CLIMA EM MUTAÇÃO

El Niño: Projeção de formação alcança 82% até julho, anuncia NOAA

Mapa de anomalias de temperatura da superfície do mar no Oceano Pacífico em abril de 2026, indicando áreas mais frias.
Mapa mostra as anomalias de temperatura da superfície do mar no Pacífico em abril de 2026. Áreas em azul indicam águas mais frias que a média, padrão associado à La Niña — Foto: NOAA

Fenômeno pode intensificar ondas de calor, secas e enchentes no Brasil.

A probabilidade de formação do El Niño no trimestre maio-julho de 2026 aumentou para 82%, elevando o alerta para os impactos climáticos globais e no Brasil. O Centro de Previsão Climática (CPC) dos Estados Unidos, órgão da NOAA, fez o anúncio nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026, justificando a decisão com o contínuo aquecimento das águas subsuperficiais do Oceano Pacífico. Este cenário projeta uma intensificação de eventos extremos, como secas prolongadas, enchentes e ondas de calor, que afetarão a vida de milhões de pessoas e demandarão atenção especial da sociedade e dos governos.

A nova projeção representa um salto em relação aos 61% estimados em abril, quando a agência havia divulgado a discussão anterior. A persistência do fenômeno até o trimestre dezembro-fevereiro de 2026/2027 também é vista com grande certeza, alcançando 96% de probabilidade.

Em abril de 2026, segundo o boletim, o Pacífico equatorial permaneceu em condição de neutralidade, com as temperaturas da superfície do mar próximas da média na porção centro-leste da bacia. O índice Niño-3.4, principal referência para monitorar o fenômeno, registrou +0,4°C na semana mais recente. Os índices das regiões Niño-4, mais a oeste, e Niño-1+2, mais a leste, ficaram em +0,5°C e +1,0°C, respectivamente.

🌊 ENTENDA: El Niño e La Niña, o ciclo que move o clima global

O El Niño e a La Niña são as duas fases opostas do fenômeno climático conhecido como ENOS (El Niño-Oscilação Sul). O El Niño se caracteriza pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico equatorial em 0,5°C ou mais. Em contraste, a La Niña representa um resfriamento dessas mesmas águas, gerando impactos igualmente significativos, mas de natureza distinta.

A NOAA aponta que, apesar da neutralidade na superfície, o calor abaixo da linha d'água do Pacífico equatorial aumentou pelo sexto mês consecutivo, com temperaturas subsuperficiais significativamente acima da média.

Intensidade do fenômeno ainda é uma incógnita

Embora a confiança na formação do El Niño tenha se fortalecido, a NOAA admite que há uma incerteza considerável sobre a intensidade máxima do fenômeno. Nenhuma das categorias avaliadas pelo centro — fraco, moderado, forte ou muito forte — ultrapassa 37% de probabilidade nas projeções atuais. Isso significa que, por enquanto, nenhum cenário de intensidade é mais provável do que os demais.

Historicamente, os El Niños mais intensos são marcados por um forte acoplamento entre oceano e atmosfera durante os meses de verão no Hemisfério Norte, ou seja, uma resposta atmosférica clara ao aquecimento do Pacífico. Esse acoplamento ainda não foi observado em 2026, e a NOAA não pode prever se isso ocorrerá nos próximos meses.

Outros modelos internacionais, como o europeu ECMWF, chegam a projetar chances de um evento ainda mais forte. Contudo, a agência americana ressalta que as previsões climáticas são menos confiáveis neste período do ano, conhecido como "barreira de previsão de primavera", quando os modelos tendem a apresentar menor precisão. As projeções devem ganhar mais exatidão a partir de junho.

“Os modelos já indicam a possibilidade de um El Niño forte a partir de maio, ganhando força ao longo do inverno. Mas ainda é cedo para falar em um ‘super El Niño’; por enquanto, esse cenário precisa de mais confirmação”, explica o meteorologista César Soares, da Climatempo.

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O impacto do El Niño em um planeta mais quente

Desde 2006, uma sucessão de episódios de El Niño tem contribuído para a aceleração das mudanças climáticas globais, que já tornam nosso planeta mais quente. Mesmo eventos considerados fracos ou moderados acontecem em um mundo que já sofre com o aquecimento global, ampliando o risco de extremos como secas severas, enchentes devastadoras e ondas de calor prolongadas. Veja a seguir o histórico recente:

  • 2006–2007: El Niño fraco a moderado.
  • 2009–2010: El Niño moderado.
  • 2014–2016: El Niño muito forte, associado a recordes de calor e eventos extremos mais frequentes.
  • 2018–2019: El Niño fraco a moderado, com duração mais curta e impactos limitados.
  • 2023–2024: El Niño forte, um dos mais intensos já registrados, responsável por novos recordes de temperatura global.

🌎 O que é o El Niño — e por que ele importa tanto

O El Niño é um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico na região próxima à linha do Equador. Integrante de um ciclo climático natural que alterna fases quentes (El Niño), frias (La Niña) e neutras, seus efeitos se espalham por várias regiões do planeta. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica e modifica os padrões de chuvas e temperaturas globais.

No Brasil, os impactos são desiguais e podem ser devastadores: o Sul tende a receber volumes maiores de chuva, elevando o risco de enchentes, enquanto áreas do Norte e do Nordeste podem enfrentar períodos de seca severa. O fenômeno também intensifica a temperatura global; em anos de El Niño mais forte, o planeta costuma registrar calor acima da média, agravando os efeitos do aquecimento global.

A intensidade varia de um evento para outro, assim como seus impactos. Com um planeta já mais aquecido, mesmo episódios moderados podem provocar efeitos muito mais fortes do que no passado, exigindo preparo e adaptação de comunidades e autoridades.

🌧️ Possíveis impactos no Brasil

Historicamente, o El Niño desequilibra o padrão de chuva e temperatura no país, causando:

  • Aumento de chuva no Sul, com risco elevado de eventos extremos e enchentes.
  • Redução drástica de chuvas no Norte e em partes do Nordeste, intensificando secas.
  • Maior irregularidade nas precipitações no Sudeste e Centro-Oeste, com potenciais períodos de estiagem e temporais localizados.
  • Aumento significativo na frequência de ondas de calor, impactando a saúde e a agricultura.

Especialistas alertam que um dos principais efeitos esperados é o aumento de períodos prolongados de calor, especialmente durante a primavera e o verão, exigindo medidas de adaptação e mitigação. Mesmo com a alternância entre La Niña, neutralidade e El Niño, os cientistas são categóricos: o aquecimento global permanece como o fator primordial por trás das intensas e aceleradas mudanças climáticas. Com os oceanos já operando em temperaturas historicamente elevadas, a expectativa é que os próximos meses sigam registrando calor acima da média em diversas partes do planeta, reforçando a urgência de ações para enfrentar a crise climática.

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