ECONOMIA EM RISCO

Câmara debate fim da 6x1; Marinho vê "oportunismo eleitoral"

Rogério Marinho em foto do Senado, falando sobre os impactos do fim da escala 6x1 no Brasil.
O senador Rogério Marinho, líder da oposição no Senado, expressou preocupação com o impacto econômico da proposta que visa o fim da escala 6x1. (Foto: Waldemir Barreto/Senado)

Proposta pode elevar custos empresariais em R$ 267 bilhões e impactar 11 milhões de celetistas; votação até 27 de maio.

O fim da escala de trabalho 6x1, sem compensações adequadas e sem diferenciação setorial, pode desencadear um cenário devastador de demissões em massa, aumento de preços e o fechamento de incontáveis pequenos negócios no Brasil. Este alerta contundente partiu do senador Rogério Marinho, líder da oposição no Senado, que nesta segunda-feira, 11 de maio de 2026, criticou a proposta em debate na Câmara dos Deputados, classificando-a como “oportunismo eleitoral” do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em entrevista à rádio Jovem Pan News Natal, o parlamentar argumentou que a proposta é apresentada à população de forma simplificada, como se a única questão fosse o trabalhador “ganhar a mesma coisa e trabalhar menos”. Para Marinho, a discussão precisa incorporar os profundos efeitos econômicos da medida, especialmente para setores como comércio, serviços e para os pequenos empregadores, que são a espinha dorsal da economia brasileira e o sustento de milhões de famílias.

O senador reiterou o alto risco de pequenos mercados e comerciantes não conseguirem equilibrar suas finanças no final do mês, caso a mudança seja imposta sem um período de transição adequado ou sem a necessária redução de custos operacionais. Esta situação pode comprometer a dignidade e a autonomia de milhares de empreendedores.

O debate acontece em uma comissão especial na Câmara dos Deputados, criada para analisar propostas de redução da jornada e o fim da escala 6x1. O cronograma prevê discussões aprofundadas sobre os impactos econômicos, a produtividade, a saúde dos trabalhadores e os possíveis efeitos em cada setor, com a meta de votar o texto até 27 de maio.

A escala 6x1 é vital para atividades que exigem funcionamento contínuo ou atendimento nos fins de semana, englobando setores como comércio, supermercados, restaurantes, bares, hotéis, serviços de limpeza, segurança, saúde e parte da indústria. Este modelo prevê seis dias de trabalho e um de descanso, e as propostas em análise buscam ampliar o descanso semanal, mantendo o salário, o que gera grande apreensão sobre a viabilidade econômica.

Rogério Marinho indicou que o PL, seu partido, aguardará o texto final da comissão especial antes de consolidar uma posição oficial. Contudo, ele defendeu que qualquer alteração na legislação laboral deve considerar a vasta diversidade da economia brasileira, sob pena de gerar injustiças e desequilíbrios.

“Há uma simplificação do processo. O governo, no afã de ganhar popularidade, trata os desiguais de maneira igual. É impossível e é irracional nós encararmos a complexidade da nossa economia e afirmarmos, como o governo faz, que quem trabalha numa empresa de confecção tem a mesma característica de quem trabalha, por exemplo, numa empresa que presta serviços eventuais em shows, ou no comércio, ou como locutora de rádio, ou como analista político, ou como motorista de aplicativo. É evidente que são situações distintas”, enfatizou o senador, ressaltando a urgência de um olhar mais humano e adaptado à realidade.

Para sustentar sua crítica, o líder da oposição apresentou números alarmantes. De uma População Economicamente Ativa de cerca de 110 milhões de pessoas no Brasil, aproximadamente 40 milhões são trabalhadores com carteira assinada. Dentre estes celetistas, entre 10 milhões e 11 milhões, o equivalente a cerca de 25% desse grupo, estariam operando sob a escala 6x1. Uma mudança impensada pode impactar diretamente a vida desses milhões.

O parlamentar também afirmou que a jornada média do trabalhador celetista no Brasil já se encontra em 38,4 horas semanais, um patamar abaixo das 44 horas estabelecidas como limite constitucional. Ele atribui essa realidade à negociação coletiva, fortalecida pela reforma trabalhista de 2017, da qual foi relator enquanto deputado federal. Marinho defende que a jornada deve continuar sendo negociada diretamente entre empresas e trabalhadores, e não definida de forma uniforme por uma nova lei, que desconsidera as peculiaridades de cada setor.

A preocupação com o aumento dos custos é um temor compartilhado por diversas entidades empresariais. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a redução da jornada para 40 horas semanais poderia elevar o custo das empresas em até R$ 267 bilhões por ano. Apenas na indústria, o impacto alcançaria R$ 87,8 bilhões. A CNI alerta que micro e pequenas empresas seriam as mais vulneráveis, dada sua menor capacidade de absorver despesas adicionais, ameaçando sua sobrevivência.

Além disso, a CNI calcula que a redução da jornada geraria um impacto de até 7% na folha de pagamento das empresas. Em alguns setores, como indústria da construção, comércio e agropecuária, o efeito projetado seria ainda maior. O argumento central é que, sem um aumento de produtividade ou uma redução de encargos, o empregador seria forçado a contratar mais funcionários, pagar mais horas extras ou, invariavelmente, repassar os custos ao consumidor final, gerando inflação e corroendo o poder de compra.

Rogério Marinho defendeu enfaticamente este ponto. Para ele, se o Congresso Nacional optar por reduzir a jornada de trabalho, é imprescindível que se discuta, simultaneamente, a diminuição do custo de contratação e das obrigações sociais. “Se você vai diminuir a jornada, então diminua o custo de contratação”, afirmou. O senador também propôs uma maior flexibilidade por setores e uma distinção clara entre jornada e escala de trabalho, reconhecendo as especificidades de cada área.

Contudo, este debate carece de consenso. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) calcula que a redução da jornada para 40 horas semanais elevaria o custo médio do trabalho celetista em 7,84%. No entanto, ao ponderar esse aumento pelo peso da mão de obra no custo total de cada setor, o Ipea estima um efeito inferior a 1% no custo operacional de grandes setores geradores de emprego, como indústria e comércio, sugerindo um cenário menos drástico.

O Ipea também argumenta que a redução da jornada não conduz automaticamente a desemprego ou queda na produção. Segundo o estudo, as empresas podem reagir por meio de ganhos de produtividade, reorganização interna ou até mesmo pela contratação de novos trabalhadores. A análise recorda que outros choques de custo no mercado de trabalho brasileiro, como reajustes reais do salário mínimo, não resultaram em uma perda automática de empregos, oferecendo uma perspectiva mais otimista.

Para Rogério Marinho, porém, mudanças dessa magnitude não podem ser tratadas com a urgência e a superficialidade de um palanque político. Ele reiterou que, embora o tema possua grande apelo popular, pode gerar efeitos opostos aos desejados se for instrumentalizado apenas como bandeira eleitoral. “Nós temos hoje uma discussão rasa, emergencial, eleitoreira”, concluiu, apelando por responsabilidade e análise aprofundada em um tema que define o futuro de milhões.

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