GUERRA DE MARCAS
Anvisa suspende Ypê e inflama polarização no País
Medida técnica por risco sanitário vira palco de debate ideológico. Campanha bolsonarista defende marca.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) suspendeu a comercialização de determinados lotes de produtos da Ypê, uma medida técnica tomada por risco sanitário que rapidamente se transformou em um novo capítulo da polarização política no País. A controvérsia, que ganhou força no último fim de semana, viu políticos e influenciadores conservadores acusarem a agência de agir por motivação ideológica, sem apresentar provas, lançando luz sobre a crescente instrumentalização de decisões regulatórias e o impacto na confiança pública nas instituições, nesta terça-feira, 12 de maio de 2026.
A decisão da Anvisa, respaldada pelo Centro de Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo — órgão subordinado à gestão do governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos, que é adversário do PT —, desencadeou uma onda de apoio à Ypê por parte de setores bolsonaristas. Este movimento se intensificou no fim de semana de 9 e 10 de maio de 2026, quando o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) anunciou uma parceria com a marca de chinelos Pé Direito, apresentada como uma alternativa “conservadora” às Havaianas. Em seu vídeo, o parlamentar atrelou o consumo a uma forma de militância política, afirmando: “Hoje, uma das formas mais poderosas de defender aquilo que acreditamos é escolher de quem a gente compra. Porque cada real que você gasta, ou fortalece os seus valores, ou financia quem quer te destruir.”
A defesa da Ypê pelos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro ganhou ainda mais nuances quando dados do Tribunal Superior Eleitoral revelaram que membros da família Beira, controladora da empresa, doaram um milhão de reais à campanha de reeleição de Bolsonaro em 2022. Entre os doadores está Jorge Eduardo Beira, vice-presidente de operações da companhia. Somado a isso, em 2024, a Química Amparo, responsável pela Ypê, foi condenada pela Justiça do Trabalho por assédio eleitoral, após uma live que visava influenciar o voto de funcionários em favor de Bolsonaro.
A reação bolsonarista tomou as redes sociais, com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro compartilhando uma foto com um detergente da marca, acompanhada da frase "Que dia lindo". O senador Cleitinho (Republicanos-MG) questionou a Anvisa: “Quero fazer um desafio para a Anvisa ir na casa de cada brasileiro e fiscalizar as buchas, isso é importante também. Essa empresa, a Ypê, doou para a campanha do Bolsonaro. É só coincidência?”. O empresário Luciano Hang, dono da Havan, também se solidarizou, dizendo em vídeo: “O que eu mais entendo é de perseguição. Não tem um cara mais perseguido que o ‘Véio da Havan’. Cuidado, as eleições estão chegando, e quem está do lado certo vai ser perseguido”, enquanto lavava louça com o produto Ypê.
Nos últimos anos, a esfera corporativa tem sido constantemente arrastada para o debate político, transformando marcas em símbolos ideológicos. Em dezembro de 2025, um comercial das Havaianas com Fernanda Torres gerou críticas de bolsonaristas ao fazer referência à expressão “pé direito”. Em 2024, a Avon enfrentou ataques após rumores de que teria encerrado parceria com Jojo Todynho, por divergências ideológicas – rumores que foram posteriormente negados. No ano anterior, uma campanha da Bis com Felipe Neto desencadeou a hashtag #BisNuncaMais, impulsionada por parlamentares conservadores.
Contudo, a polarização não se restringe a um único espectro político. No início do governo Bolsonaro, empresas como Riachuelo, Centauro e Smart Fit também enfrentaram campanhas de boicote promovidas por setores da esquerda. Outras marcas, como a Havan e os restaurantes Coco Bambu e Madero, passaram a ser associadas ao bolsonarismo devido ao posicionamento público de seus proprietários, especialmente durante os debates sobre isolamento social na pandemia, reforçando a fragilidade das empresas frente ao cenário de ideologização do consumo.
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