GUERRA ENERGÉTICA
Trump ameaça usinas do Irã; mundo em alerta
Ataques podem ser crimes de guerra e afetar milhões de civis; o estratégico Estreito de Ormuz é o pivô da escalada de tensões.
Neste domingo, dia 05, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou suas ameaças ao Irã, reiterando que poderá destruir usinas de energia iranianas caso o país não libere o estratégico Estreito de Ormuz. A decisão, motivada pela frustração com o bloqueio contínuo da passagem marítima, levanta sérias preocupações, pois tais ataques podem configurar crimes de guerra e ter um impacto devastador na dignidade e na vida de milhões de civis iranianos e na estabilidade econômica global.
Em uma publicação na rede Truth Social, Trump expressou abertamente sua irritação, afirmando que "Terça-feira será o Dia da Usina Elétrica e o Dia da Ponte, tudo de uma vez, no Irã. Não haverá nada igual!!! Abram a porra do Estreito, seus bastardos loucos, ou vocês viverão num verdadeiro inferno - Vocês vão ver! Louvado seja Alá".
O Estreito de Ormuz, uma estreita faixa marítima na costa iraniana, é crucial para o comércio mundial de petróleo e gás natural liquefeito (GNL), conectando o Golfo Pérsico aos oceanos. Aproximadamente 20% de todo o petróleo consumido globalmente e cerca de 20% do comércio mundial de GNL dependem dessa rota vital, com grande parte destinada à China, Índia e outros países asiáticos.
O navio cargueiro de GLP Jag Vasant, de bandeira indiana, transportando gás liquefeito de petróleo, é visto no Porto de Mumbai, na Índia, após cruzar o Estreito de Ormuz, na quarta-feira, 1º de abril de 2026.
Nas semanas iniciais do conflito, embarcações no Golfo Pérsico, Estreito de Ormuz e Golfo de Omã foram repetidamente atingidas por projéteis iranianos, quase paralisando o tráfego marítimo. O Irã possui a capacidade de causar danos significativos com relativa facilidade. Uma reportagem do jornal americano "The New York Times" revelou que o chefe do Estado-Maior dos EUA, Dan Caine, alertou Donald Trump que um único soldado iraniano em uma lancha rápida poderia disparar um míssil contra um petroleiro ou instalar uma mina naval.
Segundo o especialista em segurança Peter Neumann, da emissora alemã ZDF, as empresas de navegação já cessaram o envio de petroleiros para a região, considerando as ameaças iranianas críveis. "Por isso, a via marítima está bloqueada, mesmo sem um bloqueio físico e sem que todo navio seja atacado", explicou Neumann.
Donald Trump mencionou que iniciaria ataques contra a "maior" usina do Irã, sem especificar qual. É provável que os Estados Unidos considerem atingir usinas termelétricas a gás, visto que, em 2023, cerca de 80% da eletricidade iraniana foi gerada a partir de gás natural, conforme a Agência Internacional de Energia (IEA).
As maiores instalações desse tipo incluem a usina termelétrica de vapor e gás de Damavand, próxima a Teerã, com capacidade superior a 2.800 megawatts, e uma grande usina na província de Mazandaran, às margens do Mar Cáspio, com capacidade superior a 2.200 megawatts.
O único reator nuclear iraniano, a usina de Bushehr, localiza-se a cerca de 760 quilômetros ao sul de Teerã, na costa do Golfo Pérsico. Um edifício a 350 metros do reator já havia sido atingido e destruído, segundo o diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi. Contudo, um ataque direto ao reator é considerado improvável devido às consequências imprevisíveis e potencialmente catastróficas.
Quais seriam as consequências para a população iraniana?
A economia iraniana já sofre profundamente com o conflito. Durante o Ano-Novo persa, bazares e centros comerciais permaneceram vazios, reflexo dos ataques, sanções internacionais e da censura na internet imposta pelo governo. Há mais de três semanas, o país está praticamente isolado da rede internacional de internet.
Um ataque às usinas a gás ameaçaria diretamente o fornecimento de energia para milhões de iranianos. Um colapso elétrico resultaria em graves interrupções de sistemas de resfriamento e aquecimento, interrupção do abastecimento de água devido ao desligamento das bombas, e afetaria drasticamente o sistema bancário e a indústria. A vida diária e a dignidade de cada indivíduo seriam severamente comprometidas.
Em resposta às ameaças de Trump, Teerã sinalizou que poderia atacar usinas de dessalinização na região do Golfo. Danos a instalações desse tipo já ocorreram no Bahrein e no Kuwait, causados por ataques ou destroços de mísseis, possivelmente como um aviso indireto do Irã.
Uma campanha sistemática contra essas estruturas representaria uma escalada ainda mais grave, pondo em risco o abastecimento de água de milhões de pessoas. Poucas regiões do mundo dependem tanto da dessalinização quanto os países do Golfo, onde a árida Península Arábica quase não possui fontes naturais de água doce.
No total, os países da região possuem cerca de 3.400 usinas de dessalinização. Em locais como Catar e Bahrein, essas plantas fornecem mais de 90% da água potável. Tais instalações são também cruciais para a indústria química e centros de processamento de dados. Muitas delas estão na costa do Golfo Pérsico, a poucas centenas de quilômetros do território iraniano, tornando-as extremamente vulneráveis.
Quais podem ser as consequências de tais ataques?
Segundo uma análise do think tank americano Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), o impacto no abastecimento de água nos países do Golfo dependeria da quantidade e intensidade dos ataques. Danos isolados a uma única usina de dessalinização poderiam ser compensados por outras instalações, mas ataques com mísseis ou drones contra os grandes centros de distribuição de água representariam um risco muito maior.
"O efeito mais significativo poderia ser psicológico", afirma o CSIS. Isso porque ataques desse tipo comprometem a imagem de segurança e estabilidade, pilar do modelo econômico dos países do Golfo. Mesmo com a garantia temporária de abastecimento por meios alternativos, o prejuízo maior seria a provável retração de turistas, empresas e investidores, que se afastariam ainda mais da região, aprofundando a crise.
Crimes de guerra
Erika Guevara-Rosas, Diretora Sênior de Pesquisa, Advocacia, Políticas e Campanhas da ONG Anistia Internacional, alertou: “Atacar intencionalmente infraestruturas civis, como usinas de energia, é geralmente proibido. Mesmo que se qualifiquem como alvos militares, uma parte não pode atacar usinas de energia se isso puder causar danos desproporcionais a civis. Dado que essas usinas são essenciais para atender às necessidades básicas e ao sustento de dezenas de milhões de civis, atacá-las seria desproporcional e, portanto, ilegal sob o direito internacional humanitário, podendo constituir um crime de guerra.”
Guevara-Rosas acrescentou: “Ao ameaçar com tais ataques, os EUA estão efetivamente indicando sua disposição de mergulhar um país inteiro na escuridão e de potencialmente privar seu povo de seus direitos humanos à vida, água, alimentação, saúde e um padrão de vida adequado, além de submetê-lo a dor e sofrimento severos.”
“Quando usinas de energia entram em colapso, consequências terríveis se alastram instantaneamente. Estações de bombeamento de água parariam de funcionar, água potável se tornaria escassa e doenças evitáveis se espalhariam. Hospitais ficariam sem eletricidade e combustível, forçando o cancelamento de cirurgias e o desligamento de equipamentos de suporte à vida. As redes de produção e distribuição de alimentos entrariam em colapso, agravando a fome e causando escassez generalizada de alimentos. Muitas empresas também fechariam as portas, com consequências econômicas devastadoras, incluindo desemprego em massa”, completou a diretora.
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