CRUELDADE

Envenenamento de 22 animais causa indignação e investigação no RN

Gatos e cachorro mortos por envenenamento no Conjunto Alto de Extremoz, Rio Grande do Norte.
Cena de um dos envenenamentos em massa de animais que chocam moradores de Extremoz, RN.

Mais de 20 gatos e um cachorro mortos em Extremoz levantam alerta. Nova legislação municipal promete punições mais severas.

A Polícia Civil do Rio Grande do Norte investiga a morte brutal de 22 animais – 21 gatos e um cachorro – por envenenamento no Conjunto Alto de Extremoz, na Região Metropolitana de Natal. A decisão de apurar os casos, intensificados na última semana, surge da revolta de moradores e da urgência em conter uma prática cruel que atinge a dignidade de seres vivos e o bem-estar da comunidade. Este crime, que já se arrasta há pelo menos três anos na mesma comunidade, agora ganha reforço de uma nova legislação municipal que endurece as punições e promete mais rigor aos agressores.

Um levantamento exclusivo do Portal BNews Natal, a partir de denúncias recebidas pela redação, revela que mais de 20 animais foram mortos recentemente. Este número agrava um histórico preocupante de violência que já se arrasta há pelo menos três anos na mesma comunidade.

No Conjunto Alto de Extremoz, os relatos indicam que os casos não são isolados. Ao contrário: fazem parte de uma prática recorrente que, na última semana, atingiu um pico dramático de violência.

Ao todo, 22 animais – 21 gatos e um cachorro – foram encontrados mortos, todos com sinais claros de envenenamento. Muitos deles não estavam abandonados, mas viviam sob os cuidados de moradores, que lhes garantiam alimentação, água e proteção.

“São animais que fazem parte da comunidade, são cuidados, alimentados e respeitados”, relatou a arquiteta Sara Libna à nossa reportagem, enfatizando o laço dos animais com o local.

Por trás dos números, há histórias que evidenciam o impacto emocional devastador desse tipo de crime.

A dona de casa Aline Oliveira, por exemplo, perdeu quatro gatos ao longo dos últimos anos, dois deles apenas na última semana. Mesmo com as tentativas de socorro, ela não conseguiu evitar as mortes dolorosas.

“Meus quatro gatos foram envenenados… isso não pode continuar acontecendo”, desabafou Aline, clamando por um fim à crueldade.

Outra moradora, Aparecida, contabiliza sete perdas. Em alguns casos, os animais já eram encontrados sem vida antes mesmo de qualquer tentativa de socorro, o que intensifica a sensação de impotência.

“A gente precisa de uma resposta. Isso não pode ficar impune”, afirmou Aparecida, pedindo justiça.

As tutoras registraram todos os casos em boletins de ocorrência e cobram uma investigação rigorosa da polícia.

Especialistas e protetores de animais apontam que a raiz do problema reside na superpopulação de animais, especialmente gatos, em áreas urbanas.

Uma única gata pode ter até cinco filhotes a cada três meses. Sem políticas públicas de controle e castração, isso leva a um aumento acelerado da população de animais nas ruas.

Contudo, o envenenamento, além de ser um crime brutal, não resolve o problema da superpopulação.

“Algumas pessoas tentam resolver isso da pior forma possível: com crueldade. Isso causa sofrimento extremo aos animais e não tem eficácia nenhuma no controle populacional”, explicou Sara Libna.

A solução, segundo a arquiteta, passa por políticas públicas estruturadas de castração e controle populacional.

Relatórios veterinários reforçam a gravidade dos casos. Um dos laudos aponta que um dos gatos chegou à clínica em estado crítico, apresentando sintomas severos como convulsões, espasmos musculares e parada cardiorrespiratória.

Apesar das tentativas de reanimação, o animal não resistiu. O documento técnico confirma que a causa da morte foi compatível com envenenamento, evidenciando o sofrimento imposto.

A Polícia Civil do Rio Grande do Norte, por meio da delegacia especializada em maus-tratos contra animais, investiga os casos.

Além disso, uma nova legislação municipal em Natal endureceu as punições para esse tipo de crime, refletindo uma mudança na percepção social sobre a gravidade dos maus-tratos.

Entre as medidas, o agressor passa a ser obrigado a arcar com todos os custos do tratamento do animal, incluindo:

  • Consultas e exames veterinários
  • Medicamentos
  • Cirurgias e internações
  • Procedimentos de reabilitação

Outra mudança relevante é a proibição de que o infrator adote animais por pelo menos dez anos, podendo esse prazo ser ampliado em caso de reincidência, visando proteger outros seres indefesos.

A legislação brasileira define maus-tratos como qualquer ação ou omissão que provoque dor, sofrimento ou negligência aos animais.

O caso expõe uma realidade que muitas vezes passa despercebida: a violência contra animais ainda é tratada como secundária, apesar de seus graves impactos sociais e emocionais na comunidade.

Mais do que um problema isolado, trata-se de uma questão de saúde pública, ética e responsabilidade coletiva, exigindo uma ação conjunta de autoridades e cidadãos.

Enquanto os responsáveis não são identificados, moradores seguem convivendo com o medo e com a dor das perdas, que poderiam ser evitadas com conscientização e punição.

Os casos de violência contra animais devem ser denunciados. Além de crime, a omissão contribui para que situações como as registradas recentemente continuem acontecendo, perpetuando o ciclo de crueldade. Em Natal, existem diferentes canais para formalizar denúncias, tanto em casos urgentes quanto para registros formais.

  • Semurb (Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo): (84) 3616-9829 (Atendimento de segunda a sexta, das 8h às 14h)
  • Polícia Militar: 190 (Para situações em andamento ou flagrantes)
  • Disque Denúncia: 181 (Canal anônimo para relatar crimes)
  • Polícia Civil: Registro pode ser feito presencialmente ou de forma online

Denunciar é um passo fundamental para interromper ciclos de violência, responsabilizar os autores e proteger outros animais que ainda podem ser vítimas dessa crueldade.

Os números reforçam que a violência contra animais não é pontual; ela vem crescendo e exige atenção urgente das autoridades e da sociedade. Em 2025, o Rio Grande do Norte registrou um aumento de 9,3% nos casos de maus-tratos em comparação ao ano anterior, um dado alarmante.

Ao todo, foram contabilizadas 540 ocorrências, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública e da Defesa Social (Sesed).

De acordo com a delegada Danielle Filgueira, titular da Delegacia Especializada de Defesa ao Meio Ambiente (DEMATUR) em Natal, grande parte das denúncias envolve situações de abandono e condições inadequadas de criação, práticas que também configuram maus-tratos.

“Abandonar um animal é crime de maus-tratos. É necessário que haja o dolo, ou seja, a intenção de abandonar”, explica a delegada.

Outro ponto de alerta destacado pela delegada é o perfil dos agressores. Segundo Danielle Filgueira, há uma relação recorrente entre a violência contra animais e outros tipos de crimes, indicando um padrão de comportamento perigoso.

“Na maioria dos casos, os agressores de animais também possuem histórico de violência contra pessoas vulneráveis, como mulheres, idosos e crianças”, afirma, sublinhando a importância de combater toda forma de violência.

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