AFETO E MERCADO

Anna Jarvis criou o Dia das Mães e se arrependeu profundamente

Anna Jarvis, criadora do Dia das Mães, defendendo a homenagem à maternidade.
Anna Jarvis fez campanha incansavelmente para estabelecer oficialmente o Dia das Mães — Foto: Getty Images via BBC

Nos EUA, vendas superam US$ 23 bilhões; no Brasil, R$ 38 bilhões em 2026. A data foi oficializada em 1914 e 1932.

O Dia das Mães, uma das celebrações mais importantes do calendário global, movimenta bilhões em comércio e serviços a cada ano, como se espera para esta data em 2026. Contudo, a origem desta homenagem, oficialmente estabelecida pelo Congresso dos Estados Unidos em 1914 e depois pelo presidente Getúlio Vargas no Brasil em 1932, guarda uma história de amor filial que terminou em amargo arrependimento. Impulsionada pelo desejo de honrar o "serviço incomparável" de sua mãe, Ann Reeves Jarvis, Anna Jarvis iniciou a campanha que daria origem à data, mas o que nasceu como um tributo à dignidade materna logo se tornou um gigante comercial que a própria criadora tentou, em vão, extinguir.

Nas Américas, a data é geralmente comemorada em maio, no segundo domingo do mês, embora alguns países, como México, Guatemala e El Salvador, celebrem em dias diferentes. Independentemente da data exata, essa celebração tradicional transformou-se em um dos períodos mais importantes do ano para os negócios, especialmente para quem vende cartões, flores, chocolates e outros presentes. Muitos filhos, netos, irmãos e parceiros conhecem bem a data, mas poucos sabem a história por trás da origem do costume de homenagear o amor materno em um dia específico.

Campanha em homenagem a uma mãe

A tradição de honrar figuras maternas remonta aos gregos antigos, que no início da primavera homenageavam Reia, a mãe de todos os deuses, com rituais e oferendas. No entanto, o reconhecimento oficial moderno desse costume começou no século XX, nos Estados Unidos, graças à insistência de uma mulher que nunca foi mãe, mas dedicou sua vida a homenagear a sua.

Em 1905, Anna Jarvis iniciou uma campanha pelo que chamou de "Dia das Mães", logo após a morte de sua mãe, Ann Reeves Jarvis. Três anos depois, em 1908, ela organizou uma homenagem póstuma, mesmo sem a data ser um feriado oficial, transformando-se em uma ativista incansável pela causa. Sua luta para que o dia fosse formalmente reconhecido durou anos.

A motivação de Jarvis vinha de uma oração que sua mãe lhe mostrou certa vez: "Espero e rezo para que alguém, um dia, reconheça um dia em memória das mães, para celebrar o serviço incomparável que elas prestam à humanidade em todas as áreas da vida."

A inspiração também se enraizava no trabalho que Ann Reeves Jarvis realizou durante a Guerra Civil Americana. Em 1850, no estado da Virgínia Ocidental, ela criou um grupo de trabalho com mulheres para cuidar de soldados e promover melhorias na saúde pública. Ela chamava esses dias de trabalho de "Dia das Mães", com um propósito de serviço e comunidade.

Anna Jarvis iniciou sua campanha para reservar um dia especial para as mães enviando cartas anualmente para congressistas, governadores, celebridades e outras personalidades importantes. Alguns políticos chegaram a zombar de seus esforços, sugerindo que, se o Dia das Mães fosse oficializado, também teriam que instituir o "Dia da Sogra".

Em 1911, contudo, todos os estados da União já reconheciam a celebração. Três anos depois, em 1914, o segundo domingo de maio foi oficialmente adotado como feriado em homenagem às mães pelo Congresso dos Estados Unidos. O desejo de Jarvis havia sido atendido, e ela finalmente podia se orgulhar de ter sido a "mãe" do Dia das Mães.

No entanto, pouco tempo depois, Anna percebeu que havia "criado um monstro". A data comemorativa rapidamente se tornou um pretexto lucrativo para os comerciantes, que aproveitaram a oportunidade para estimular a compra de presentes em grande escala.

Atividade comercial

A data tornou-se o tema principal das campanhas publicitárias no início de maio e ganhou um apoio significativo das indústrias de flores e cartões. A história por trás do Dia das Mães — a luta de Jarvis para homenagear o trabalho de sua própria mãe e de outras mulheres — era o roteiro perfeito para impulsionar ainda mais as vendas.

