MÃES SOLO BRASIL
Brasil: mães solo superam população de Portugal
Mais de 11 milhões de mulheres criam filhos sozinhas no País; enfrentam estigma e limites financeiros.
O Brasil agora tem mais de 11 milhões de mães que criam seus filhos sozinhas, uma marca que supera toda a população de Portugal e que foi revelada por recentes levantamentos do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) e Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), baseados em dados da Pnad Contínua de 2022 do IBGE. Esta realidade, que veio à tona em notícia publicada originalmente em 10 de maio de 2026, expõe o dia a dia de milhões de mulheres que enfrentam sobrecarga financeira, estigmatização social e a ausência de políticas públicas eficazes, afetando profundamente a dignidade e o futuro de suas famílias e do próprio País.
Acordar às 6h, preparar o café da manhã, arrumar a filha e caminhar por 5 quarteirões para deixá-la na escola antes de seguir para o trabalho. Ao final do expediente, por volta das 16h, retornar à escola para buscá-la e seguir para casa, onde a rotina inclui jantar e afazeres domésticos demandados por uma criança de 6 anos. Há 4 anos, essa é a rotina da faxineira Lucimara Dias Castro, 35 anos, moradora de São José do Rio Preto (SP).
Lucimara chegou a morar com o pai da menina, mas, com o fim do relacionamento, ficou com a guarda unilateral e assumiu os cuidados diários, a educação e o sustento financeiro de forma exclusiva.
“Quando me separei, o pai dela mudou de cidade e não tivemos mais contato. Como ele não liga para ela, tento ao máximo não deixar minha filha sentir essa ausência. Independentemente de como eu esteja, faço de tudo para que ela esteja bem e não falte nada”, afirma Lucimara, expressando a dedicação inabalável de uma mãe solo.
Mais de 11 milhões de mães sustentam lares sozinhas
Mulheres como Lucimara são a espinha dorsal de milhões de lares no Brasil. Dados do último levantamento do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) mostram que o País ultrapassou a marca de 11 milhões de mães que criam os filhos sozinhas. De 2012 a 2022, esse número cresceu em 1,7 milhão de novas mães solo.
Adicionalmente, a maior parcela (72,4%) dessas mulheres reside em domicílios monoparentais, compostos apenas por elas e os filhos. Isso significa que muitas não contam com o apoio de outros familiares, intensificando a sobrecarga diária.
Dados complementares apontam que 15% dos lares brasileiros são chefiados por mães solo, e a maioria delas é negra, revelando um recorte de desigualdade racial.
“Filho é responsabilidade 50% do pai e 50% da mãe. Quando um não faz, o outro automaticamente precisa fazer e fica sobrecarregado”, diz a especialista comercial Adriane Rodrigues, 45 anos, mãe de 2 meninos: Pedro, 19 anos, e Enzo, 5 anos.
Com filhos de idades diferentes, Adriane vivenciou 2 períodos como mãe solo. Primeiro, com o filho mais velho, após o divórcio. Posteriormente, com o filho mais novo, que cria sozinha desde os 10 meses de idade.
“Hoje o Pedro me ajuda com o irmão mais novo e também tenho minha mãe, com quem posso contar. Mas, por 2 vezes, precisei me reinventar. Costumo dizer que mãe solo não tem tempo para chorar; é preciso seguir, porque meus filhos dependem de mim”, afirma Adriane, simbolizando a resiliência dessas mulheres.
A sobrecarga da maternidade solo
O termo “solo” abrange a totalidade das responsabilidades que recaem exclusivamente sobre a mãe. No caso das mães solo, as obrigações são intensificadas pela ausência de divisão das tarefas, impactando diretamente sua qualidade de vida e bem-estar.
Iara Pereira de Andrade, 46 anos, considera essa sobrecarga a parte mais desafiadora. Ela mora com 2 das 3 filhas, de 16 e 11 anos, e sem o auxílio do pai das meninas, concilia trabalho, cuidados com a casa e a educação das filhas.
“Se fica doente, é você quem cuida, quem levanta à noite para medicar e leva ao médico. É você que acompanha os estudos. A maior dificuldade é essa carga de responsabilidade. Mesmo numa família padrão, a mãe acaba ficando com a carga maior, mas, quando você tem com quem dividir, não fica tão pesado. E dividir não é só acompanhamento, tem a parte financeira também”, explica Iara, detalhando a complexidade de sua rotina.
