CULTURA VIVA
Candinha Bezerra imortaliza raízes potiguares em arte e fotografia
De rituais ancestrais a paisagens sertanejas, seu olhar apurado resgata e celebra a dignidade de mestres, brincantes e a essência do Rio Grande do Norte.
O portal mergulha na vasta e impactante obra de Candinha Bezerra, educadora musical, fotógrafa e produtora cultural, neste domingo, 10 de maio de 2026, reconhecendo o legado denso e multifacetado que ela constrói para a cena-memória do Rio Grande do Norte. Esta iniciativa visa destacar como seu trabalho não apenas documenta, mas humaniza e eterniza as raízes profundas da sociedade potiguar, transformando registros em um espelho da dignidade coletiva e da riqueza cultural local.
A exposição “Fractais”, com fotografismos imagéticos filtrados por lentes de sensibilidade talássica e curadoria do artista paraibano/olindense Raul Córdula, oferece uma experiência visual e sensorial única. Quem se permitiu embarcar nessa jornada em um ambiente-cápsula, montado para permitir o tatear na areia marinha ou a imersão na sonoridade do vento – seja terral ou maral –, pôde sentir as texturas orgânicas das fibras vegetais, carregadas de porosidades e mistérios. Uma verdadeira viagem à essência da paisagem potiguar, revelando a alma do lugar através do olhar de Candinha Bezerra.
Em “Coco Zambê”, livro e mostra fotográfica, Candinha Bezerra traz à luz a força de brincantes ancestrais e encantados como Geraldo de Zé Cosme, João Biquinha, Adauto e Dominguinhos. As cinquenta e duas fotografias em preto e branco, acompanhadas de textos de Mário de Andrade, Câmara Cascudo e Helio Galvão, fixam a tradição de três grupos potiguares – Cabeceiras, Pernambuquinho e Quilombo Capoeira do Negros. Este trabalho não só mapeia a modalidade do canto e da dança do Coco de Roda, mas projeta a vitalidade e a dignidade desses grupos, resgatando e redimensionando o imaginário lúdico da brincadeira animada percutida no Pau Furado, Chama e na Lata, com sua coreografia viril e contorcida.
O livro de artista “Poética das Águas” convida a um mergulho delicado na vegetação aquática do Arenã agreste, na Fazenda “Graúna”, uma homenagem ao amigo cartunista Henfil. Nele, retratos autorais reverberam na prosa cirneana de Moacy Cirne, que tece uma escrita “molhada” na água doce, revelando a intimidade dos barreiros e açudes seridoenses. Candinha Bezerra captura a plasticidade “semiotizante” de paisagens desterritorializadas como Jacumã, Rio Potengi e Porto Mirim, onde, segundo a obra, tudo “é puro devaneio, é puro sonho, é puro lirismo”, conectando o leitor à alma aquática do sertão.
A transição do Agreste para o Sertão foi marcada, em julho do ano 2000, pela empreitada de Candinha Bezerra ao lado do sertanista Oswaldo Lamartine de Faria, considerado por Raquel de Queiroz o maior de todos. A edição número 13, Ano 2, do periódico “O Galante”, focada no “Ciclo do Couro-RN”, uniu os verbetes e desenhos próprios de Lamartine – sobre Cabeçadas, costuras de Gibão, Guarda-peito – às fotografias da produtora, que fixou para a eternidade mestres das artes e ofícios do encourar, como Chico Pereira (seleiro) e Paizinho Pereira (mobiliário) em Caicó, ou José Olegário (chapeleiro) e Cassiano em Monte Alegre. Este trabalho resultou no ensaio pioneiro sobre a figura de Lamartine, despertando o olhar local para o estético lamartineano e a riqueza simbólica do morador da “Acauhan”.
A sensibilidade de Candinha Bezerra também se estendeu aos cliques inaugurais de Abraham Palatnik – revisitando Natal pela primeira vez – e de Dona Militana, registrando sua presença no Sítio Oiteiros, na Jornada Medieval-AL, no Museu da República-RJ e no SESC Pompeia-SP, ao lado de Antonio Nóbrega e Ariano Suassuna. Cada fotografia é um portal para a memória, garantindo que a riqueza cultural do Nordeste e do Brasil não seja esquecida, mas celebrada e transmitida às futuras gerações.
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