VITÓRIA DIPLOMÁTICA CHINA

China capitaliza tensões globais e emerge como potência diplomática em meio a conflito EUA-Irã

Líder chinês Xi Jinping e presidente dos EUA, Donald Trump, em visita ao Templo do Céu em Pequim.
O líder chinês Xi Jinping e o presidente dos EUA, Donald Trump, visitaram o Templo do Céu em Pequim nesta quinta-feira (14).

Enquanto EUA e Irã negociam acordo, Pequim consolida influência e critica o poder americano, fortalecendo sua imagem global.

Quando os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã tiveram início no final de fevereiro, os líderes da China vislumbraram a possibilidade real de mais um regime aliado ser desestabilizado, cenário que já havia se concretizado com a Venezuela poucas semanas antes.

Quase quatro meses depois, o panorama é distinto: após semanas de negociações de paz, os Estados Unidos e o Irã alcançaram um acordo provisório. O regime iraniano se mantém no poder, e o conflito parece ter evidenciado os limites da força americana. Contudo, a influência diplomática de Pequim cresceu, evidenciada pelas visitas de líderes estrangeiros e pela apresentação da China como defensora da paz, angariando elogios até do presidente dos EUA, Donald Trump, pela sua postura diante da guerra.

A segunda maior economia mundial também demonstrou maior resiliência diante da crise energética global desencadeada pelo conflito, superando muitas nações vizinhas. Esse desempenho se deve, em parte, às suas volumosas reservas estratégicas de petróleo e ao investimento em tecnologias verdes e veículos elétricos.

O Ministério das Relações Exteriores da China saudou a conclusão de um acordo entre Estados Unidos e Irã nesta semana. Um porta-voz declarou que Pequim está "pronta" para assumir um papel ativo na "restauração da paz e da tranquilidade" no Oriente Médio. Questionado sobre a participação de Pequim no acordo, o porta-voz, Lin Jian, não detalhou um papel específico, mas destacou os "esforços incansáveis" da China para encerrar o conflito, citando a proposta de paz em quatro pontos apresentada pelo líder Xi Jinping em abril.

Os elogios à postura chinesa não se limitaram a Pequim. "Quero agradecer à China, ao presidente Xi… ele permaneceu neutro, totalmente neutro, e agradeço por isso", afirmou Trump em uma coletiva de imprensa do G7 na França, na quarta-feira (17). O presidente americano ressaltou que o líder chinês não empregou seu poderio naval para contrariar o bloqueio dos EUA aos portos iranianos. "Eles não fizeram isso. O presidente Xi me ajudou. Ele tentou ajudar e acho que provavelmente ajudou a resolver o problema", acrescentou Trump.

Líder chinês Xi Jinping e presidente dos EUA, Donald Trump, em visita ao Templo do Céu em Pequim.
O líder chinês Xi Jinping e o presidente dos EUA, Donald Trump, visitaram o Templo do Céu em Pequim nesta quinta-feira (14). • China Pool/Getty Images

Durante o conflito, a China manteve uma linha diplomática prudente. Condenou os ataques americanos e israelenses ao Irã e seguiu comprando petróleo iraniano, desafiando sanções dos EUA. Paralelamente, manteve canais de comunicação abertos com ambas as partes.

Diversos líderes internacionais visitaram Pequim no decorrer do confronto, incluindo Trump no mês passado, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, dias antes, e autoridades do Paquistão, país que desempenhou um papel de mediador no conflito.

Ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, reunido com o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, em Pequim.
Ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, se reúne com o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, em Pequim 6 de maio de 2026 • Divulgação via REUTERS

No início das negociações, o Irã buscava o apoio chinês como fiador de um acordo de paz, mas Pequim demonstrou pouca inclinação para assumir um papel tão formal e potencialmente complexo. Na quarta-feira, o principal diplomata chinês, Wang Yi, dialogou com Araghchi por telefone, solicitando que a navegação no Estreito de Ormuz fosse "administrada adequadamente". "O alvorecer da paz emergiu. A chave para o próximo passo é que todas as partes implementem verdadeiramente os seus compromissos e eliminem a interferência de todos os lados", declarou Wang.

A extensão da influência diplomática de Pequim para facilitar o acordo, que envolve um memorando de entendimento seguido por um período de 60 dias para negociação dos termos finais, ainda não está clara. No entanto, para Pequim, essas visitas de líderes internacionais amplificaram a mensagem de que, enquanto outras nações se envolviam em conflitos, a China se posicionava como uma potência global responsável e um intermediário de poder.