No entanto, a mulher mais responsável pela data comemorativa não aprovou a direção comercial que ela havia tomado e decidiu boicotá-la. A ativista que outrora lutara pela criação do dia agora se mobilizava para eliminá-lo.

"Jarvis considerava o Dia das Mães sua 'propriedade intelectual e legal', não parte do domínio público", escreveu Katharine Lane Antolini, autora de A Comemoração da Maternidade: Anna Jarvis e a Luta pelo Controle do Dia das Mães. "Ela aspirava que este dia fosse um 'dia sagrado' que homenageasse a mãe que colocava as necessidades de seus filhos acima das suas próprias", acrescentou Antolini.

"Ela nunca quis que o Dia das Mães se tornasse um dia para presentes caros, como aconteceu com alguns outros feriados no início do século XX." Antolini, professora de estudos de gênero em uma universidade na Virgínia Ocidental, mora a cerca de 45 minutos de Grafton, onde fica a igreja que Jarvis e sua mãe frequentavam, hoje o Santuário Internacional do Dia das Mães.

De acordo com a pesquisa de Antolini, Anna Jarvis criticava veementemente os comerciantes que "se aproveitavam" do evento, chamando-os de "violadores de direitos autorais, vândalos comerciais e aproveitadores descarados". Ela chegou a protestar contra floriculturas, que aumentaram seus preços em maio, e ameaçou processar muitas empresas que lucraram com a celebração.

Ela também criticou a enorme indústria de cartões impressos que surgiu em torno da data, argumentando que a maneira genuína de demonstrar apreço e homenagear as mães deveria ser por meio de cartas pessoais, escritas à mão. Antolini escreve que algumas organizações tentaram alinhar o significado do feriado com a mudança na percepção da maternidade no século XX, combinando o aspecto doméstico com o impacto das mães na comunidade. Mas Jarvis também rejeitou essa interpretação.

Antes de morrer em 1948, consumida por dívidas e depressão, Jarvis confessou a um jornalista: "Lamento profundamente ter criado o Dia das Mães."

A data no Brasil

No Brasil, o Dia das Mães foi oficializado em 1932, por um decreto assinado pelo então presidente Getúlio Vargas (1882-1954). A determinação afirmava: "O segundo domingo de maio é consagrado às mães, em comemoração aos sentimentos e virtudes que o amor materno concorre para despertar e desenvolver no coração humano, contribuindo para seu aperfeiçoamento no sentido da bondade e da solidariedade humana."

Contudo, a consolidação da data no país ganhou força durante o regime militar, entre 1964 e 1985. "Copiava-se tudo dos Estados Unidos e houve, durante a ditadura, uma valorização enorme da família e das mães, em particular", explica a historiadora Mary Del Priore, autora de História das Mulheres no Brasil. "A maternidade bem vivida, a mulher dedicada aos filhos era um perfil exaltado em concurso, valorizado e que ganhava capas de revista", recorda.

Getúlio Vargas desejava fazer um 'gesto' para as mulheres, num momento em que elas ganhavam visibilidade e adquiriam direitos civis, como o direito ao voto.

Quanto dinheiro o Dia das Mães gera?

Assim como em muitos aspectos comerciais, os Estados Unidos lideram o consumo de bens e serviços relacionados ao Dia das Mães. Outros países ao redor do mundo não apenas seguiram o exemplo na celebração deste feriado, mas também incorporaram fortemente sua importância econômica. Somente nos EUA, as vendas do Dia das Mães representam mais de US$ 23 bilhões.

De acordo com sites especializados, os bens e serviços comprados neste dia não são apenas para mães. Os consumidores compram para todas as mulheres importantes em suas vidas: filhas, irmãs, avós, madrinhas e outras parentes e amigas. No Brasil, o Dia das Mães é a segunda data mais importante do varejo nacional.

A expectativa é que em 2026 a celebração movimente quase R$ 38 bilhões nos setores de comércio e serviços no país, atraindo cerca de 127 milhões de consumidores às compras, segundo levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil.

A pesquisa indica que os produtos campeões de venda devem ser da categoria moda, seguidos por produtos de beleza, chocolates e flores, e experiências, como almoçar fora ou viajar. O levantamento revela ainda que os consumidores pretendem gastar em média R$ 294 com as compras e que as principais presenteadas serão mães, seguidas de esposas e sogras. Porque, como dizem as campanhas, o amor de mãe não tem preço.

*Com reportagem adicional de Edison Veiga, de Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil

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