VIDA SOB DUAS RODAS
A rotina exaustiva de quem dedica até 18 horas diárias a entregas no Rio
Trabalhadores enfrentam jornadas exaustivas e falta de estrutura básica em busca de renda, evidenciando os dilemas da economia de aplicativos na capital fluminense.
Milhares de motociclistas enfrentam jornadas exaustivas de trabalho pelas ruas do Rio, onde o descanso é reduzido a curtos intervalos sobre o próprio veículo. Essa realidade, que se tornou um pilar invisível do consumo moderno na cidade, foi detalhada em reportagem exibida no segundo episódio da série do RJ2, que investiga o avanço dos serviços de entrega e seu impacto na mobilidade urbana.
Marcos de Jesus, conhecido como MC Chefinho da Nova, sintetiza o desafio vivido por muitos profissionais. Pai de dois filhos, o entregador chega a rodar entre 16 e 18 horas por dia para sustentar a família. Para ele, o ingresso no setor, ocorrido durante a Pandemia em 2020, foi uma alternativa de sobrevivência diante das incertezas econômicas.
A jornada nas ruas reserva mais do que o desgaste físico. Dávila Heloisa Alves, que atua na região da Barra da Tijuca e Jacarepaguá, relata as barreiras cotidianas, como a frequente negativa de estabelecimentos em oferecer acesso a banheiros e água. A precarização do suporte básico fere a dignidade de quem, como ela, faz da moto uma extensão da própria rotina.
Segundo Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o fenômeno reflete a consolidação da "economia do bico". O modelo oferece flexibilidade, mas transfere ao trabalhador a responsabilidade pela falta de previsibilidade e de proteção previdenciária. Em grandes centros, essa ocupação já compõe cerca de 2% da força de trabalho nacional.
A pressão por produtividade traz consequências para o trânsito, com relatos frequentes de desrespeito às leis de circulação para otimizar os ganhos, gerando preocupação em pedestres e motoristas, como a farmacêutica Rebeca Catanhede. Enquanto o setor cresce, associações de classe seguem reivindicando melhorias na remuneração, maior transparência por parte das plataformas e condições humanas de trabalho para quem, como MC Chefinho da Nova, ainda busca no cotidiano exaustivo a esperança de uma vida mais tranquila.
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