Debatendo o "momento Suez" À medida que Estados Unidos e Irã avançam para a próxima fase de negociação, observadores analisam os ganhos dos EUA em um conflito com significativo impacto econômico global. Na China, onde a oposição a uma ordem mundial dominada pelos EUA é um pilar da política externa, pensadores debatem o efeito do conflito no papel dos EUA no cenário internacional. Alguns especialistas questionam se o confronto representa o chamado "momento Suez" para os EUA, remetendo à perda de controle britânico sobre o Canal de Suez na década de 1950, um marco do declínio internacional do Reino Unido e da ascensão americana.

"A cena que lançou uma sombra sobre o Império Britânico durante a crise de Suez está agora sendo repetida para os Estados Unidos no Estreito de Ormuz?", ponderou Sun Degang, diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade Fudan, em Xangai, em um artigo de opinião publicado no jornal estatal chinês Global Times. "Desde o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos tornaram-se a ‘única superpotência’ do mundo", observou Sun. Desta vez, porém, "o poder militar dos EUA não se revelou tão esmagadoramente poderoso como Washington imaginava", enquanto a ausência de aliados importantes no apoio à guerra sinaliza "crescentes sinais de divisão" no sistema de alianças liderado pelos EUA, concluiu.

Embora a questão também seja debatida no Ocidente, alguns na China expressam a opinião de que Pequim se beneficiou da guerra liderada por Washington. "A China não tem interesse em usar a ‘auréola de vencedor’ de uma guerra distante no Oriente Médio", escreveu o comentarista político Hu Xijin na plataforma Weibo. Contudo, o conflito influenciou a percepção mundial da China, demonstrando o sucesso de seu "planejamento estratégico" para lidar com choques energéticos e o apelo de seu "caminho de desenvolvimento" pacífico, segundo ele. A guerra também "diminuiu significativamente" o poder de dissuasão dos EUA em relação a Taiwan, ao expor limites nos arsenais de munições americanas e a incapacidade de formar uma coalizão ocidental, mesmo contra um inimigo isolado como o Irã, argumentou Hu. A China reivindica soberania sobre Taiwan e não descarta o uso da força para unificar a ilha. "Que influência têm os EUA para convencer os seus aliados na Europa a enfrentarem a China cara a cara pelos interesses americanos?", questionou Hu.

O ato de equilíbrio da China Como a China responderá ao que percebe como um enfraquecimento dos Estados Unidos permanece uma incógnita. Pequim há muito se apresenta como defensora de um "mundo multipolar" e provavelmente utilizará o conflito para promover a mudança que almeja: o fim do ambiente de segurança dominado pelos EUA e suas alianças. Ao longo da guerra, a China buscou gerenciar seus interesses com cautela, evitando destacar-se na resolução de conflitos ou tomar partido abertamente.

Embora apoie retoricamente seu parceiro de longa data, o Irã, a China tem sido moderada em suas críticas aos EUA pela deflagração do conflito e realizou diversas conversas com países do Golfo que foram alvo de retaliações de Teerã. Há também a percepção generalizada de que Pequim pressionou Teerã a negociar com Washington, mesmo com empresas chinesas supostamente apoiando a aquisição de armas pelo Irã – alegação que a China nega. O fato de Xi Jinping ter recebido Trump para um encontro amigável no mês passado, apesar dessas avaliações e com a China mantendo sua posição de maior compradora de petróleo iraniano, pode ser um indicativo da influência de Pequim e de seu meticuloso ato de equilíbrio.

Contudo, observadores na China apontam que um potencial "momento Suez" para os EUA não significaria que a China ocuparia automaticamente o topo da ordem mundial. Autoridades e analistas chineses têm afirmado há tempos que Pequim não aspira a ser uma superpotência nos moldes americanos. "Os EUA continuam a ser o ator externo mais poderoso no Oriente Médio. O que mudou é que o seu domínio exige agora custos políticos, militares, econômicos e de reputação muito maiores", afirmou Sun Chenghao, membro do Centro de Segurança e Estratégia Internacional da Universidade Tsinghua, em Pequim, à CNN. O conflito pode tornar a visão de mundo chinesa – que enfatiza soberania, não interferência, solução política e segurança orientada para o desenvolvimento – mais atraente para muitas nações, acrescentou. "Mas a credibilidade não é construída apenas através da crítica às ações dos EUA; depende também da capacidade da China de fornecer soluções diplomáticas práticas, proteger a estabilidade energética e ajudar a criar condições para a redução da tensão."

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