ABALOS SÍSMICOS

Entenda por que tremores na Venezuela foram sentidos de forma diferente em Roraima e Amazonas

Bombeiros e civis em meio a escombros de um prédio destruído na Venezuela, em operação de resgate após terremoto.
Pessoas trabalham para resgatar um homem preso sob os escombros de um prédio que desabou, após os terremotos em La Guaira, Venezuela, em 25 de junho de 2026 — Foto: REUTERS/Maxwell Briceno

Diferenças na geologia e estrutura das cidades explicam a intensidade sentida em estados brasileiros fronteiriços com a Venezuela. O horário do evento também pode ter influenciado.

Terremotos com epicentro na Venezuela na quarta-feira (24) provocaram reações distintas em estados brasileiros na fronteira. Enquanto em Roraima os tremores foram descritos como leves, no Amazonas a percepção foi mais intensa, levando moradores a evacuar prédios. A diferença na forma como os abalos sísmicos foram sentidos é explicada por uma combinação de fatores geológicos, estruturais e até mesmo pelo horário em que os eventos ocorreram.

Segundo o pesquisador José Alexandre Nogueira, do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP), a proximidade com o epicentro é o fator mais direto para a intensidade sentida de um terremoto. No entanto, outros elementos desempenham um papel crucial. A geologia local em Manaus, por exemplo, está inserida em uma bacia sedimentar com grande espessura de sedimentos, o que tende a amplificar as ondas sísmicas.

Em contraste, Roraima apresenta uma formação geológica distinta, com rochas cristalinas mais antigas e densas. Essa característica faz com que as ondas sísmicas sejam atenuadas, resultando em tremores percebidos com menor intensidade, mesmo com uma proximidade geográfica ao epicentro. A especificidade do sítio geológico, portanto, influencia diretamente na forma como as ondas sísmicas se propagam e são sentidas.

As características das construções nas cidades também impactam a percepção. Em Manaus, a presença de prédios altos, que oscilam mais durante a passagem das ondas sísmicas, torna os abalos mais evidentes para os moradores. Em Boa Vista, onde a maioria das construções é térrea, a sensibilidade aos tremores é naturalmente menor. Essa diferença se acentua em metrópoles com arranha-céus, onde mesmo tremores mais distantes podem ser notados devido à amplitude das oscilações.

O horário em que os terremotos ocorreram, pouco após as 19h (horário de Brasília) na quarta-feira (24), também pode ter influenciado o número de relatos. O especialista aponta que as pessoas tendem a perceber melhor os tremores quando estão em repouso, como em casa. Se muitos estavam focados em atividades como assistir a um evento esportivo, como a partida da Seleção Brasileira contra a Escócia pela Copa do Mundo de 2026, a atenção a outros fenômenos pode ter sido menor, especialmente em locais como Roraima.

Os dois terremotos principais atingiram a Venezuela em rápida sucessão, com epicentro em El Guayabo, e foram os mais fortes registrados no país em mais de um século, resultando em mais de 100 mortos e cerca de 1.500 feridos, além de extensos danos estruturais. A região de encontro entre as placas tectônicas do Caribe e da América do Sul torna a Venezuela uma área de alta atividade sísmica, com registros históricos de abalos devastadores, como o de 1812 em Caracas e Mérida.

Equipes de resgate e defesa civil foram mobilizadas e o governo venezuelano declarou estado de emergência. O Itamaraty informou que, até o momento, não há registro de brasileiros entre as vítimas. O Brasil, assim como outras nações, ofereceu ajuda humanitária e apoio às vítimas dos desastres na Venezuela.

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