COMPROMISSO GLOBAL VIOLADO

Crise de financiamento global ameaça a sobrevivência das nações em desenvolvimento

Gráfico ou imagem ilustrativa sobre a queda na assistência internacional para desenvolvimento.
Pesquisadores apontam a falha das nações ricas em cumprir metas de assistência internacional, agravando desigualdades globais.

Estudo do Brics Policy Center revela que nações ricas falharam em cumprir metas da Agenda 2030, comprometendo a vida de populações vulneráveis.

A falta de recursos destinados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável coloca em risco o futuro de nações em desenvolvimento, que enfrentam um déficit anual estimado em US$ 4 trilhões para sustentar políticas básicas de sobrevivência. O cenário foi detalhado em um estudo publicado em julho por Isabel Rocha de Siqueira, Enzo Cosenza e Luis Ehl, pesquisadores do Brics Policy Center da PUC-Rio, que aponta como países desenvolvidos têm negligenciado promessas feitas internacionalmente.

O descumprimento remete aos termos estabelecidos na Agenda de Ação de Adis Abeba, de 2015, que estipulou que países desenvolvidos deveriam destinar 0,7% de sua renda nacional bruta à assistência oficial ao desenvolvimento — meta também inserida no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 17. Contudo, em 2025, a contribuição efetiva recuou para apenas 0,26%, marcando uma quebra histórica de palavra das nações que se declaram líderes em previsibilidade e ética global.

A retração financeira tem efeitos devastadores e desiguais. Em 2025, o Comitê de Assistência ao Desenvolvimento da OCDE registrou uma queda de 23,1% nos repasses, totalizando US$ 174,3 bilhões. A maior parte dessa redução concentrou-se em nações como Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Japão e França. Particularmente alarmante é o corte de 56,9% por parte dos Estados Unidos, que sozinhos responderam por três quartos da queda global.

O impacto dessa política de austeridade atinge diretamente o tecido social em áreas críticas. Em 2025, a assistência bilateral à África subsaariana despencou 26,3%, enquanto a ajuda humanitária sofreu uma redução de 35,8%. Esses cortes significam, na prática, menos vacinação, saneamento básico precário, ausência de proteção para refugiados e a interrupção de projetos de adaptação climática.

Ao analisar o fenômeno, o estudo traz reflexões profundas sobre a administração da vida e da morte, recorrendo aos conceitos de Michel Foucault e Sueli Carneiro. A decisão de retirar investimentos não é um ato neutro, mas uma escolha política que expõe populações vulneráveis a riscos extremos, criando um paradoxo ético: ao mesmo tempo que EUA e Europa endurecem suas políticas migratórias, retiram o financiamento que permitiria a sobrevivência dessas mesmas populações em seus locais de origem.

A pesquisa da PUC-Rio alerta ainda que a escassez de recursos públicos tem favorecido a entrada de interesses privados. Entretanto, o capital privado tende a priorizar apenas setores lucrativos, como tecnologia e energia, ignorando o combate à fome, que não oferece retorno financeiro imediato. Passados dez anos da aprovação da Agenda 2030, a promessa de erradicar a pobreza e enfrentar a crise climática permanece um horizonte cada vez mais distante.

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