AVANÇO CONTRA CÂNCER
Comprimido experimental dobra sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas em estudo
Medicamento inovador atinge proteína RAS, um dos maiores desafios da oncologia, e oferece nova esperança para pacientes com doença avançada.
Um estudo clínico internacional, apresentado pela Revolution Medicines, revelou que um medicamento experimental chamado daraxonrasib demonstrou a capacidade inédita de atingir de forma eficaz a proteína RAS em pacientes com câncer pancreático avançado. A decisão de avançar com os testes em Fase 3 do ensaio clínico RASolute 302 foi motivada pela necessidade urgente de novas opções terapêuticas para uma doença historicamente difícil de tratar. Este avanço é crucial porque a proteína RAS, quando mutada, permanece permanentemente ativada em tumores, acelerando a multiplicação celular e sendo um dos maiores desafios da oncologia. O novo medicamento, administrado por via oral, representa um marco na luta contra o câncer de pâncreas, focando em melhorar a dignidade e a qualidade de vida dos pacientes. Os resultados do ensaio clínico de Fase 3, conduzido em pacientes com doença metastática que já não respondiam à quimioterapia convencional, foram apresentados nesta sábado, 23/05/2026. Pacientes que receberam o comprimido oral de daraxonrasib apresentaram uma sobrevida mediana de 13,2 meses. Em contraste, o grupo que seguiu com a quimioterapia intravenosa teve uma sobrevida média de 6,7 meses. Mais significativamente, o estudo registrou uma redução de 60% no risco de morte entre os pacientes tratados com o novo medicamento, uma notícia de imenso impacto para os pacientes e seus familiares. Stephen Stefani, oncologista da Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, ressaltou a importância do achado: “Um comprimido dobrou a sobrevida desses pacientes”. Essa declaração sublinha o potencial transformador da descoberta em uma doença que, historicamente, tem taxas de resposta terapêutica muito baixas. O câncer de pâncreas é um dos tumores mais agressivos, frequentemente diagnosticado em estágio avançado, com estimativas de 60 mil novos casos anualmente nos Estados Unidos e cerca de 13 mil no Brasil, resultando em dezenas de milhares de mortes a cada ano. O mecanismo de ação do daraxonrasib é um dos seus grandes diferenciais. Enquanto tentativas anteriores de bloquear a proteína RAS focavam em variantes específicas, como a G12C, o daraxonrasib é um inibidor pan-RAS. Isso significa que ele atua simultaneamente sobre múltiplas variantes da proteína, incluindo G12D, G12V e G12R, que são as mais prevalentes no câncer de pâncreas. Felipe Coimbra, líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo Cancer Center, enfatizou a relevância dos resultados obtidos em pacientes com doença avançada e já tratados com quimioterapia, considerando-os surpreendentes e superiores às terapias iniciais. Cerca de um terço dos participantes do estudo viu seus tumores diminuírem, e aproximadamente 80% experimentaram estabilização da doença ou resposta clínica positiva. Além da eficácia, a praticidade do tratamento oral, que permite ao paciente realizar o acompanhamento em casa, é um ponto a favor. Os efeitos colaterais mais comuns, como náusea e fadiga, são considerados manejáveis. Nos Estados Unidos, o medicamento aguarda aprovação definitiva da Food and Drug Administration (FDA), mas já recebeu o status de Breakthrough Therapy, indicando seu potencial promissor. A droga também foi classificada como medicamento órfão e incluída no programa National Priority Voucher para acelerar a análise regulatória. O FDA já permitiu o uso compassional em pacientes sem alternativas terapêuticas. Os resultados completos serão apresentados em junho no congresso anual da American Society of Clinical Oncology. No Brasil, o processo regulatório dependerá da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e, posteriormente, da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para cobertura pelos planos de saúde. O custo também é um fator a ser considerado, com drogas oncológicas inovadoras podendo chegar a R$ 50 mil mensais. É fundamental ressaltar que o daraxonrasib não é uma cura, mas sim uma ferramenta que dobra a sobrevida em pacientes com câncer de pâncreas metastático em segunda linha de tratamento. Ainda são necessários estudos para avaliar seu desempenho em estágios iniciais da doença.
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