AVANÇO NA NEUROLOGIA

Painel de proteínas sanguíneas antecipa diagnóstico da ELA

Micrografia comparando neurônio motor saudável e neurônio afetado pela ELA.
Comparação entre neurônio motor normal, à esquerda, e de um caso de ELA, à direita. — Foto: Anatpat/Unicamp

Estudo publicado na Nature Medicine identifica marcadores que permitem prever o início dos sintomas com anos de antecedência, facilitando futuros testes de prevenção.

Um painel composto por 19 proteínas presentes no sangue demonstrou capacidade de prever, com anos de antecedência, o momento em que indivíduos com alto risco genético para a esclerose lateral amiotrófica (ELA) desenvolveriam os primeiros sinais da condição. A descoberta, detalhada em estudo publicado nesta segunda-feira (27) na revista científica Nature Medicine, oferece uma nova perspectiva para o enfrentamento da doença ao reduzir o erro médio de previsão para apenas 1,6 ano.

O achado é crucial para a comunidade médica, uma vez que, atualmente, mesmo em pacientes portadores de mutações genéticas associadas à patologia, não é possível determinar com precisão o surgimento clínico dos sintomas. O avanço representa uma mudança de paradigma: a possibilidade de antecipar a ação médica antes que a destruição dos neurônios comprometa funções vitais como a fala, a deglutição e a respiração.

A ciência por trás do monitoramento

Ao analisar 516 amostras de plasma de 137 participantes, os pesquisadores identificaram 92 proteínas que sofrem alterações antes da chamada fenoconversão — o momento da transição entre a fase assintomática e a percepção clínica da doença. O modelo computacional treinado com essas proteínas superou o desempenho isolado do neurofilamento de cadeia leve (NfL), um marcador já conhecido por subir nos meses que antecedem o quadro clínico.

Marco Aurélio Troccoli Chieia, coordenador do Departamento de Doenças do Neurônio Motor da Academia Brasileira de Neurologia, destaca que a ELA costuma se manifestar apenas quando uma parcela significativa dos neurônios, entre 25% e 30%, já foi perdida. A neurologista Maiara Silva Tramonte ressalta que a degeneração envolve múltiplos mecanismos, como inflamação e metabolismo celular, o que justifica a eficácia de analisar um painel proteico mais amplo em vez de um único marcador.

Limitações e perspectivas

Apesar da precisão demonstrada, os autores advertem que o painel é, por enquanto, uma ferramenta de pesquisa e não substitui avaliações neurológicas. O teste ainda não está disponível para uso clínico e não possui indicação de rastreamento para a população geral. O próximo passo envolve a validação em grupos maiores para que, futuramente, a ciência possa intervir enquanto ainda resta capacidade funcional preservada nos neurônios dos pacientes.

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