ABALOS SÍSMICOS
Entenda por que tremores na Venezuela foram sentidos de forma diferente em Roraima e Amazonas
Diferenças na geologia e estrutura das cidades explicam a intensidade sentida em estados brasileiros fronteiriços com a Venezuela. O horário do evento também pode ter influenciado.
Terremotos com epicentro na Venezuela na quarta-feira (24) provocaram reações distintas em estados brasileiros na fronteira. Enquanto em Roraima os tremores foram descritos como leves, no Amazonas a percepção foi mais intensa, levando moradores a evacuar prédios. A diferença na forma como os abalos sísmicos foram sentidos é explicada por uma combinação de fatores geológicos, estruturais e até mesmo pelo horário em que os eventos ocorreram.
Segundo o pesquisador José Alexandre Nogueira, do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP), a proximidade com o epicentro é o fator mais direto para a intensidade sentida de um terremoto. No entanto, outros elementos desempenham um papel crucial. A geologia local em Manaus, por exemplo, está inserida em uma bacia sedimentar com grande espessura de sedimentos, o que tende a amplificar as ondas sísmicas.
Em contraste, Roraima apresenta uma formação geológica distinta, com rochas cristalinas mais antigas e densas. Essa característica faz com que as ondas sísmicas sejam atenuadas, resultando em tremores percebidos com menor intensidade, mesmo com uma proximidade geográfica ao epicentro. A especificidade do sítio geológico, portanto, influencia diretamente na forma como as ondas sísmicas se propagam e são sentidas.
As características das construções nas cidades também impactam a percepção. Em Manaus, a presença de prédios altos, que oscilam mais durante a passagem das ondas sísmicas, torna os abalos mais evidentes para os moradores. Em Boa Vista, onde a maioria das construções é térrea, a sensibilidade aos tremores é naturalmente menor. Essa diferença se acentua em metrópoles com arranha-céus, onde mesmo tremores mais distantes podem ser notados devido à amplitude das oscilações.
O horário em que os terremotos ocorreram, pouco após as 19h (horário de Brasília) na quarta-feira (24), também pode ter influenciado o número de relatos. O especialista aponta que as pessoas tendem a perceber melhor os tremores quando estão em repouso, como em casa. Se muitos estavam focados em atividades como assistir a um evento esportivo, como a partida da Seleção Brasileira contra a Escócia pela Copa do Mundo de 2026, a atenção a outros fenômenos pode ter sido menor, especialmente em locais como Roraima.
Os dois terremotos principais atingiram a Venezuela em rápida sucessão, com epicentro em El Guayabo, e foram os mais fortes registrados no país em mais de um século, resultando em mais de 100 mortos e cerca de 1.500 feridos, além de extensos danos estruturais. A região de encontro entre as placas tectônicas do Caribe e da América do Sul torna a Venezuela uma área de alta atividade sísmica, com registros históricos de abalos devastadores, como o de 1812 em Caracas e Mérida.
Equipes de resgate e defesa civil foram mobilizadas e o governo venezuelano declarou estado de emergência. O Itamaraty informou que, até o momento, não há registro de brasileiros entre as vítimas. O Brasil, assim como outras nações, ofereceu ajuda humanitária e apoio às vítimas dos desastres na Venezuela.
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