GUERRA E CLIMA
Emissões militares: O quarto maior poluidor global ignorado em relatórios
Exclusão de dados em inventários climáticos esconde um problema de 2,7 bilhões de toneladas de CO₂ por ano. Recursos da guerra poderiam financiar adaptação climática.
Novos levantamentos e análises globais, divulgados por diversas organizações de pesquisa ambiental e política, revelam que as operações militares em conflitos armados são uma fonte massiva e subestimada de emissões de gases de efeito estufa. Esta constatação, exposta nesta quarta-feira, 06/05/2026, chama a atenção para o impacto invisível que acelera a crise climática e compromete o bem-estar social, já que tais emissões continuam largamente ignoradas nos relatórios oficiais. É um problema que afeta diretamente a vida de milhões e a sustentabilidade do planeta.
Conflitos armados, muito além de ceifar vidas e destruir territórios, emitem milhões de toneladas de gases de efeito estufa, acelerando silenciosamente a crise climática global. Mesmo assim, essas emissões continuam fora da maioria das metas e relatórios nacionais de carbono.
Nos primeiros 14 dias da guerra no Irã, por exemplo, os bombardeios, incêndios e deslocamentos em massa já haviam gerado 5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. Para se ter uma ideia, este volume supera o que um país como El Salvador emite em um ano inteiro. E o conflito mal havia começado.
Contudo, este número provavelmente não aparecerá nos inventários climáticos oficiais. Segundo levantamento da Conflit and Environment Observatory, se as forças militares do mundo fossem um país, seriam o quarto maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, responsáveis por cerca de 2,7 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano, o que representa mais de 5% das emissões globais. Ficariam atrás apenas de China, Estados Unidos e Índia.
Apesar da magnitude, esses dados raramente integram o debate climático. Embora o Acordo de Paris preveja a inclusão das emissões militares nos inventários nacionais, o reporte é voluntário e frequentemente parcial. Em 2025, apenas seis países — Alemanha, Bulgária, Chipre, Eslováquia, Hungria e Noruega — reportaram dados desagregados de emissões militares à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). O restante do mundo simplesmente não informa.
A conta oficial costuma considerar apenas o consumo energético de bases e frotas, o que representa apenas a ponta do iceberg. O mais relevante, e que permanece oculto, é a fabricação e o uso de munições, equipamentos bélicos, a complexa logística e suprimentos militares, além dos vastos resíduos de guerra.
Quando um conflito irrompe, as emissões de carbono explodem em proporções difíceis de serem absorvidas pelo sistema climático. Um estudo da ONG Política por Inteiro revelou que a guerra na Ucrânia gerou 311,4 milhões de toneladas de CO₂ em quatro anos de conflito. O combate direto foi responsável por 37% dessas emissões, enquanto o restante veio de incêndios florestais em áreas naturais (23%), reconstrução de infraestrutura destruída (23%), aviação civil desviada (9%) e deslocamento de refugiados (2%).
Já a guerra em Gaza gerou 33,2 milhões de toneladas em apenas 15 meses, segundo estudo publicado na revista One Earth pelo grupo de pesquisadores liderados por Neimark em 2026. Para se ter ideia da escala, isso equivale a um ano inteiro de emissões de países como a Hungria.
Destruição que gera lucros
Em um cenário onde cada tonelada de carbono é crucial para os limites climáticos do planeta, a guerra intensifica o acúmulo de gases de efeito estufa e agrava a crise. O quadro, já grave, torna-se ainda mais perverso quando a destruição é contabilizada como crescimento econômico, um fenômeno observado desde a Segund Guerra Mundial.
Isso acontece porque o PIB mede o valor monetário de toda a atividade econômica, sem distinguir se ela é socialmente útil ou ecologicamente destrutiva. Assim, a fabricação de munições, a reconstrução de infraestruturas devastadas e até mesmo os gastos hospitalares com vítimas de guerra são atividades que impulsionam o PIB.
Como argumentou o economista ecológico Herman Daly, o crescimento do PIB, além de certo ponto, deixa de produzir bem-estar e passa a gerar “crescimento não econômico”, produzindo mais custos do que benefícios. A guerra é o exemplo mais extremo dessa lógica.
Os economistas Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi já alertavam em 2009 que o PIB é apenas uma medida de atividade econômica, não de bem-estar. A destruição de um ecossistema para a extração de madeira eleva o PIB. O custo de contenção de petróleo derramado em um oceano eleva o PIB. O gasto com a reconstrução de cidades bombardeadas eleva o PIB. O que realmente importa — o capital natural destruído, a saúde mental da população, a coesão social desfeita — fica de fora dessa equação.
Dentro de uma perspectiva de novas economias, é fundamental olhar para esses custos que ninguém calcula. Segundo a ONU, em 2025, os gastos militares globais atingiram um recorde de US$ 2,9 trilhões — o equivalente a US$ 334 para cada pessoa na Terra. Com apenas 15% desse valor, cerca de 387 bilhões de dólares, seria possível financiar toda a adaptação climática necessária no Sul Global, conforme estimativas da ONU.
Ou seja, os recursos massivos direcionados à guerra são subtraídos diretamente de investimentos cruciais em transição energética, saúde, educação e resiliência climática, temas urgentes e críticos em nosso contexto atual.
Enquanto países ricos debatem metas de descarbonização em grandes conferências, na prática, eles continuam a destinar quantias cada vez maiores ao rearmamento. Essa lógica, que a pesquisa sobre dependências e imperativos do crescimento econômico denomina de “crescimento militarizado”, descreve estados que precisam crescer para se armar e se armam para proteger as condições do crescimento.
É crucial ressaltar que os efeitos climáticos da guerra não se restringem às fronteiras onde ela ocorre. Como analisaram Carlos Nobre, Johan Rockström, Robert Muggah e Lourenço Bustan, uma guerra no Golfo repercute na Amazônia e nas florestas de Bornéu.
Preços mais altos de energia elevam a demanda por substitutos, pressionam o uso da terra e impulsionam o desmatamento. Florestas que deveriam ser tratadas como infraestrutura climática insubstituível tornam-se áreas descartáveis quando a lógica geopolítica dita as regras.
Uma cadeia causal de destruição
Isso significa que uma crise geopolítica no Estreito de Ormuz pode acelerar o desmatamento no Cerrado brasileiro. A cadeia causal é indireta, mas real e devastadora.
A questão não é apenas contabilizar as emissões militares nos inventários nacionais, embora isso seja urgente e necessário. A questão mais profunda é que continuamos a tomar decisões políticas e econômicas com instrumentos projetados para um mundo que não existe mais.
Medir o progresso apenas pelo PIB em uma era de múltiplas crises equivale a navegar por um oceano instável com instrumentos obsoletos. Continuamos projetando crescimento, mas ignorando as perdas ambientais, os riscos acumulados e as consequências futuras de escolhas geopolíticas que priorizam o conflito em detrimento da cooperação.
Precisamos de métricas que revelem o que está oculto: a destruição do capital natural, os impactos climáticos das ações militares e os custos sociais da instabilidade. Sem isso, cada bomba lançada se tornará também uma dívida ecológica impagável, invisível nos balanços, mas terrivelmente evidente no colapso dos ecossistemas e na degradação da dignidade humana.
Carol Tomaz é doutoranda em Novas Economias e Inovação Social na Universidade de Brasília (UnB).
Carol Tomaz não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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