FIM À FRAUDE
CPI das Moradias propõe limite de 1 imóvel por CPF
Relator Murillo Lima apresenta relatório final e defende controle rigoroso sobre vendas de HIS e HMP em São Paulo. Medida visa proteger o acesso à casa própria.
Nesta terça-feira, 19 de maio de 2026, o vereador Murillo Lima (PP), relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Moradias Sociais, apresentou seu relatório final na Câmara Municipal de São Paulo, defendendo uma medida crucial: limitar a compra de Habitações de Interesse Social (HIS) e Habitações de Mercado Popular (HMP) a apenas um imóvel por CPF. A proposta busca conter a crescente onda de fraudes e desvios de finalidade que transformam o "sonho da casa própria" de famílias de baixa renda em lucrativos ativos para investidores, distorcendo completamente o propósito social da política habitacional paulistana.
Em entrevista exclusiva, Murillo Lima criticou a permissão para investidores adquirirem moradias sociais, ressaltando: “Eu não concordo que um investidor possa comprar um imóvel de interesse social. É [sobre] o sonho da casa própria [que estamos falando], não o sonho do aluguel próprio”. A apresentação do documento na Câmara Municipal, nesta terça-feira, encerra oito meses de investigação sobre como a política habitacional da capital foi desvirtuada.
O Legado da CPI das Moradias
Durante seu funcionamento, a CPI das Moradias Sociais apurou a transformação de imóveis destinados a famílias com renda de até 10 salários mínimos em propriedades para aluguel de curta duração, muitas vezes anunciadas em plataformas como Airbnb e Booking. Essa prática é expressamente proibida pela Prefeitura de São Paulo.
A comissão realizou 29 sessões, aprovou 239 requerimentos e convocou 39 depoimentos, revelando casos que ilustram o desvio de finalidade. Entre as oitivas mais marcantes, destaca-se a do corretor de imóveis Gustavo Nery. Seus vídeos, apresentados pelo vereador Nabil Bonduki (PT), detalhavam estratégias para lucrar com apartamentos HIS através do aluguel de curta duração. O relatório final da CPI sugere o indiciamento de Nery e outras três pessoas pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP).
Depoimentos de bancos, incorporadoras e moradores de condomínios também foram fundamentais para elucidar os desvios. Para Murillo Lima, um dos grandes êxitos da CPI foi dar visibilidade a um problema até então desconhecido por muitos paulistanos, além de conseguir o comprometimento do Airbnb em remover anúncios irregulares da plataforma.
Críticas ao Encerramento Antecipado
O fim antecipado da comissão, três semanas antes do prazo previsto, gerou críticas, especialmente pela não oitiva de empresas como a Vitacon, sob grave suspeita de fraude, e a plataforma Booking. Contudo, Murillo Lima refuta a ideia de precipitação.
“Não acho que foi precipitado [o fim da CPI]. Seria precipitado termos encerrado no Carnaval. É quase um ano falando sobre o tema, não é pouca coisa. A gente não pode deixar [passar], por uma ausência de uma empresa, todo o trabalho que a CPI fez ao longo de 250 dias”, argumentou o relator. Ele reconheceu que a comissão aprovou um número excessivo de requerimentos, o que inviabilizou ouvir todas as partes.
Propostas para a Nova Política Habitacional
Como parte da base do prefeito Ricardo Nunes (MDB), Murillo Lima tem dialogado com o Executivo sobre as alterações legislativas necessárias. Uma das propostas-chave é a proibição de construtoras realizarem permutas, oferecendo unidades HIS e HMP em troca de terrenos. A CPI revelou casos de incorporadoras que entregaram até 20 apartamentos populares em uma única permuta.
O vereador defende que permutas, se ocorrerem, sejam com apartamentos padrão (R2V) ou outros tipos de imóveis, não com moradias sociais. Além disso, reitera a necessidade de limitar a venda de HIS e HMP a uma unidade por pessoa física e impedir que essas moradias estejam em nome de empresas. Lima concluiu que “não tem sentido” que investidores comprem esses imóveis, que devem ser destinados a quem realmente precisa.
Inicialmente, o relator planejava um projeto de lei, mas agora acredita que as mudanças por decreto seriam mais rápidas. A Câmara, contudo, deve discutir as alterações no próximo Plano Diretor.
Oposição Cobra Responsabilidade e Mais Tempo
A oposição, por sua vez, deve pressionar, nesta terça-feira, para que o relatório sugira mudanças na lei de forma imediata, garantindo maior segurança jurídica. Os vereadores Nabil Bonduki e Dheison Silva, ambos do PT, e Silvia Ferraro (PSol) elaboraram 15 propostas, incluindo a formalização das restrições a compras por empresas em lei.
Nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, os parlamentares receberam o relatório final de Murillo Lima para análise, mas criticaram o pouco tempo para debater o conteúdo. Em nota, o gabinete de Silvia Ferraro apontou falhas no relatório por não responsabilizar a Prefeitura de São Paulo.
“Durante os trabalhos da CPI, foram apresentados elementos que demonstram como a legislação foi sendo alterada desde 2018 para favorecer interesses do mercado imobiliário. Em 2023, novas mudanças ampliaram ainda mais os benefícios às construtoras e potencializaram os mecanismos de fraude. Apesar disso, o relatório concentra a responsabilidade apenas nas empresas privadas, ignorando o papel do Executivo e dos agentes públicos na formulação e flexibilização dessas regras”, diz a nota.
O Metrópoles teve acesso ao documento, que admite falhas na fiscalização da gestão, mas sem responsabilizar diretamente a prefeitura. “Verificou-se, em especial, que a ausência de controles eficazes sobre a destinação final das unidades, aliada à fragilidade dos mecanismos de fiscalização e à limitada integração de dados entre os órgãos municipais, favorece um cenário no qual benefícios públicos relevantes são apropriados pelo mercado imobiliário, enquanto a política habitacional deixa de cumprir plenamente sua função redistributiva e social. Tal distorção compromete a lógica de reciprocidade que fundamenta o regime jurídico da produção privada de habitação de interesse social”, detalha um trecho.
O relatório também menciona a “ausência de individualização precisa das unidades habitacionais”. A prefeitura prometeu uma lista dos imóveis HIS e HMP, mas a tabela enviada à comissão não continha números exatos dos apartamentos, dificultando a identificação em plataformas de aluguel.
Em declarações a jornalistas, Nabil Bonduki informou que a oposição defenderá o adiamento da votação do relatório para a próxima semana, visando um debate mais aprofundado e a incorporação de sugestões. “Precisamos concluir [os trabalhos] de maneira correta, sem ser atropelada”, afirmou Bonduki, visando um “relatório condizente com a importância da CPI”.
O vereador destacou que a oposição também sugerirá nomes adicionais para indiciamento pelo MPSP, com destaque para o presidente do conselho da Vitacon, Alexandre Frankel, que foi excluído da lista original.
Gostou desta notícia?
Entre no nosso grupo do WhatsApp!
Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!
📲 Quero entrar no grupo
Comentários (0)
Deixe seu comentário