola os termos do acordo. Dados do Ocha, escritório da ONU, indicam que ao menos 715 palestinos morreram em bombardeios desde 10 de outubro de 2025, enquanto quatro soldados israelenses morreram no mesmo período. As mortes de palestinos acumulam mais de 72 mil até abril de 2026, com alertas da ONU sobre possíveis crimes de guerra.

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