INOVAÇÃO NO CAMPO

Embrapa busca R$ 1 bilhão para garantir futuro da pesquisa agropecuária no Brasil

Cientistas da Embrapa em laboratório ou campo realizando pesquisas agrícolas
Pesquisas da Embrapa são vitais para o agronegócio e a soberania alimentar do Brasil

Visando blindar a pesquisa agropecuária nacional das oscilações orçamentárias, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) intensifica sua estratégia de captação de recursos privados e projeta um ambicioso fundo patrimonial. Conheça os detalhes dessa iniciativa vital para a soberania alimentar e o agronegócio do país.

Buscando blindar a pesquisa agropecuária nacional das oscilações orçamentárias, a Embrapa, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, intensifica sua estratégia de captação de recursos privados. Nesta terça-feira, 12 de maio de 2026, a presidente Silvia Massruhá confirmou a ambiciosa meta de estabelecer um fundo patrimonial que pode chegar a R$ 1 bilhão. A medida visa garantir a continuidade de inovações cruciais para a segurança alimentar e a soberania do Brasil, cujas tecnologias geraram um impacto econômico de R$ 124 bilhões em 2025.

A busca por um novo modelo de financiamento na Embrapa, que não abre mão dos recursos públicos, tem sido uma prioridade. A estatal avança na captação privada para complementar o orçamento e dar continuidade às pesquisas, mesmo em momentos de contingenciamento fiscal. Nos últimos anos, as parcerias com a iniciativa privada dobraram, e os royalties sobre tecnologias próprias triplicaram, impulsionando a confiança na meta de Massruhá.

Dados da estatal revelam a crescente relevância das parcerias com agentes privados, com um salto significativo na captação nos últimos três anos. As colaborações com a iniciativa privada somaram R$ 150 milhões em 2025, um aumento de 80% em relação aos R$ 85 milhões de 2024 — e quase o dobro do que era captado no início da gestão Massruhá, em 2023, quando a média girava em torno de R$ 65 milhões. Este avanço ocorreu mesmo em períodos de contingenciamento orçamentário, quando parte dos recursos autorizados foi bloqueada.

"A Embrapa já estava trabalhando nisso [captação privada] nesses últimos 10 anos, preocupada em aumentar essas fontes de financiamento. Temos uma média de R$ 100 milhões por ano apenas com parcerias público-privadas. Em 2025, foram R$ 150 milhões", destacou Massruhá.

Núcleo de Inovação Tecnológica impulsiona royalties

Para reduzir a vulnerabilidade das pesquisas em momentos de congelamento orçamentário, a Embrapa não só ampliou as parcerias privadas, mas também implementou o Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT). Este mecanismo permite que a instituição receba royalties via fundação e os reinvesta diretamente em pesquisa, sem transitar pelo Tesouro. Importante ressaltar que esses recursos não podem ser usados para despesas operacionais, como água, luz ou limpeza, garantindo o foco na inovação.

A arrecadação via NIT saiu de R$ 3,7 milhões em 2024 para R$ 12,6 milhões em 2025, um salto que demonstra o potencial do modelo. A meta para 2026 é ainda mais ambiciosa: R$ 30 milhões, envolvendo dez unidades da empresa.

"Não podemos depender apenas do orçamento público. Precisamos criar um modelo mais sustentável financeiramente para a Embrapa", afirmou a presidente, justificando a necessidade do fundo patrimonial. Este modelo, adotado por renomadas universidades americanas, permite que apenas os rendimentos financiem editais de pesquisa, mantendo o capital principal intocado.

A meta de Massruhá é alcançar pelo menos R$ 500 milhões no fundo, com potencial para R$ 1 bilhão no médio prazo. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) já sinalizou interesse em aportar R$ 100 milhões, condicionado à estruturação do fundo. Um modelo de Fiagro também está nos planos, mas deve ser implementado em um estágio futuro.

Equilíbrio entre o público e o privado

Massruhá ponderou que as parcerias privadas possuem um limite claro. "O privado investe mais no curto prazo, para colocar produto no mercado. Pesquisa básica, de médio e longo prazo, é o Estado que precisa bancar", explicou.

Um exemplo emblemático é o da cientista Mariângela Hungria, eleita uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, que dedicou 40 anos ao desenvolvimento de bioinsumos hoje disputados por empresas globalmente. "Quem bancou quando ninguém acreditava? Foi o Estado, foi a Embrapa", ressaltou a presidente.

Por isso, apesar do avanço na captação privada, Massruhá foi enfática: a Embrapa precisa continuar sendo uma empresa pública. "É uma questão de soberania nacional", disse. "77% dos produtores brasileiros são pequenos e médios. O Estado tem que garantir que eles tenham acesso à pesquisa que o mercado não vai financiar", frisou.

Os próprios números da empresa dimensionam o que está em jogo. O impacto econômico total das cerca de 200 tecnologias avaliadas anualmente pelo balanço social da empresa – uma amostra de seu portfólio de aproximadamente 2 mil tecnologias – atingiu R$ 124 bilhões em 2025. Este valor equivale a 17% do PIB agrícola, que fechou o mesmo ano em R$ 725 bilhões.

"Em 2025, cada R$ 1 investido nessas 200 tecnologias deu um retorno de aproximadamente R$ 27. No ano anterior, 2024, eram R$ 25. O impacto econômico das nossas tecnologias corresponde aproximadamente a 17% do PIB agrícola. Isso é importante para termos a dimensão do impacto da Embrapa dentro do contexto agropecuário", concluiu Massruhá.

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