Limitações e o peso da pressão social
Além da responsabilidade financeira, as mães solo acumulam funções domésticas, o que limita drasticamente o tempo para lazer, descanso e qualificação profissional, perpetuando ciclos de vulnerabilidade.
A pressão social é, igualmente, um fardo pesado. Ser mãe solo ainda é alvo de estigmatização e preconceito, dificultando a plena inserção dessas mulheres na sociedade.
“Quando me separei, uma amiga contou que o marido não achava ‘legal’ ela continuar a amizade porque eu estava solteira. Parece que você fica com um carimbo. Infelizmente, a sociedade ainda traz esse pensamento machista”, afirma Iara, evidenciando o julgamento social.
Desafios no mercado de trabalho
“Com quem seus filhos vão ficar enquanto você trabalha?” A pergunta é frequente e invasiva para mulheres que buscam recolocação ou novos cargos. O peso aumenta exponencialmente para mães solo. Recrutadores costumam questionar quem cuidaria da criança em caso de doença, colocando a mãe em uma situação vexatória.
Iara diz enfrentar esse tipo de questionamento com frequência. Mesmo com formação e 15 anos de experiência como secretária executiva, relata que o currículo é frequentemente deixado de lado, e o tema dos filhos se torna o principal assunto nas entrevistas, desviando o foco de suas qualificações profissionais.
“Durante um processo seletivo, perguntaram quem levaria minha filha ao médico por eu ser divorciada. Fiquei impactada. Quero ser reconhecida pelo que sei fazer. Mas, quando você pensa que vai ter que escolher entre o trabalho e o filho, é uma questão delicada”, desabafa Iara, ilustrando o dilema diário.
Desigualdade de gênero, raça e renda persistem
A pesquisadora Mariene Ramos aprofundou-se no mercado de trabalho das mães solo no Brasil em sua dissertação de mestrado no Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Ela afirma que essas mulheres enfrentam múltiplas desigualdades: de gênero, raça e renda, o que as coloca em posição de maior vulnerabilidade.
O estudo, baseado na Pnad Contínua de 2022 do IBGE, revelou que mães solo possuem o menor rendimento médio entre os arranjos familiares: R$ 2.322. Este valor é cerca de 40% menor do que o de pais com cônjuge (R$ 3.869) e 11,5% inferior ao das mães que vivem com parceiros (R$ 2.625).
Adicionalmente, 21,9% das mães solo trabalham como empregadas domésticas, uma proporção significativamente superior à de mães com cônjuge (11,8%) e quase 27 vezes maior do que a de pais acompanhados (0,8%).
A pesquisa também apontou que 60% das mães que cuidam sozinhas dos lares são negras, e quase 15% das famílias brasileiras são lideradas por mães solo, com maior concentração nas Regiões Norte e Nordeste do País.
“Historicamente, a profissão de doméstica é desvalorizada. Grande parte dessas mulheres vive em situação de vulnerabilidade e precisamos quebrar esse ciclo”, pontua a pesquisadora, clamando por mudanças estruturais.
A falta de políticas específicas agrava ainda mais a situação. Mariene destaca que a ausência de creches acessíveis e de programas de transferência de renda adequados limita a autonomia dessas mulheres, impedindo seu desenvolvimento pleno e o de seus filhos.
“São mais de 11 milhões de mães solo no Brasil; o número supera a população de Portugal [10,8 milhões]. O Brasil é um país de mães solo e precisamos olhar para elas, valorizando e apoiando seu papel fundamental”, afirma Mariene, reforçando a urgência da questão.
Para a pesquisadora, a implementação de projetos de qualificação profissional e a oferta de escolas em tempo integral são medidas cruciais para transformar essa realidade.
“Assim, elas poderão melhorar a própria vida e dar mais qualidade de vida aos filhos, construindo um futuro mais digno para todos”, conclui Mariene Ramos, vislumbrando um cenário de esperança e oportunidade.
Este texto foi publicado originalmente pela Deutsche Welle em 10 de maio de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.
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