IA SOB CONTROLE
Chefe da ONU defende regulamentação global de IAs para proteger crianças
António Guterres pede regras para mitigar riscos, especialmente para o público infantil, em diálogo inédito da ONU. Regulamentação visa segurança e equidade no desenvolvimento da tecnologia.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, defendeu a criação de regras globais para a inteligência artificial (IA) com o objetivo de reduzir riscos potenciais, com foco especial na proteção das crianças. O alerta ocorreu durante o primeiro diálogo global de nível governamental sobre IA, realizado em Genebra pelas Nações Unidas, nesta segunda-feira, 06/07/2026. Guterres apontou que a tecnologia está se desenvolvendo em uma velocidade sem precedentes, superando a capacidade humana de acompanhamento e compreensão, o que exige mecanismos de salvaguarda para garantir que sua evolução seja governada.
"Uma tecnologia capaz de remodelar economias, transformar o mundo do trabalho, influenciar eleições e alterar o equilíbrio da segurança está sendo implementada mais rápido do que qualquer um, inclusive aqueles que a estão desenvolvendo, consegue acompanhar", declarou Guterres. Ele ressaltou a necessidade de "inovações com mecanismos de salvaguarda" e a importância de governar o poder da IA, especialmente diante de seus efeitos impactantes na sociedade.
O Diálogo Global da ONU sobre Governança da IA, um evento de dois dias, tem como propósito discutir a criação de regras para mitigar os danos e maximizar as oportunidades oferecidas pela IA. Os delegados analisarão um relatório elaborado por um painel científico independente de 40 especialistas, que apresenta a primeira avaliação científica global sobre a inteligência artificial. Uma segunda edição do evento está prevista para o próximo ano, em Nova York.
Proteção infantil como prioridade na regulamentação da IA
Durante o encontro, Guterres enfatizou que a harmonização de regras sobre IA deve priorizar a segurança das crianças. Ele citou exemplos alarmantes de menores sendo induzidos à automutilação e enganados por IAs que se passam por amigos. "Não permitimos que um medicamento chegue a uma criança sem garantir sua segurança. Testamos todos os brinquedos. No entanto, a IA chegou até nossas crianças, já afetando seu aprendizado, suas amizades e suas questões mais íntimas — antes mesmo que alguém se perguntasse quais seriam os impactos disso sobre elas", destacou o secretário-geral.
Para coibir esses riscos, ele defendeu um acordo de segurança infantil no uso de IA, exigindo que empresas desenvolvedoras comprovem a segurança de suas tecnologias antes de disponibilizá-las para o público infantil. O acordo também proibiria a geração de imagens sexuais de crianças pelos sistemas de IA e determinaria que, ao identificar sinais de sofrimento em uma criança, o sistema interrompesse a interação e a conectasse a um atendente humano.
Guterres observou que, apesar das oportunidades significativas da IA na saúde e outras áreas, as instituições globais ainda não estão preparadas para lidar com máquinas capazes de tomar decisões autônomas. Ele apontou que o ritmo acelerado de desenvolvimento da IA resulta em máquinas tomando cada vez mais decisões com pouca supervisão humana ou governamental. "A internet levou 15 anos para alcançar um bilhão de pessoas. A IA atingiu essa marca em dois anos", comparou.
Superando a disparidade e garantindo equidade no acesso à IA
O secretário-geral também alertou sobre a concentração dos sistemas de IA mais avançados em poucas empresas e países, o que marginaliza nações em desenvolvimento. Um relatório independente de especialistas científicos confirmou essa concentração: os EUA detêm 75% da capacidade computacional entre os 500 supercomputadores de IA mais potentes, enquanto a China possui 15%. Apesar de mais de um bilhão de pessoas utilizarem IA conversacional semanalmente, sua adoção nos países em desenvolvimento ainda é lenta.
Guterres afirmou que, se utilizada corretamente, a IA pode acelerar décadas de desenvolvimento em poucos anos, tornando-se um "grande equalizador do século XXI". Mohamed al-Menfi, chefe do Conselho Presidencial da Líbia, defendeu a superação da disparidade no uso de IA na África, que representa 10% da população mundial, mas detém menos de 2% dos centros de dados globais. "A IA não pode ser um recurso legítimo se os países africanos não puderem utilizá-la", declarou al-Menfi, apelando por maior participação africana na elaboração das normas.
Mikheil Kavelashvili, presidente da Geórgia, reforçou a responsabilidade compartilhada dos líderes mundiais em criar leis internacionais robustas para impedir que o poder da IA se converta em um "instrumento de controle totalitário e uma nova tirania digital".
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