AVANÇO REVOLUCIONÁRIO
Comprimido dobra sobrevida em câncer de pâncreas ao atingir o 'intratável' RAS
Nova terapia oral demonstrou reduzir o risco de morte em 60% em pacientes com doença avançada, superando a quimioterapia convencional e abrindo esperança em um dos tipos de câncer mais letais.
Uma nova esperança surge para pacientes com câncer de pâncreas: um comprimido revolucionário, o daraxonrasib, dobrou a sobrevida em testes clínicos, alcançando a proteína RAS, considerada por décadas um alvo 'intratável' devido à sua localização dentro das células e à falta de uma superfície clara para ação de medicamentos. A decisão de testar essa terapia inovadora em pacientes com a doença em estágio avançado, já submetidos à quimioterapia, foi tomada visando oferecer uma alternativa mais eficaz e com maior impacto na qualidade e tempo de vida. A importância reside no potencial de transformar o prognóstico de um câncer conhecido por sua agressividade e baixa taxa de sobrevida.
O câncer de pâncreas é particularmente insidioso, muitas vezes diagnosticado em fases avançadas, quando o tumor já se espalhou. A proteína RAS, quando mutada em mais de 90% dos casos, atua como um acelerador descontrolado que impulsiona o crescimento e a multiplicação das células tumorais. Por anos, os esforços para inibir essa proteína falharam, devido à sua natureza complexa e à dificuldade de acesso. O daraxonrasib, no entanto, representa um avanço ao inibir múltiplas variantes da RAS, incluindo as mais comuns no câncer de pâncreas (G12D, G12V, G12R), além de ser administrado por via oral, facilitando o tratamento em casa.
Em um ensaio clínico de Fase 3, o estudo RASolute 302 comparou o daraxonrasib com a quimioterapia padrão em cerca de 500 pacientes. Os resultados, anunciados em 13 de abril de 2026 pela Revolution Medicines, foram significativos: a sobrevida mediana para os pacientes que receberam o comprimido foi de 13,2 meses, contra 6,7 meses no grupo de quimioterapia. Isso se traduziu em uma redução de 60% no risco de morte. Cerca de um terço dos pacientes tratados com daraxonrasib apresentou redução do tumor, e 80% tiveram estabilidade ou resposta.
Stephen Stefani, oncologista, destacou o impacto da descoberta: 'Um comprimido dobrou a sobrevida desses pacientes. Em oncologia, isso é muito impactante — não só pelo ganho em sobrevida, mas pelo que significa abrir caminho para uma estratégia que nunca havia provado ser eficaz numa doença tão difícil de tratar.' Felipe Coimbra, do A.C.Camargo Cancer Center, ressaltou a surpresa positiva: 'Ter uma resposta superior à da primeira linha, numa segunda etapa de tratamento, foi realmente surpreendente.'
A Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) já concedeu ao daraxonrasib o status de Breakthrough Therapy, indicando seu potencial para melhorar substancialmente os tratamentos existentes, e também o status de medicamento órfão, além de tê-lo selecionado para o programa National Priority Voucher. O acesso compassional já foi autorizado em casos selecionados. Para o Brasil, o processo de aprovação pela Anvisa e a posterior incorporação pelos sistemas de saúde público e privado ainda demandarão tempo e superarão barreiras financeiras significativas, considerando o alto custo da nova terapia em comparação aos valores atuais de tratamento.
É crucial notar que o daraxonrasib não representa a cura definitiva para o câncer de pâncreas. As pesquisas futuras deverão explorar seu uso em combinação com outras terapias, em estágios mais iniciais da doença e em outros tipos de tumor com mutação RAS. Contudo, a conquista de superar o 'intratável' RAS representa um marco científico e um avanço promissor, oferecendo uma nova e potente opção terapêutica em uma batalha onde cada mês conta para a dignidade e a esperança do paciente.
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