ESQUEMA FINANCEIRO ILÍCITO
Empresa sancionada pelos EUA por elo com PCC operava "banco invisível" para chineses
Investigação da Polícia Federal revela que a Victory Trading movimentou mais de R$ 872 milhões em cripto para atender lojistas chineses sem rastros legais.
Uma investigação da Polícia Federal (PF) aponta que uma empresa sancionada pelos Estados Unidos por seu envolvimento com o Primeiro Comando da Capital (PCC) atuava como um esquema industrial de “cripto-cabo” para facilitar o envio de grandes quantias de dinheiro ao exterior por lojistas chineses, sem deixar rastros legais.
A estrutura, identificada como Victory Trading, operava como uma espécie de “casa de câmbio invisível”, conforme documentos obtidos pela coluna. O principal objetivo era atender ao chamado “dólar China”, um mercado focado em comerciantes asiáticos que vendem eletrônicos e acessórios no Brasil, como iPhones e capinhas de celular.
A engenharia financeira utilizada envolvia o “cripto-cabo”, um sistema que permite transferir valores sem o uso do sistema financeiro tradicional, como bancos ou operações oficiais de câmbio. Comerciantes chineses entregavam grandes quantias em reais à rede e recebiam o equivalente em USDT, moeda digital atrelada ao dólar. A PF constatou que Hong Kong e Taiwan serviam como bases estratégicas para disponibilizar os ativos em carteiras digitais no outro lado do mundo em aproximadamente 10 minutos.
A perícia técnica da PF revelou que o esquema funcionava em escala industrial. Ao analisar o histórico público de transações da principal carteira digital da rede, investigadores identificaram a remessa de 152 milhões de USDT ao exterior em apenas 198 dias, o que equivale a mais de R$ 872,9 milhões. A polícia ainda apura quanto desse montante provém de recursos enviados por comerciantes chineses.
A polícia conseguiu comprovar detalhadamente cerca de R$ 120 milhões por meio de 148 operações rastreadas em grupos de mensagens. Segundo a investigação, a Victory Trading era responsável por captar os recursos no Brasil e inseri-los no sistema financeiro para conversão em criptoativos e posterior envio ao exterior.
Mensagens interceptadas revelaram que um escritório em Hong Kong operava até as duas da manhã, servindo como ponte financeira para o destino final dos recursos: contas de fornecedores na China Continental, como em Hangzhou. Kevin Fortunato, um dos operadores, descreveu a dinâmica: “O ritmo do dol china é diferente. É direto com os lojistas. Os caras é outro time. Lojista não sabe o que é câmbio, pra ele não existe trava, não existe nada disso.”
A PF registrou a preocupação de alguns envolvidos com a proporção e os riscos do esquema. Em conversas, Fortunato e outro integrante, “Zanatta”, discutiram a rentabilidade e os perigos operacionais, com Zanatta alertando sobre as consequências legais para clientes e operadores. Fortunato minimizou as preocupações, afirmando que os chineses não se importavam com as consequências legais e que poderiam retornar à China com altos valores em USDT mesmo após curtos períodos de detenção.
A investigação também aponta que Fortunato orientava outros operadores a receberem menos dinheiro dos chineses devido a instabilidades no sistema com instituições no exterior. Em um diálogo, um operador relata que a “tia” (possivelmente uma intermediária) tinha 600 mil reais na frente com o grupo.
Fortunato chegou a zombar ao descobrir a existência de um mandado de prisão contra ele, ironizando a dificuldade dos policiais em localizá-lo. Um comparsa, ao ser alertado, pediu para apagar todas as informações que o ligassem ao esquema.
Victor Henrique de Oliveira Shimada, sancionado pelos EUA e foragido, é o proprietário da Victory Trading, mas não participava ativamente das operações diretas com os comerciantes chineses. A PF descobriu que outros núcleos eram utilizados para lavagem de dinheiro.
Em agosto de 2022, um áudio revelou que Giovanni, irmão de Shimada, auxiliava o grupo a superar barreiras de compliance bancário, integrando contas da Victory Trading a plataformas como a fintech global Mamoru e o Banco Topázio.
Contudo, dois meses depois, mensagens indicaram um possível rompimento. Fortunato ordenou que Eric Claudino dos Santos, outro operador, falsificasse a assinatura de Shimada para vencer barreiras de compliance e formulários de “Conheça seu Cliente” e prevenção à lavagem de dinheiro. Eric relatou a impossibilidade de burlar o procedimento, enviando em seguida uma imagem de uma tentativa de imitar a assinatura de Shimada com o mouse.
A defesa dos citados não foi localizada pela reportagem.
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