BOLSO APERTADO

Custo de vida desafia IPCA e aperta orçamento das famílias

Custo de vida desafia IPCA e aperta orçamento das famílias

Pesquisa Dieese/Conab revela que salário mínimo ideal chega a R$ 7.612,49 em abril de 2026, com cesta básica subindo 205,1% de 2011 a 2025.

A realidade das filas de supermercado, feiras e farmácias revela um Brasil onde o custo de vida segue elevado, minando a percepção de controle sobre a inflação. Enquanto o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), índice oficial de preços, aponta números mais baixos em abril de 2026 comparado a períodos anteriores, famílias brasileiras sentem no bolso o desafio de manter seu padrão de consumo. Esta discrepância não apenas frustra a população, mas também impulsiona um paradoxo social e político, evidenciando o fosso entre os indicadores macroeconômicos e o cotidiano da maioria.

“Está tudo muito caro; os preços estão pela hora da morte; só o governo vê queda da inflação.” Frases como essas, carregadas de frustração, ecoam nas ruas. Elas traduzem a dificuldade de quem, ao pagar as compras, percebe que a renda já não compra a mesma quantidade de bens e serviços de antes. No dia a dia, a distância entre o que mostram os indicadores de inflação e o custo efetivo de manter o padrão de consumo se amplia.

Do ponto de vista técnico, inflação é o aumento generalizado e contínuo dos preços, medido oficialmente no Brasil pelo IPCA. O custo de vida, por sua vez, representa o quanto uma família precisa gastar para sustentar seu padrão de consumo em determinado local.

O problema é que, mesmo com a redução do desemprego e a alta da renda e da massa de rendimentos nos últimos anos, o ganho tem sido insuficiente para recompor o poder de compra das famílias.

Como economia e política se misturam, emerge o paradoxo do governo atual: embora entregue números macroeconômicos positivos — PIB (Produto Interno Bruto) em crescimento (ainda que com juros elevados), queda do desemprego, valorização do salário mínimo e renda em expansão —, enfrenta baixa aprovação, porque a percepção das famílias é de aperto no orçamento.

A inflação medida pelo IPCA em 12 meses até abril de 2026, segundo o IBGE, foi de 4,39%. O índice é maior que os 4,26% acumulados até dezembro de 2025 e que os 4,14% até março de 2026, mas menor que os 4,68% registrados em 12 meses até abril de 2025.

Na linha do tempo, apesar de rodar acima do centro da meta (3%), é razoável dizer que a inflação está sob controle e que a política monetária tem evitado uma escalada generalizada de preços.

Para Rodrigo Simões, diretor do Núcleo de Estudos da FAC-SP (Faculdade de Comércio de São Paulo), ligada à ACSP (Associação Comercial de São Paulo), a leitura popular faz sentido porque a inflação não mede o nível de preços, e sim a velocidade do aumento.

“Todo mundo incorpora o aumento de um preço na mão de obra, no aluguel, na logística, e muitas vezes isso não volta ao patamar anterior. Tudo permanece mais caro, porque, depois do aumento, não se consegue sair reduzindo os preços”, afirma Simões.

Outro fator crucial é que, embora a renda cresça, muitas vezes o custo de vida avança mais rápido. “Há uma diferença negativa: o custo de vida, proporcionalmente, cresce mais do que o salário”, destaca o professor Simões.

Levantamento do especialista, a pedido do Broadcast — sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado e parceiro de conteúdo do CNN Money —, aponta que, de 2011 a 2025, o valor da cesta básica variou 205,1%, de R$ 277,27 para R$ 845,95, enquanto o salário mínimo subiu 178,5%, de R$ 545,00 para R$ 1.518,00. Em 2011, a cesta consumia 50,88% do mínimo; em 2025, 55,73%. Simões conclui: “Ficou mais caro comer, e as pessoas deixaram de consumir outras coisas.”

Em abril de 2026, de acordo com a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, realizada em parceria entre o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) e a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), o valor da cesta variou de R$ 619,32 em Aracaju (SE) — o menor — a R$ 906,14 em São Paulo — o maior. De março de 2026 para abril de 2026, a cesta subiu 3,49% em Aracaju e 2,51% em São Paulo.

Na capital paulista, para comprar a cesta, o consumidor desembolsou em abril de 2026 o equivalente a 60,43% do salário mínimo de R$ 1.621,00. Com base no valor da cesta em São Paulo, a mais cara do País, Dieese e Conab estimam que o salário mínimo deveria ser de R$ 7.612,49 para cobrir as despesas de uma família com moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência, conforme a previsão constitucional.

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