Descaso na saúde
Com R$ 32 milhões em caixa e 19 mil pacientes na fila, saúde do RN expõe falhas na gestão das cirurgias eletivas
Estado executou apenas 16% dos recursos federais destinados à redução das filas, enquanto milhares de potiguares aguardam procedimentos cirúrgicos
A saúde pública do Rio Grande do Norte enfrenta mais um retrato da crise que afeta o atendimento à população. Apesar de contar com recursos federais disponíveis para acelerar a realização de cirurgias eletivas, o Estado executou apenas 16% das verbas destinadas ao Programa Nacional de Redução de Filas (PNRF) em 2026. O tema é destaque nesta sexta-feira em matéria publicada pelo jornal Tribuna do Norte, com base em dados dados do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Rio Grande do Norte (Cosems/RN), cedidos à reportagem do matutino diário.
Dos R$ 58 milhões previstos para o Rio Grande do Norte neste ano, R$ 32 milhões já foram liberados pelo Ministério da Saúde. No entanto, apenas R$ 9,3 milhões foram efetivamente utilizados, enquanto cerca de 19 mil pacientes continuam aguardando por uma cirurgia eletiva, segundo dados do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Rio Grande do Norte (Cosems-RN).
Os números revelam um cenário de ineficiência na aplicação dos recursos públicos e levantam questionamentos sobre a capacidade de gestão da rede estadual de saúde. Enquanto pacientes aguardam meses, e em alguns casos anos, por procedimentos considerados essenciais para a qualidade de vida, milhões de reais permanecem sem utilização.
A presidente do Cosems-RN, Maria Eliza Garcia, afirma que o desempenho deste ano é inferior ao registrado no mesmo período de 2025. Segundo ela, faltam prestadores de serviços interessados em realizar os procedimentos e uma articulação mais efetiva por parte do Estado para coordenar o programa.
“Hoje temos dinheiro disponível, mas os prestadores não estão sendo atraídos para atender a grande demanda existente. Falta uma força-tarefa para enfrentar o problema”, afirmou.
A situação é considerada ainda mais grave porque os recursos já estão disponíveis, mas não chegam à ponta do sistema. Entre as cirurgias mais aguardadas estão procedimentos de tireoide e urologia, especialidades que acumulam grande demanda reprimida.
Para especialistas da área médica, o quadro demonstra problemas estruturais que se arrastam há anos. A presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte (Cremern), Giana da Escóssia Melo, destaca a necessidade de ampliar a capacidade hospitalar, garantir equipes médicas suficientes e melhorar a regulação dos pacientes.
Já o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte (Sinmed-RN), Geraldo Ferreira, critica a concentração das cirurgias eletivas em hospitais públicos que já operam sob forte pressão dos atendimentos de urgência e emergência.
Segundo ele, a falta de uma rede complementar voltada especificamente para procedimentos eletivos compromete a capacidade de resposta do sistema e contribui para o crescimento das filas.
O cenário reforça as críticas recorrentes à condução da saúde pública estadual. Enquanto o Ministério da Saúde registra recordes nacionais na realização de cirurgias eletivas pelo SUS, o Rio Grande do Norte segue incapaz de converter recursos disponíveis em atendimento efetivo para a população.
A Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) foi procurada para esclarecer os motivos da baixa execução dos recursos e apresentar medidas para reduzir a fila de espera, mas não respondeu aos questionamentos até o fechamento da reportagem da TN.
Para milhares de potiguares que aguardam uma cirurgia, os números representam mais do que estatísticas. Representam o prolongamento do sofrimento, o agravamento de problemas de saúde e a sensação de abandono diante de um sistema que dispõe de recursos, mas não consegue transformá-los em atendimento para quem mais precisa.
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