VERBAS PÚBLICAS QUESTIONADAS
Alesp destina R$ 703 mil a filme sobre Bolsonaro: PL e PT envolvidos
Deputados paulistas de PL e PT canalizam emendas para produtora de "Dark Horse", gerando debate sobre transparência. Um recurso ainda não foi liberado.
Deputados estaduais da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) direcionaram um montante de R$ 703 mil em emendas parlamentares para empresas e entidades conectadas à produtora do filme “Dark Horse”, obra sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A destinação desses recursos, confirmada nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, levanta sérios questionamentos sobre a transparência e os critérios na alocação de verbas públicas para projetos com vínculos políticos.
Ao todo, quatro parlamentares, sendo três do PL (Valeria Bolsonaro, Gil Diniz e Lucas Bove) e um do PT (Luiz Fernando), indicaram os valores para iniciativas de cultura e esporte que beneficiaram diretamente um instituto e uma empresa ligados à empresária Carina Gama, sócia da produtora Go Up, responsável pela produção cinematográfica.
- A deputada estadual Valeria Bolsonaro (PL), sem parentesco com o ex-presidente, destinou R$ 100 mil em dezembro de 2023. O valor foi integralmente pago a um instituto presidido por Carina Gama, evidenciando a efetivação da verba;
- Gil Diniz (PL) direcionou R$ 200 mil para o ano de 2025 a uma empresa também ligada à empresária. A execução desse recurso ainda se desdobrará, mas sua indicação já está formalizada;
- Já o deputado Lucas Bove (PL) indicou uma emenda de R$ 213 mil para este ano, 2026. Contudo, o montante não foi liberado devido a entraves burocráticos no processo de destinação, aguardando regularização;
- O parlamentar Luiz Fernando (PT) destinou R$ 190 mil em emenda parlamentar também para este ano, 2026. Embora um grupo de teatro tenha indicado o instituto presidido por Carina Gama para receber os recursos, o valor ainda não foi empenhado, pois a emenda pertence ao orçamento de 2026, e seu trâmite segue em andamento.
Polêmicas em torno do filme
O financiamento do filme “Dark Horse” já foi marcado por intensas controvérsias. O banqueiro Daniel Vorcaro, por exemplo, ajudou a financiar o projeto, e as negociações envolviam contatos diretos com o filho mais velho do ex-presidente, o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que teria solicitado dinheiro e exercido pressão pelos pagamentos. Vorcaro chegou a efetuar pagamentos que totalizaram R$ 61 milhões.
Atualmente, Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, está preso em Brasília, acusado de chefiar um esquema bilionário de fraudes financeiras que podem atingir a cifra de R$ 12 bilhões, conforme apurações da PF.
Essas informações foram reveladas em 13 de maio de 2026 pelo portal Intercept Brasil, que teve acesso a mensagens trocadas entre os envolvidos e a um áudio enviado por Flávio Bolsonaro ao banqueiro em setembro do ano passado. A TV Globo confirmou, junto a investigadores e fontes com acesso privilegiado, o conteúdo da reportagem e a autenticidade do áudio.
Nos dias subsequentes à publicação da reportagem, o cenário foi de inconsistências e contradições nas declarações de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), do deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-RJ) e do produtor executivo do filme biográfico, Mário Frias. As divergências envolveram principalmente a relação com o banqueiro e a gestão financeira da produção.
Flávio Bolsonaro, inicialmente, tentou associar o escândalo do Banco Master ao governo Lula e ao PT, chegando a negar qualquer contato com Vorcaro. Após a divulgação das mensagens, ele admitiu que havia mentido sobre a relação com o banqueiro, alegando a existência de uma cláusula de confidencialidade no contrato de financiamento.
Eduardo Bolsonaro também apresentou versões conflitantes sobre sua participação no projeto. A princípio, afirmou ter apenas apresentado um advogado responsável pela estrutura financeira do filme. Contudo, na sexta-feira, 15 de maio de 2026, o Intercept revelou um contrato no qual ele figura formalmente como produtor-executivo, encarregado também da captação de recursos. Diante da evidência, o deputado admitiu ter assinado o documento.
Mário Frias, por sua vez, contradisse Flávio Bolsonaro ao afirmar que não havia “um único centavo” de Daniel Vorcaro no filme. No entanto, recuou no dia seguinte, declarando que o relacionamento jurídico do projeto era com a Entre Investimentos e Participações, que atuava em parceria com empresas de Vorcaro, e não diretamente com o banqueiro.
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