ESCÂNDALO IMOBILIÁRIO

Alvo da PF, empresa ligada a Ciro Nogueira aluga sede de delegacia de crimes econômicos no Piauí

Prédio espelhado de três andares que abriga a Delegacia Especializada Contra Crime de Ordem Tributária Econômica do Piauí, de propriedade da CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda.
Sede da Delegacia Especializada Contra Crime de Ordem Tributária Econômica do Piauí, em Teresina

Ministro André Mendonça, do STF, suspende atividades econômicas de companhia que recebeu R$ 581 mil do governo do Piauí no último ano. Contrato de aluguel para a delegacia existe desde 2016 e foi assinado pela mãe de Ciro Nogueira em anos posteriores.

A Polícia Federal (PF) apontou a CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda. como intermediária de “vantagens econômicas indevidas” pagas por Daniel Vorcaro ao senador Ciro Nogueira (PI), motivando uma decisão do ministro André Mendonça, do STF, que suspendeu as atividades econômicas e financeiras da empresa nesta quinta-feira, 07/05/2026. A gravidade do caso se intensifica ao revelar que a CNLF é proprietária do imóvel que abriga a Delegacia Especializada Contra Crime de Ordem Tributária Econômica do Piauí, criando um conflito de interesse que fragiliza a confiança nas instituições e a eficácia da fiscalização contra fraudes.

A determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, interrompe as operações da CNLF. Contudo, a empresa mantém um contrato ativo com o governo do Estado do Piauí, pelo qual recebeu R$ 581 mil no ano passado, levantando questionamentos sobre a continuidade de pagamentos a uma empresa sob investigação.

Em sua representação, a PF descreveu a CNLF como o “veículo patrimonial central do núcleo vinculado a Ciro Nogueira”, operando, em tese, como um instrumento para “recepção, circulação e formalização aparente de recursos destinados ao senador”, com o intuito de dissimular sua origem e destino.

A investigação da PF detalha que a CNLF desembolsou R$ 1 milhão para adquirir uma participação societária estimada em aproximadamente R$ 13 milhões na Green Investimentos S.A. Esta, por sua vez, detém participação na Trinity, uma empresa de energias renováveis.

A representação ainda indica que a empresa ligada a Ciro Nogueira obteve uma “vantagem negocial” de R$ 12 milhões. Esse benefício, segundo a PF, foi consolidado por uma ordem específica de Daniel Vorcaro ao seu primo Felipe – que foi detido pela Polícia Federal também nesta quinta-feira – garantindo que a participação acionária permitisse o recebimento de dividendos “sem que a operação ingressasse no radar de eventuais mecanismos de fiscalização”.

Curiosamente, no Piauí, essa fiscalização sobre crimes tributários e econômicos ocorre em um prédio que pertence à própria CNLF. Desde 2016, a empresa aluga este imóvel de três andares ao governo do Piauí, sem a necessidade de licitação, na rua Sen. Joaquim Píres, bairro Ininga, em Teresina.

O contrato inicial, na modalidade de dispensa de licitação, foi assinado pelo então secretário de Fazenda do Piauí, Rafael Fonteles (PT), atualmente governador. Na época, o valor do aluguel anual era de R$ 360 mil, sendo renovado anualmente desde então.

Nos anos de 2019, 2020 e 2021, quem firmou o aditivo contratual em nome da CNLF foi Eliane Nogueira (PP), mãe de Ciro. Ela posteriormente assumiu a vaga do filho no Senado, enquanto ele exercia o cargo de ministro da Casa Civil no Governo Jair Bolsonaro (PL).

Em nota divulgada sobre a operação deflagrada nesta quinta-feira, o senador Ciro Nogueira manifestou repúdio a “qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”. A nota reforça o “comprometimento do Senador em contribuir com a Justiça, a fim de esclarecer que não teve qualquer participação em atividades ilícitas e nos fatos investigados, colocando-se à disposição para esclarecimentos”.

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