SAÚDE CRÍTICA

Alexandre Motta revela colapso na Saúde do RN

Alexandre Motta, Secretário de Saúde do RN, falando em entrevista.
Alexandre Motta, Secretário Estadual de Saúde do Rio Grande do Norte.

Secretário Estadual de Saúde detalha falhas estruturais, superlotação e falta de profissionais que afetam milhares de potiguares. Elevadores quebrados e unidades sem leitos marcam a crise que se estende por todo o Rio Grande do Norte.

O Secretário Estadual de Saúde do Rio Grande do Norte, Alexandre Motta, reconheceu publicamente nesta segunda-feira, 11 de maio de 2026, as graves deficiências que comprometem a rede pública de saúde do Estado. Em entrevista ao Jornal da Cidade, Motta detalhou a existência de problemas estruturais críticos, um déficit alarmante de profissionais e a superlotação crônica em hospitais. Essa admissão, que revela falhas sistêmicas no Hospital Walfredo Gurgel, no Hospital Regional de João Câmara e na própria organização da assistência regional, expõe o cenário desafiador que impacta diretamente a dignidade e o acesso a serviços essenciais para milhares de cidadãos potiguares.

O epicentro da discussão foi a crise dos elevadores do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, a maior unidade pública do Estado. Motta explicou que o complexo, que integra o hospital antigo e o Pronto-Socorro Clóvis Sarinho — onde funcionam o centro cirúrgico e o atendimento de urgência —, opera com equipamentos de transporte antigos e sob forte sobrecarga. Um dos elevadores já apresentava falhas constantes e outro parou de funcionar na semana passada. A peça para o reparo, inexistente no Brasil, precisou de adaptação técnica, gerando um atraso significativo.

A falha mecânica desencadeou um impacto dramático na logística interna do hospital, forçando a equipe a deslocar pacientes pelas escadas, uma situação que feriu a dignidade e a segurança de quem já se encontra em condição vulnerável. Para mitigar a pressão sobre a unidade, a Secretaria Estadual de Saúde reorganizou o fluxo de atendimentos: casos de trauma abdominal foram direcionados ao Hospital Santa Catarina, e pacientes com fraturas expostas de membros inferiores seguiram para o Hospital Regional Deoclécio Marques, garantindo o mínimo de assistência em meio ao caos.

Alexandre Motta admitiu que o Walfredo Gurgel opera acima de sua capacidade há anos. Embora a unidade possua 300 leitos, frequentemente chega a internar cerca de 400 pacientes, evidenciando uma realidade de superlotação que compromete a qualidade do tratamento. O secretário esclareceu que o hospital, originalmente voltado para traumas, acaba recebendo também pacientes clínicos com condições como pé diabético e sepse, que deveriam ser encaminhados a outras unidades, mas permanecem no Walfredo por falta de alternativas na rede.

Para buscar soluções, a Secretaria avalia a ampliação dos leitos de retaguarda, essenciais para pacientes que deixaram a urgência, mas ainda necessitam de internação. Outra medida em estudo é a construção de uma rampa alternativa, visando reduzir a dependência dos elevadores em futuras emergências. Além disso, uma licitação para a aquisição de um novo equipamento está em andamento, embora a entrega de um elevador hospitalar possa demorar cerca de seis meses, conforme o próprio secretário informou.

A entrevista também abordou a precariedade dos tomógrafos da rede estadual. Motta informou que um equipamento alugado está em operação e que um novo aparelho será enviado por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), iniciativa do Governo Federal.

O secretário defendeu, ainda, a construção do Hospital Metropolitano do Rio Grande do Norte, um projeto com previsão de cerca de 350 leitos e investimento estimado em R$ 200 milhões. A nova unidade visa concentrar atendimentos de alta complexidade, prometendo aliviar a carga sobre os hospitais existentes e melhorar o acesso a tratamentos especializados.

Durante a conversa, Alexandre Motta reconheceu problemas graves também no Hospital Regional de João Câmara. A unidade, localizada no Mato Grande, enfrenta deficiências estruturais e um déficit crítico de profissionais, especialmente na área obstétrica. Essa situação força gestantes da região a se deslocarem para municípios como Macaíba e Ceará-Mirim para realizar partos, submetendo-as a riscos desnecessários e atrasando o acesso a um atendimento seguro. Pelas regras da Rede Alyne, do Ministério da Saúde, uma maternidade exige obstetra e pediatra disponíveis 24 horas por dia para funcionar regularmente, algo que João Câmara não consegue cumprir.

Alexandre Motta também admitiu que a maior dificuldade da rede estadual reside atualmente na falta de pessoal. A Secretaria busca autorização junto ao Tribunal de Contas do Estado para convocar novos aprovados em concurso público, numa tentativa de preencher vagas cruciais e fortalecer as equipes de saúde.

Apesar de um cenário desafiador, o secretário apontou avanços em algumas regiões, citando melhorias em hospitais de cidades como Pau dos Ferros, Assú, Mossoró, Currais Novos e Caicó. Contudo, ele reiterou que a terceira região de saúde do Estado, englobando João Câmara e o Mato Grande, permanece como o principal "patinho feio" e ponto mais frágil da rede pública potiguar.

Ao final da entrevista, Alexandre Motta ressaltou que a crise da saúde pública no Rio Grande do Norte transcende problemas pontuais, como elevadores quebrados ou a falta de equipamentos, configurando-se como um desafio estrutural complexo, resultado de dificuldades acumuladas ao longo dos anos na rede hospitalar estadual.

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