SOLIDÃO EM IDOSOS
Médico alerta: solidão na terceira idade dispara risco de doenças graves
Geriatra Jair Segundo detalha os riscos de isolamento, que vão de demência a problemas cardiovasculares, e aponta sinais de alerta para familiares.
A solidão na terceira idade pode comprometer a saúde física, mental e cognitiva, aumentando o risco de depressão, demência, hipertensão, infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e piora de doenças crônicas, como diabetes. O alerta é do médico geriatra Jair Segundo. Segundo o especialista, a solidão é um problema frequente no envelhecimento e, por não aparecer em exames, é identificada principalmente durante a avaliação clínica. A decisão de alertar sobre o tema foi apresentada nesta quarta-feira, 08/07/2026, em consulta clínica, por ser uma condição comum e de grande impacto na dignidade e bem-estar do indivíduo idoso, exigindo atenção de familiares e profissionais de saúde.
De acordo com o geriatra, a solidão está relacionada às mudanças naturais do envelhecimento. Essa fase da vida reúne ganhos, como experiência e amadurecimento, mas também perdas importantes, incluindo aposentadoria, morte de amigos, mudanças familiares e redução da convivência social. “A gente diagnostica na conversa clínica, na investigação, junto com o paciente idoso”, afirmou Jair Segundo.
Jair Segundo destaca que a aposentadoria, quando não bem planejada, pode provocar uma ruptura brusca na rotina, fundamental para o envelhecimento saudável. A perda do trabalho, que servia como marcador de vida e ocupação, pode levar à ociosidade com impacto direto na cognição.
O médico também ressalta que o isolamento social é agravado pela perda de familiares e amigos, pela mudança dos filhos para outras cidades e pela diminuição da rede de convivência. Jair Segundo diferencia morar sozinho de sentir-se sozinho. Viver só pode ser uma escolha, enquanto o sentimento de solidão depende da qualidade das relações sociais e da presença de doenças. “Estar sozinho, ou morar sozinho, é uma coisa. Agora, sentir-se sozinho vai tanto da rotina que aquele idoso leva e da presença dos amigos e familiares nessa vida desse idoso quanto, até mesmo, do quadro patológico”, explicou.
Ele observa que um idoso com apoio familiar pode, ainda assim, sentir-se só. Nesses casos, a situação pode indicar um problema de saúde que necessita de investigação. “Quando acontece isso, normalmente é um quadro patológico. Já é um sinal de alerta que puxa para a necessidade de uma investigação geriátrica”, disse.
Os principais sinais de alerta incluem perda do interesse por atividades antes prazerosas, alterações de humor, mudanças no sono, redução do apetite, esquecimento, recusa em tomar medicamentos e isolamento. “O idoso que fazia determinadas atividades e passou a não fazer. É o idoso que fica dentro da rede, não quer mais sair para conhecer outras pessoas, para ter um aumento de socialização. Tudo isso são sinais de alerta”, afirmou.
Jair Segundo pontua que a depressão em idosos pode apresentar sintomas sutis, diferentes dos observados em adultos mais jovens. Podem ocorrer apenas mudanças de sono, cognição ou humor repentina, ao invés de um entristecimento franco.
A solidão também favorece comportamentos prejudiciais, como o abandono do tratamento medicamentoso, alimentação inadequada, diminuição da ingestão de água e perda da rotina. “Só a solidão como condição, por si só, aumenta a carga pró-inflamatória e também tem efeito em maior quantidade de doenças cardiovasculares. Maior infarto, maior AVC, maior pressão alta, piora diabetes”, alertou.
O isolamento pode contribuir para o surgimento ou agravamento de problemas cognitivos, como demência, ou piora de uma demência pré-existente. O idoso isolado perde referências importantes do dia a dia, como horários de comida e medicação, podendo desenvolver desorientação e delírio.
Pessoas que vivenciaram grandes vínculos familiares ou, ao contrário, passaram boa parte da vida afastadas da convivência por causa do trabalho, podem apresentar maior vulnerabilidade ao sentimento de solidão durante o envelhecimento. A associação entre isolamento social e doenças como depressão, ansiedade e demência é direta. “Esse prejuízo cognitivo pode desenvolver diretamente um prejuízo cognitivo, desenvolver demência. Então a solidão pode ser uma ponta do iceberg para o desenvolvimento de várias doenças, dentre elas tanto físicas quanto cognitivas, quanto demência, depressão e várias outras”, concluiu.
Para identificar o problema, familiares devem observar mudanças de comportamento, esquecimentos frequentes, alterações no sono, perda de interesse por atividades habituais e dificuldades para manter a rotina. “Transtornos de humor de forma geral e problemas no sono. Então o idoso que está dormindo demais ou dormindo de menos também merece uma avaliação”, recomendou.
Mesmo com a rotina impedindo visitas frequentes, pequenas demonstrações de presença fazem diferença. “Fazer uma ligação, uma chamada de vídeo, tomar café com minha mãe, com minha avó, fazer aquele almoço de domingo em família. Tudo isso é algo que com certeza faz diferença e muito na vida do idoso”, afirmou.
Como parte do tratamento, Jair Segundo recomenda a participação em atividades coletivas, especialmente quando a solidão já foi identificada. “Um dos pontos da prescrição médica é a atividade coletiva. Participar de grupos de idosos, atividades de dança, pilates, academia, atividades manuais como crochê e pintura. O idoso precisa estar inserido em atividades coletivas.”
Essas atividades podem reunir pessoas da mesma faixa etária ou de gerações diferentes, desde que favoreçam a convivência e a interação social. Mudanças na rotina, no comportamento, no sono e na memória devem motivar uma avaliação médica. “Para a solidão, o remédio é fácil: é presença”, finalizou o geriatra.
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