PSICOLOGIA E AFETIVIDADE
Como a experiência de um pai ausente pode transformar a paternidade
A vivência com figuras paternas distantes pode ser o motor para criar vínculos mais profundos, segundo a psicanálise e a prática clínica.
O medo de não saber desempenhar o papel paterno é uma angústia frequente relatada por homens que cresceram sem uma referência próxima, rígida ou ausente. Esse sentimento de insegurança, que ecoa nos consultórios, levanta uma dúvida central sobre como guiar um filho sem ter tido um exemplo concreto durante a própria formação.
Para acolher essa questão, a psicanálise de Donald Winnicott oferece uma perspectiva libertadora. O autor defende que a paternidade saudável não exige perfeição, mas a figura de um pai "suficientemente bom". O conceito refere-se àquele que está presente e, embora cometa falhas, consegue sustentar um ambiente de segurança e afeto para o desenvolvimento infantil.
O cenário atual revela uma mudança significativa nas expectativas masculinas. O homem contemporâneo deseja transcender o papel de provedor financeiro, buscando ativamente a conexão emocional e a participação constante na vida dos filhos. Essa transformação na forma de exercer a paternidade é, muitas vezes, uma resposta direta à escassez emocional vivida no passado.
A cura através do vínculo
Ao decidir oferecer ao filho o acolhimento que não recebeu, o pai realiza um ato consciente de reparação. Esse processo permite que, ao cuidar da criança, ele revisite e elabore as marcas de sua própria infância. Trata-se de uma interrupção deliberada de ciclos de silêncio e distanciamento que, frequentemente, perduram por gerações.
A preocupação em errar não deve ser vista como um sinal de inaptidão. Pelo contrário, ela é o reflexo do interesse e do comprometimento com o desenvolvimento do filho. Ser pai hoje não demanda ter todas as respostas, mas sim estar presente, praticar a escuta ativa e oferecer o suporte emocional necessário para que a criança construa sua própria segurança.
Por Jaber Ali Younes, psicoterapeuta e mestre em Psicologia Clínica pelo IPUSP, Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
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