SAÚDE E TRABALHO

Abismo corporativo marca ausência de políticas para desconexão pós-expediente

Escritório com dispositivos tecnológicos conectados fora do horário comercial.
O desequilíbrio entre vida pessoal e profissional cresce à medida que a tecnologia remove as fronteiras do ambiente de trabalho.

Levantamento da ABQV revela que, embora empresários reconheçam a importância do descanso, a grande maioria ignora medidas práticas para proteger o tempo livre.

A falta de diretrizes claras para o descanso fora do horário laboral revela uma disparidade crítica entre a cultura das organizações e o bem-estar dos profissionais. A Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV) identificou, em levantamento recente, que 88,9% das empresas ainda não implementaram políticas formais que impeçam o envio ou resposta de mensagens após o expediente.

O estudo, que ouviu representantes de companhias que somam 300 mil colaboradores, aponta que 77,8% das organizações carecem de orientações sobre o direito à desconexão. Apesar dessa carência normativa, 77,8% dos empresários declaram reconhecer a importância de que a equipe se desligue das tarefas ao encerrar o turno, evidenciando uma falha na transição entre o discurso e a prática gerencial.

Para Ana Carolina Peuker, psicóloga e Diretora da ABQV, a desconexão transcende o bem-estar básico, integrando a gestão de riscos psicossociais. "Em um ambiente cada vez mais conectado, é vital estabelecer limites para preservar a recuperação física e emocional. A tecnologia deve apoiar a produtividade, e não ampliar continuamente a jornada", defende.

Os dados mostram um cenário de estagnação: apenas 22,2% das empresas adotam iniciativas de desconexão. Entre as que não possuem a prática, a maioria (55,6%) afirma não ter planos de implementá-las. A necessidade de transformação cultural é reforçada por Fátima Macedo, também Diretora da ABQV: "O próximo passo é consolidar esse entendimento em processos. Ambientes saudáveis respeitam os períodos de descanso".

O impacto dessas lacunas reflete diretamente na saúde mental dos times. A pesquisa revela que 64,4% das empresas analisadas não dispõem de programas voltados à prevenção de riscos psicossociais, deixando um vácuo de cuidado em uma era marcada pelo esgotamento profissional.

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