CIÊNCIA BRASILEIRA AVANÇA

Copaíba-vermelha: Fapesp revela potente aliado contra a Covid

Folhas da copaíba-vermelha (Copaifera lucens) em seu habitat natural na Mata Atlântica, fonte de compostos que combatem o vírus da Covid-19.
Na imagem, folhas da copaíba vermelha, presente na Mata Atlântica, cujos compostos auxiliam no combate ao vírus da Covid-19 | Reprodução: Geovane Siqueira/iNaturalist

Estudo inédito com apoio da Fapesp aponta ação multialvo de planta da Mata Atlântica contra o SARS-CoV-2. Descoberta acende a esperança de novos tratamentos.

Um novo capítulo na luta contra a Covid-19 começou a ser escrito com a revelação, nesta sábado, 02 de maio de 2026, de que a biodiversidade brasileira guarda um poderoso segredo. Uma equipe internacional de cientistas, com o decisivo apoio da Fapesp (Fundação de amparo à pesquisa do Estado de São Paulo), anunciou que compostos extraídos das folhas da copaíba-vermelha (Copaifera lucens), árvore endêmica da Mata Atlântica, apresentam uma ação multialvo promissora contra o vírus SARS-CoV-2. A pesquisa, detalhada em um artigo publicado na Scientific Reports e divulgada pela Agência Fapesp em 28 de abril de 2026, oferece uma esperança renovada para o desenvolvimento de terapias inovadoras e reforça a importância vital da flora nacional na busca por soluções para desafios globais de saúde, impactando diretamente a dignidade e a qualidade de vida de milhões de pessoas.

A investigação minuciosa identificou que os chamados “ácidos galoilquínicos”, presentes nas folhas da copaíba-vermelha, agem de múltiplas formas para combater o vírus causador da Covid-19. Este mecanismo multialvo é crucial, pois dificulta o desenvolvimento de resistência viral, um desafio comum a muitos antivirais que atuam sobre apenas uma proteína do patógeno. O estudo completo está disponível no artigo “Bioactive galloylquinic acids from Copaifera lucens as dual inhibitors of SARS-CoV-2 Spike and RdRp proteins”.

Por que a copaíba-vermelha?

A escolha da espécie para esta pesquisa inovadora não foi aleatória. O farmacêutico Jairo Kenupp Bastos, professor da FCFRP-USP (Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo), é um renomado especialista em fitoquímica e farmacologia de espécies de Copaifera. Sua vasta experiência direcionou o foco para esta árvore, que já havia mostrado, em investigações anteriores, promissores benefícios biológicos e farmacológicos.

Os “ácidos galoilquínicos” extraídos das folhas da copaíba-vermelha já demonstraram atividades antifúngicas e anticancerígenas em testes in vitro e in vivo, além de exibirem um amplo espectro de propriedades antivirais. Notavelmente, derivados da substância revelaram uma significativa capacidade de inibição contra o HIV-1 em ensaios bioquímicos e em cultura de células, com menor toxicidade em comparação com outras moléculas testadas para o mesmo propósito.

Como a pesquisa avançou?

Para desvendar os segredos da copaíba-vermelha, os cientistas iniciaram o trabalho preparando e caracterizando frações ricas em ácidos galoilquínicos. Em seguida, conduziram ensaios de citotoxicidade, uma etapa essencial para assegurar que a substância não causaria danos às células hospedeiras.

A avaliação da atividade antiviral foi realizada utilizando ensaios de redução de placas, um método padrão para quantificar a eficácia de compostos antivirais. Os resultados confirmaram uma forte ação contra o SARS-CoV-2. A equipe também investigou as interações dos compostos com alvos virais-chave, como o domínio de ligação ao receptor da proteína Spike – fundamental para a entrada do vírus nas células humanas –, a protease tipo papaína (PLpro), que é vital para a evasão viral, e a RNA polimerase, uma enzima essencial para a replicação do patógeno.

Resultados que impulsionam a esperança

Os achados da pesquisa são robustos: os ácidos galoilquínicos inibiram eficazmente a entrada viral nas células, a replicação do SARS-CoV-2 e a expressão das proteínas virais. Além disso, as propriedades anti-inflamatórias e imunomoduladoras da substância podem desempenhar um papel crucial na regulação da resposta imune de indivíduos infectados, o que é de particular importância nos casos mais severos da doença. Isso significa um potencial alívio para os sintomas e uma recuperação mais branda para pacientes.

“Um aspecto importante é o mecanismo multialvo do composto, o que reduz a probabilidade de desenvolvimento de resistência. Isso porque muitos antivirais atuais agem apenas sobre uma proteína viral, o que favorece esse efeito”, explicou o professor Jairo Kenupp Bastos, ressaltando a inteligência da natureza em oferecer soluções complexas. Mohamed Abd El-Salam, professor da Delta University for Science and Technology (Egito) e da Universidade Pompeu Fabra (Espanha), cujo doutorado foi realizado na USP, complementou: “A abordagem integrada nos permitiu compreender não apenas como os compostos funcionam, mas também como atuam em nível molecular.”

A colaboração internacional foi um pilar do estudo, contando com a participação de Rasha El-Morsi, da mesma universidade, Lamiaa Al-Madboly, chefe do Departamento de Microbiologia da Faculdade de Farmácia da Universidade de Tanta (Egito), e cientistas da Universidade de Alexandria (Egito) e da República Tcheca.

Próximos passos e o valor da biodiversidade

Embora os resultados sejam extremamente promissores, o caminho até a transformação da substância em um medicamento eficaz contra a Covid-19 ainda requer etapas adicionais, incluindo ensaios in vivo e testes clínicos rigorosos. No entanto, os autores da pesquisa celebram a descoberta, que não apenas fortalece a importância da biodiversidade, mas também posiciona a pesquisa com produtos naturais como uma fonte vital para a identificação de candidatos terapêuticos inovadores. A flora brasileira, em particular, reafirma-se como um reservatório estratégico e inestimável para a descoberta de novos fármacos, capazes de mudar o panorama da saúde global.

Este texto, originalmente publicado pela Agência Fapesp em 28 de abril de 2026, foi adaptado para o padrão editorial de nosso portal, com a devida citação da fonte.

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