CRIME ORGANIZADO

Banqueiro Daniel Vorcaro ordenou ataque a Lauro Jardim, diz PF

'Preciso hackear esse Lauro': troca de mensagens revela tentativa de ataque a jornalista
'Preciso hackear esse Lauro': troca de mensagens revela tentativa de ataque a jornalista

Investigação da Polícia Federal detalha planos de hackers e capangas e revela esquema bilionário.

A Polícia Federal (PF) revelou nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, mensagens que apontam uma grave tentativa de ataque físico e digital contra o jornalista Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo. As conversas, que integram a investigação sobre um grupo de espionagem e intimidação supostamente ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro, são cruciais para compreender uma rede de crimes que atentava contra a liberdade de imprensa e a segurança de profissionais. A perseguição ao jornalista foi um dos elementos que motivaram a decretação da prisão preventiva de Vorcaro em março de 2026, destacando o impacto direto dessas ações na dignidade humana e na estrutura democrática.

As mensagens obtidas pela Polícia Federal detalham ameaças e um suposto plano de ataque. Em uma troca de textos atribuída a Vorcaro e a Felipe Mourão, conhecido como “Sicário”, o banqueiro teria expressado a intenção de agredir o jornalista: “Quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”. “Sicário” respondeu: “Pode? Vou olhar isso”, ao que Vorcaro replicou: “Sim”.

Além da agressão física, a perseguição incluiu tentativas de ataque digital. Em outra conversa, Vorcaro afirmou: “Preciso hackear esse Lauro”. “Sicário”, segundo a PF, garantiu: “Vou mandar fazer isso. Já pedi aos meninos para fazer isso”. As mensagens também indicam que houve um plano para marcar uma reunião com Lauro Jardim, com “Sicário” se passando por repórter, para enviar um link malicioso, mas essa tentativa não prosseguiu.

A Investigação e o Grupo "Os Meninos"

As conversas fazem parte de um inquérito maior que investiga “Os Meninos”, um núcleo de hackers acusado de ataques cibernéticos, obtenção clandestina de dados e intimidação de adversários. Felipe Mourão, o “Sicário”, foi preso em março de 2026 e, de acordo com a Polícia, faleceu após cometer suicídio.

A investigação da Polícia Federal acusa Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, de liderar uma organização criminosa estruturada. O grupo seria dividido entre um núcleo de hackers e um grupo de capangas, atuando em ataques cibernéticos, monitoramento ilegal e intimidações armadas contra adversários. Vorcaro permanece preso em Brasília, acusado de chefiar um esquema bilionário de fraudes financeiras que pode atingir R$ 12 bilhões, envolvendo inteligência artificial, falsificação de documentos públicos e a participação de policiais e bicheiros.

A estrutura do grupo, também conhecido como "A Turma" nas operações físicas, foi detalhada em relatórios da PF que embasaram os mandados de prisão preventiva, expedidos pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Detalhes da Operação Criminosa

Um dos membros do núcleo tecnológico, o hacker Victor Lima Sedlmaier, foi detido em Dubai, em uma ação conjunta entre as polícias local, do Brasil e a Interpol, após uma breve estadia nos Emirados Árabes Unidos. Em depoimento no Aeroporto de Guarulhos, Sedlmaier afirmou que desenvolvia softwares e prestava serviços de tecnologia para o grupo desde 2024, recebendo R$ 2 mil mensais, além de bônus. A PF suspeita que ele também recebia pagamentos por meio de duas drogarias, das quais possuía 1% de participação.

Segundo a investigação, as ordens para o núcleo hacker vinham de David Henrique Alves, de 23 anos, apontado como chefe do setor com um salário de R$ 35 mil mensais. Alves foi abordado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em uma estrada de Minas Gerais no dia 4 de março de 2026, data da prisão de Daniel Vorcaro, com um computador de mesa e três notebooks. O veículo era de Felipe Mourão, o “Sicário”. Alves, que não tinha mandado de prisão na época, está foragido desde 14 de março de 2026.

Falsificação de documento público

A PF identificou, ainda, a falsificação de um ofício do Ministério Público do Ceará (MP-CE) para remover um perfil falso em nome da então noiva de Daniel Vorcaro. Hackers forjaram o documento com a assinatura de Nayara Maria, servidora do MP-CE, em vez da assinatura digital da promotora de Justiça, e o enviaram pelo e-mail institucional da funcionária. A investigação não concluiu se Nayara Maria teve participação na fraude. A plataforma digital, sem detectar a falsidade, excluiu o perfil no dia seguinte.

Operações físicas e intimidações

O pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, é apontado como financiador e operador do braço físico da estrutura, responsável por gerenciar pagamentos para coagir adversários. Luis Felipe Woyceichoski, ex-capitão do iate de Vorcaro, relatou ter sido abordado por sete homens em uma marina em Angra dos Reis (RJ) enquanto viajava. Posteriormente, um homem identificado como "Manoel" — a PF o identificou como o bicheiro Manoel Mendes Rodrigues — ligou para o capitão fazendo ameaças. O motivo seriam vídeos gravados no barco que indicavam irregularidades.

Leandro Garcia, ex-chef da casa de Vorcaro em Angra dos Reis, depôs que dois homens o abordaram em um hotel. Um deles se apresentou como Manoel ou Emanuel e disse estar ali a mando de Daniel Vorcaro, apontando para outros seis ou sete homens sentados à distância. Garcia reconheceu, mais tarde pelo noticiário, o homem silencioso como Felipe Mourão, o "Sicário", e identificou oficialmente Manoel Mendes Rodrigues por foto.

O que dizem os citados

A defesa de Victor Lima Sedlmaier informou que as acusações serão esclarecidas durante o processo e que ainda não teve acesso integral aos elementos da investigação. Os advogados solicitaram a transferência do preso para Minas Gerais.

A defesa de Henrique Vorcaro declarou que ele nunca atuou como operador ou controlador de grupos envolvidos em ilicitudes. Afirmou que a Polícia Federal omitiu diálogos e contratos sobre empreendimentos imobiliários no Rio de Janeiro e que os pagamentos citados referem-se a serviços legítimos de negociação e vigilância de terrenos. A nota da defesa acrescenta que o ministro relator do caso foi induzido ao erro pela omissão de tais documentos.

A defesa de Daniel Vorcaro comunicou que não se manifestará sobre os temas abordados.

O portal não conseguiu contato com Nayara Maria, servidora do MP-CE.

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